Mercy Zidane

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Reflexões sobre o lateral na área


 Zagueiro na área adversária para tentar cabeçada, atacante recuando para ajudar na defesa, goleiro preocupado com o posicionamento, juiz atento ao empurra-empurra, jogadores mais baixos esperando na intermediária para puxar ou brecar contra-ataque. Se você acha que essa descrição se refere a uma cobrança futebolística de escanteio... Acertou! Só que ela está ficando cada vez mais comum também em jogadas de arremesso lateral próximas à meta adversária.

Repetida por centenas de times de vários campeonatos do mundo, a febre do lateral na área não é exatamente uma novidade. Lembro de meu pai dizendo que o lendário Djalma Santos (campeão mundial com o Brasil em 58 e 62 e craque da Primeira Academia palmeirense) era tão forte que conseguia jogar a bola na área adversária com as mãos, criando jogadas perigosas - foi até tema de crônicas de Nelson Rodrigues.

Paulo Sérgio Gralak, zagueiro do Paraná Clube e do Corinthians nos anos 90, também se destacou por arremessar a bola na área adversária com as mãos. Ele chegou até a fazer um gol de lateral devido à falha do goleiro do Umuarama.



Não sei o que diziam os comentaristas brazucas dessas épocas a respeito da prática, mas atualmente o lateral na área virou sinônimo de pragmatismo, futebol feio, jogada típica do antifutebol. Ele atestaria a preferência do técnico por tentar a sorte num lançamento fortuito em vez de trabalhar a bola no chão.

Não vejo problemas no arremesso para a área em si e acho muito simplista dizer que ele é antifutebol. Evidente que a análise não seria a mesma se a equipe a repetisse dezenas de vezes por jogo, mas convenhamos que isso é difícil de acontecer. Ponha seus preconceitos futebolísticos de molho por alguns minutos e abra sua mente aos surpreendentes pontos positivos do lateral na área, em sete argumentos:

1. E o escanteio?


Se estatísticas inúteis fossem compiladas, haveria o dado de que uns 99,9% dos times cruzam a bola para a área adversária numa cobrança de escanteio. A jogada é treinada, surgem alguns gols, mas é evidente que a maior parte delas termina em defesa do goleiro ou em cabeçada do zagueiro. Mesmo assim os jogadores e treinadores preferem insistir nela em vez de tocarem a bola para trás e seguirem tentando a construção de uma plástica jogada de toque de bola e infiltração com a pelota no chão. Por que isso acontece? Num esporte como o futebol, com tentos tão raros, é preferível jogar a bola perto da baliza mesmo correndo o risco de perder sua posse do que voltar às tentativas que se mantêm ao longo de toda uma partida (e que geralmente também não dão em nada - como quase todas as jogadas). Em outras palavras, um time pode dominar o jogo inteiro e só conseguir a chance de fazer o gol num escanteio... Portanto, essa chance pode ser decisiva. Os puristas deveriam defender que todo escanteio fosse batido rasteiro para que se construíssem novas jogadas em vez da loteria da bola na área, já que a lógica da perda da posse é a mesma.

O lateral na área não é exatamente igual ao escanteio. Há semelhanças (como o bololô de gente na área) e diferenças (como a menor velocidade da bola), que podem tornar a jogada igualmente decisiva, como veremos adiante.

2. Não há impedimento


O escanteio também não possui impedimento, mas a bola é, em geral, chutada para trás (exceção feita aos gols olímpicos). No lateral, é possível jogar a bola adiante sem se preocupar com o bandeirinha. O time que lança a bola na área pode então "empurrar defensores" para a linha de fundo apenas com o posicionamento dos atacantes (ou zagueiros que se mandaram pro ataque), caso contrário eles ficariam livres; isso cria mais espaço na entrada da área (guarde essa informação). Uma casquinha para a marca do pênalti e o gol pode acontecer.

3. A velocidade do arremesso pode dificultar a marcação


A bola vem com uma carinha de inofensiva, descrevendo sua parábola em estonteantes cinco quilômetros por hora e... Como num saque jornada nas estrelas de Bernard, o defensor se embanana em sua autoconfiança e ela sobra limpinha para o camisa nove empurrar para as redes. A pelota chega tão devagar que pode dificultar o tempo de bola da zaga, que não está acostumada a rebatê-la nessa velocidade... É tudo o que querem os oportunistas atacantes. Esses dois últimos itens levam ao quarto.

4. A segunda bola (rebote)


Se você pode empurrar a zaga adversária para a linha de fundo e a bola vem vagarosa, há a chance de que, assim que os defensores rebaterem a pelota, ela sobre nas proximidades da área. O time que treina o posicionamento para a jogada pode aproveitá-la para receber a bola em uma posição privilegiada.

5. A pressão física do futebol moderno


Dependendo de onde a cobrança de lateral for marcada, o jogador tem dificuldade de se livrar da marcação. Em casos de cobrança ofensiva, não se trata, muitas vezes, de escolher tentar a sorte lançando a bola na área; trata-se de não perdê-la mesmo lançando-a perto da linha lateral porque há vários adversários próximos que provavelmente a roubariam. Esse tipo de situação ocorre também em laterais defensivos, em que os adversários levam seus jogadores ao campo de ataque para evitar que a outra equipe saia jogando a partir da defesa.

Essa marcação implacável se intensificou nas últimas décadas com o futebol mais físico e ocasionou espaços diminutos mesmo para simples cobranças de laterais. Uma condição que provavelmente favoreceu muito o estabelecimento do lateral na área.

6. Chance de gol "direto"


Mesmo não sendo tão comum, o gol direto também pode sair devido a alguns dos motivos listados acima, como ocorreu recentemente com o Corinthians no primeiro jogo da final do Paulistão 2017.


7. É algo (cada vez menos) inesperado


O elemento surpresa é importante no futebol. Se um time treina jogadas ofensivas de lateral, levando um zagueiro à área adversária para dar uma casquinha e desestabilizar o posicionamento defensivo, a chance de dar certo aumenta. Mas mesmo se ela já estiver manjada, o cobrador pode fingir que vai cruzar na área e, na verdade, lançar a pelota para seu companheiro mais próximo que ficou desmarcado (o Palmeiras de 2016 fez isso após a polêmica do "Cucabol").

Demonização de uma tática


Dar chutão, fazer "chuveirinho", retrancar o time. Levadas ao extremo, essas táticas costumam tornar o jogo mais feio para quem gosta de futebol (por mais subjetivo que isso seja), mas, dependendo da situação de jogo, mesmo a mais técnica das equipes pode usá-las. O mesmo ocorre em situações inversas. Imagine um time em que todos os jogadores precisam dar dribles da vaca sempre que pegarem na bola... Seria uma lástima. O lateral na área é só mais uma tática que, sozinha, não é sinônimo de nada. No futebol atual ela tem aflorado por ser uma oportunidade ofensiva causada pela pressão e intensidade atuais do esporte bretão. Que seja usada com moderação e sem demonização.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

3%, a questão estética e as temáticas sul-americanas


 Produzida pela Boutique Filmes, criada por Pedro Aguilera e lançada em novembro de 2016, a série "3%" ficou famosa por ser a primeira trama brasileira original financiada pelo serviço de streaming dos EUA Netflix. Tendo João Miguel e Bianca Comparato como atores mais experientes em meio a novatos de talento, a produção, dirigida por César Charlone, começou na internet (onde teve episódios-piloto lançados em 2011, financiados pelo FICTV/Mais Cultura) e conseguiu se credenciar, com "marketing de guerrilha", a ser filmada com recursos da multinacional de entretenimento. E por mais que os oito episódios da série pós-apocalíptica voltada para adolescentes abordem temas que têm muito a ver com a realidade do Brasil e do mundo atuais (falaremos disso já já), o que talvez mais tenha chamado atenção da mídia brasileira foi...

A questão estética


Um programa de tevê, um filme, uma série... Todos os produtos audiovisuais (e que têm mais foco no visual do que no sentido da audição) têm uma concepção estética. Cenário, produção, fotografia, posicionamento de câmera, estilo da edição. Não é possível dizer que isso não importa ou que é menor, pois é pelas formas, cores e sons que nossos olhos e ouvidos percebem os estímulos para nos entregarem o sentido da trama, que pode gerar entretenimento, reflexão e debate. A forma é importante; sem ela, não há conteúdo, e é possível elaborá-la de maneira coerente com poucos recursos.

Com um orçamento de R$ 10 milhões (muito pouco perto de sucessos da casa, como Narcos ou House of Cards), "3%" conseguiu desenvolver uma estética coesa. Foi elaborado um ambiente futurista e, sabendo que não poderia gastar muito em efeitos especiais, a série não abusou deles - há poucas cenas abertas e com muita computação gráfica -, nas demais, existem pequenas inserções sonoras e visuais que se encaixam na estética da proposta (portas e vidros se transformam em equipamentos "smart" com curtos sons e efeitos visuais). O fato de a série tratar principalmente de um processo seletivo que ocorre em um local específico também ajudou... Assim como os planos mais fechados e a fotografia que valorizou tons mais escuros, apesar de coloridos.

Parece filme B, disse a crítica de um grande jornal do país, que comparou a produção brasileira a tramas estrangeiras que tiveram maior orçamento. Quem se baseou nessa opinião e decidiu não assistir 3% deixou de acompanhar uma série que lida com temas fortes o tempo todo, apesar de haver alguns problemas compreensíveis para uma estreia, como admitiu Bianca Comparato. Também houve, na crítica, quem enxergou os pontos positivos na série, que já teve a segunda temporada confirmada. Mas vamos ao que interessa (e sem spoilers):

Temáticas


Numa região que parece um país sul-americano (ou seria uma fusão de países?) totalmente miserável chamada de Amazônia Subequatorial, indivíduos que chegam aos 20 anos têm a oportunidade de participarem de um processo seletivo ultracompetitivo - apenas 3% dos concorrentes são aprovados. Quem passa vive em um lugar isolado, rico e próspero, com medicina e tecnologia avançadas: o Maralto, chamado também de "lado de lá".

Com essa breve sinopse já dá para supor que o autor se inspirou no vestibular... E quem dá uma olhada só no piloto da série no YouYube tem a mesma percepção (o comentário em destaque na plataforma é "Esse processo de seleção, no mundo real a gente chama de Enem mesmo"). Na série, quem não é aprovado, tem expectativas de uma vida melhor diminuídas drasticamente.

Fazer a associação com condomínios fechados, em que ricos formam ilhas de segurança, com altos muros e cercas elétricas em meio a bolsões de miséria, comuns no Brasil, também não é difícil. Só que a metáfora "ilha" é levada ao pé da letra na série, pois Maralto, ao que tudo indica, é uma ilha, enquanto o restante da Amazônia Subequatorial se parece com regiões centrais degradadas de grandes cidades, misturadas a favelas.

O candidato ao processo filho de família abastada tem a regalia da empregada doméstica, mesmo sendo obrigado a morar junto do povo até completar seus 20 anos. Os demais convivem com operações policiais arbitrárias monitoradas pelo pessoal do Maralto - dentre esses, alguns precisam falsificar identidades para entrarem no processo, de modo que possam tentar a sorte pela segunda vez ou darem um jeito de sumirem devido a um crime cometido.

Quando o processo se inicia, os jovens são saudados por Ezequiel (João Miguel), o comandante do certame, que faz todos agradecerem a oportunidade de participação. Isso lembra as humilhantes provas de programas de TV em que um desempregado precisa fazer miquices em público para ganhar alguns milhares de reais, de modo que o apresentador, que é um agente dessa exploração, pareça um benfeitor.

Individualismo, meritocracia, escolha de inimigos e os personagens humanos


O processo iguala diferenças e transforma direitos fundamentais em privilégios quase impossíveis de serem conquistados (outra semelhança com o mundo com economia em recessão e cortes). Tendo como perspectiva a vida no Maralto, o individualismo é incentivado e vale tudo para seguir adiante na disputa, mesmo que isso inclua mentir, intimidar e roubar. Questiona-se também a meritocracia.

Mas há o contraponto: a Causa, uma seita que tem o objetivo de unir revoltados com o processo e mostrar, apesar das campanhas oficiais (corroboradas pela igreja), o quão injusta a seleção é. O inimigo não seria, portanto, o concorrente à vaga, mas o sistema que os força a competir.

Em meio a tudo isso, há personagens humanos, que vão sabendo jogar no “reality show” da seleção e que acabam revelando certos segredos e muitas contradições ao longo da trama.

Séries precisam de iscas para os finais de episódios e isso não falta a 3%. Se não é totalmente viciante e com mil acontecimentos de velocidade estonteante, é intrigante. Há forçação de barra em algumas situações (uma cena de envenenamento, a morte de personagem depressiva em um local de recuperação, entre outras). Mas, em geral, a trama conseguiu formar um núcleo de personagens interessantes. Não foi monótona ou previsível, seguiu uma tendência de desconstruir maniqueísmos e deu ao espectador a sensação de gradual aumento do conhecimento sobre a formação dos personagens.

Temas não são aprofundados, mas são reconhecidos e expõem críticas


Todos esses temas listados acima não são abordados profundamente. Não é a proposta da série e provável que o próprio formato não permitisse, mas é muito legal tê-los em uma produção nacional vista em todo o mundo (isso que outros, como estresse psicológico, relação com deficientes físicos, cena de tortura análoga à praticada na ditadura brasileira - também estão na trama -, não foram citados).

Num país com novelas que giram em torno de romances vazios (com exceções) e fogem de temas-tabu, 3% cumpriu com êxito o desafio de fazer ficção científica com baixo orçamento e, mesmo com alguns erros, colocou um ponto de vista sul-americano (e não o já manjado drama do branco estadunidense) no mundo, puxou para o debate temas relacionados com a desigualdade e a crise econômica - dando destaque a atores negros e mulheres. Não é um pastiche de Jogos Vorazes ou de Divergente, pois tem na essência elementos que brasileiros e latinos reconhecem no dia a dia.
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Metalinguagem: agradeço à minha amiga Carol Almeida, que me emprestou seu conhecimento sobre séries do tipo, debateu 3% comigo, ajudou a revisar e a construir este texto.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Sonhos e pesadelos de Temer

 Alguns setores finalmente estão se organizando contra os ataques absurdos de Michel Temer e seus apoiadores. Torçamos e ajamos para que a greve geral saia do papel e seja efetiva.

A falta de tempo fez essa tira ser a lápis, mas acabei gostando do resultado.

Para ver outras tiras, clique aqui.

sábado, 18 de março de 2017

O Sorriso do Morto

Saiu do forno o meu primeiro fanzine de história em quadrinhos. "O Sorriso do Morto" foi concebido no segundo de três dias da oficina "Historietas Autobiográficas", ministrada por Power Paola, no Sesc Pompeia, em fevereiro, mas só ficou 100% pronto agora em março.

Uma das formas da autora de Vírus Tropical estimular a criatividade dos participantes para a elaboração da historinha final era elencando temas em uma lousa. Um deles era "caminho"... E, quando li a palavra, o "causo" surgiu, enfocando a rotina jornalística, um evento sobernatural e um desfecho inusitado.

Veja a história completa abaixo e, se quiser uma cópia impressa, é só entrar em contato comigo. Agradeço quem puder compartilhar o trabalho para ajudar na divulgação. A outra historinha feita na oficina está aqui.

















segunda-feira, 6 de março de 2017

Historieta



O processo de produção do quadrinho acima foi bem parecido com o que a própria história descreve. Eu me matriculei num curso chamado "Historietas Autobiográficas", ministrado no Sesc Pompeia por Power Paola, a equatoriana criada na Colômbia autora de Vírus Tropical, novela gráfica publicada pela Nemo aqui no Brasil (livro do qual gostei muito).

A proposta desse primeiro exercício era simples: descrever, em um texto curto (como se fosse de WhatsApp), a experiência que eu e os demais alunos acabáramos de viver. Em seguida, Paola sugeriu que separássemos o texto e pensássemos em como os trechos poderiam se transformar em quadrinhos.

Eu, que costumo demorar uma eternidade para desenhar, tive meu processo bem acelerado.

"Mas qual é o sentido desse quadrinho?"

No curso, Paola disse algo como: para adquirirmos maturidade em termos de desenho e de roteiro para se produzir algo "grandioso", é preciso desenvolver técnicas, treinar, ter segurança.

Portanto, o objetivo foi apenas o de exercitar e, pra não perder a viagem, tentar fazer algo um pouco engraçado, mesmo que eu nunca chegue a fazer algo "grandioso" até o fim da vida.