terça-feira, agosto 26, 2014

O Palmeiras na vida de um torcedor


Quando me vi, quando me enxerguei como pessoa, quando dei conta de mim mesmo, da minha existência, eu já era, sei lá como, palmeirense.

Pensei que tinha começado quando meu pai me acordou de noite (eu contava cinco ou seis anos de idade) só para me presentear com um lindo uniforme pirata do Verdão - numa malha chinfrim com o logo da Coca-Cola; mas aí percebi que eu fiquei tão feliz nesse dia exatamente porque meu coração já era verde. Muito verde.

"Estranho uma paixão tão forte não ter data de início", pensei. Mas faz sentido: uma das poucas certezas que tenho é que ela não tem dia marcado pra acabar.

Ainda molequinho, na escola, a camisa do Palmeiras era meu uniforme oficial nas aulas de educação física, enquanto os outros usavam vestimenta estudantil. Se eu fosse jogar bola em qualquer outro lugar - o que era bem comum para uma criança doida por futebol, a camisa ia junto, assim como o apelido instantâneo que os desconhecidos me davam: "palmeirense". Pouco me importava que não sabiam meu nome. Nada melhor do que ser chamado de "palmeirense".

Se tinha uma aula vaga ou estávamos tomando as lições de artes, o que eu desenhava? Os diversos gols de Evair; e muitos e muitos emblemas do Palmeiras. Tanto é que a primeira carta de amor que recebi na minha vida, na primeira série, tinha um "P" estilizado - minha admiradora sabia como me conquistar.

A brincadeira favorita? Fingir que era o Velloso no gol;  bater a falta de canhota (mesmo sendo destro) só para imitar o Roberto Carlos; comemorar como o matador Evair,  após mais um gol de pênalti "trotado", contra o goleiro imaginário nas traves de paus e vasos do quintal.

Apesar de ser a principal paixão, eu não gostava só de futebol. Assistia a desenhos animados e séries japonesas. Mas por que será que eu admirava tanto o Shiryu, cavaleiro de dragão em "Os Cavaleiros do Zodíaco"? Por que eu gostava mais do Tommy, em "Power Rangers"? Sim, ambos usavam armaduras verdes.

Eu comprava histórias em quadrinhos, mas a cada título que o Palmeiras ganhava (e eram muitos nos anos 90), queria saber mesmo era da edição especial da Revista Placar e das vastas reportagens e perfis com os meus verdadeiros super-heróis. Cheguei a decorar escalações de times dos anos 70, da segunda Academia palestrina, de tanto devorar essas publicações.

Percebi que meu avô estava muito mal de saúde quando vi que ele não sabia que o Palmeiras tinha chegado à final do Brasileiro de 97. Logo ele, tão fanático... chorei sua morte e, um mês depois, em homenagem, fui com o meu pai, pela primeira vez, ao Palestra Itália, no jogo da primeira fase da Copa do Brasil de 98 - a copa que venceríamos e que nos levaria à tão sonhada Libertadores.

Nos meus aniversários, 24 dias antes dos do Palmeiras, era fácil saber o que eu gostaria de ganhar, ano sim e ano também: camisas do Verdão.

Quando acabou o período de glórias dos anos 90, com escalações lendárias que ainda povoam meus melhores sonhos, e o time caiu de divisão, confesso, fraquejei. Não consegui suportar uma dor tão forte de algo que me dava tanta felicidade. Acinzentei um pouco a minha vida. Deixe-me envelhecer, esqueci a alegria boba de um gol, de uma paixão infantil e "sem sentido". Futebol é só um jogo, não é mesmo?

Prestei vestibular para jornalismo. Será que, se eu não tivesse lido tantas notícias e reportagens sobre o Palmeiras, eu teria feito essa escolha?

Em 2005, após três anos de uma resistência meio covarde e meio adulta, eu me rendi. Já sabia a escalação de cor, salteado, de trás pra frente, com reservas, com time B, revelações da base e o que mais tinha direito. O verde pulsava de novo dentro do peito. Chorei ao subir, depois de oito anos, as arquibancadas do Palestra novamente e enxergar o jardim suspenso. Toda vez que eu entrava ali, até o fechamento para reforma, em 2010 (quando vi um gol de falta de Evair), o coração batia mais forte.

Terminei com uma namorada que havia me dado, poucos dias antes, uma camisa do Palmeiras. Não consegui devolver o presente - era a 7 do Edmundo, como eu iria devolver? Em outro relacionamento, dei uma camisa 9 de 93 à companheira, para que ela se lembrasse de mim. "É a 9 do Evair".

Vibrei muito, pulei muito, gritei muito, tirei muito sarro, dei infinitas cambalhotas.

Chorei muito, esperneei muito, sofri muito e dei diversos socos na parede.

Fiz minha prima, filha de corintiano, virar palmeirense. Fiz um amigo de infância, que não tinha time, tornar-se um apaixonado até hoje. Fiz minha mãe, santista, ser conhecida na escola em que ela trabalha como "a palmeirense". Já pisei em camisa do Corinthians, já ganhei e perdi apostas para envergar mantos rivais, já fiz muita mandinga inútil, já liguei pro meu pai chorando depois de um gol, já enchi a cara depois de título, já quis tirar 3x4 com a camisa verde, já gastei horas e horas vendo e ouvindo jogos do Palmeiras e mais outras discutindo escalações e ainda  mais tantas jogando com o time verde no vídeo game.

Se hoje eu choro quando vejo o gol de pênalti do Evair no 12 de junho de 1993 é porque até hoje lembro que esse foi um dos melhores dias da minha vida. Assisti com meu pai, no bar do Cezinha, rezando no banheiro para que o Palmeiras ganhasse.

Se falta assunto com meu pai, o que nos une é o Palmeiras. Se ligo pra minha vó, ela já comenta do cabelo da Gareca e do desgraçado do Valdivia. Minha mãe pensa em mim quando o Palmeiras ganha, tenho certeza. Minha irmã, ah, um dia ela vai comigo na Arena. Meus amigos mandam mensagens instantâneas no Whatsapp a cada gol (sofrido ou convertido).

"Palmeiras minha vida é você" é um grito que foi muito entoado no velho Palestra, é comum no Pacaembu e preencherá os ouvidos dos frequentadores da Arena.

Por tudo isso, por estar presente em todos os dias dos meus 29 anos de vida, e por ter certeza que será assim até a minha morte, pouco importando se exaltarei Da Guias e Edmundos ou sofrerei com Rovilsons e Gioinos, se irei incentivar ou cornetar... por tudo isso e por saber que as vidas de mais de 16 milhões de pessoas (uma imensa maioria de trabalhadores que se ferra muito nesse mundo) são, nesse sentido, parecidas com a minha, eu digo: Palmeiras, minha vida é você!

Parabéns pelos 100 anos, Sociedade Esportiva Palmeiras!

quinta-feira, agosto 21, 2014

São Paulo (e Brasil) no Pós-Copa

Aí vai a segunda tirinha/charge do blog. Foi inspirada numa frase dita por Fernando Pardal.

A ideia foi juntar a crítica aos absurdos gastos com a Copa, principalmente por parte do governo federal, ao mesmo tempo em que questiona o "padrão Cantareira" do governo paulista: 0% de aumento na represa e no salário dos trabalhadores da educação (em especial os grevistas da USP, que foram reprimidos nesta semana).

Clique na figura para ver em tamanho maior:

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quinta-feira, agosto 14, 2014

Arqueologia industrial e os limites ao avanço da técnica


No fim de maio, devido a um trabalho que precisei fazer para a disciplina de História da Ciência, fui ao Museu de Arqueologia Industrial e Tecnologia (Maitec), localizado em Mairiporã, a alguns poucos quilômetros de São Paulo. Não, eu também não sabia o que era arqueologia industrial.

Como deve acontecer com quase todo mundo, eu associava arqueologia simplesmente a escavações (rolava até uma confusão com paleontologia - que lida com fósseis). Mas esse ramo científico vai muito além, pois se trata do estudo de culturas e modos de vida antigos por meio de objetos materiais. Ou seja, vários vieses são possíveis, desde análises de resquícios de civilizações "intocadas", até a visão mais abrangente sobre a sociedade capitalista ocidental - justamente o que a arqueologia industrial e o Maitec possibilitam, pois há, no local, centenas de "fósseis tecnológicos" que foram bem importantes para o desenvolvimento do homem que habita as bandas do oeste.

Quando você entra no galpão principal do museu (após passar por áreas externas lotadas de pavões {!}) e em sua parte anexa, é possível observar carros antigos, vagões de trens de passeio, locomotivas, aviões, teares, ferramentas de metalurgia, motores, jangadas, prensas, arados, tipografias, betoneiras, tratores, projetores, telefones, computadores, caixas registradoras, carros de boi, discos rígidos, orelhões, máquinas de escrever, mimeógrafos, máquinas fotográficas, gramofones, caixas de correio e por aí vai - muitas coisa ainda em condições de uso. Há cartazes que explicam como a peça funciona e qual foi a importância dela no contexto de sua criação. Também é possível fazer perguntas aos funcionários do local.

Digressão: antes de se estabelecer como sedentário, o ser humano precisou de ferramentas e técnicas para transformar a natureza em bens materiais que satisfizessem suas necessidades. E o domínio dessas técnicas foi alterando não apenas os tipos e a velocidade de criação de objetos, mas as relações entre os indivíduos que compõem a sociedade. Ainda mais porque, de acordo com a visão marxista, as relações sociais e produtivas ocorrem a partir do trabalho, em qualquer sociedade humana.

No Maitec, o foco são os instrumentos que alteraram as relações da sociedade em que vivemos. Além de ser muito legal ver como eram engenhosos alguns itens antigos (que deram certo ou errado) e como eles foram fundamentais para que novas tecnologias se desenvolvessem, toda essa velharia faz pensar.

Imagine quantas vidas a locomotiva alterou por permitir o transporte de cargas e passageiros em velocidade impensável anos antes de sua criação. Quantas pessoas migraram para a zona urbana a partir disso, adquiriram empregos (muitas vezes em condições sub-humanas) e estabeleceram suas relações sociais a partir de uma nova realidade criada a partir dessa técnica? Quantos clubes de futebol com o nome de Ferroviário surgiram mundo afora devido às bitolas metálicas instaladas sobre o solo então inexplorado? Quantos patrões encheram os bolsos a partir da mais-valia alheia com ganho na velocidade de escoamento de mercadoria e barateamento do transporte dos empregados? Quantos produtos úteis e inúteis chegaram a cafundós devido à linha férrea?

Como dá para perceber com as perguntas enviesadas que fiz no exemplo da locomotiva, não se tratou apenas de um desenvolvimento vertiginoso, maravilhoso e sem contradições. Muitos dos itens citados no começo do texto foram importantíssimos para alterar as relações na sociedade do trabalho, mas há limitações. No sistema em que vivemos, mesmo havendo avanço em tecnologia, ela costuma se expandir apenas quando serve aos interesses de quem está no comando - de modo que essa turma possa faturar ainda mais em cima da nova criação.

Em nossas timelines do Facebook, estamos cansados de ver notícias sobre invenções fantásticas que transformariam CO2 em concreto, que substituiriam gasolina por energia elétrica nos carros, que fariam carne de laboratório para não precisar matar animais. E tudo isso, apesar de já ser tecnicamente possível, não vai para frente por questões econômicas. Ou melhor, porque não dá lucro - pelo menos não agora. Numa sociedade em que a ciência e a tecnologia tivessem como foco não a reprodução de capital, mas a ampla satisfação das necessidades humanas, imagino que a coisa seria bem diferente.

E, para terminar, você vai entender o desenho do início do post. O prédio em que trabalho tem uma placa que cita o ano de sua inauguração: 1997. Os empreendedores queriam dar um nome moderno e que passasse a ideia de inovação. Recorreram à língua inglesa e escolheram "New World of Business" (Novo Mundo dos Negócios). Como símbolo, optaram pelo ícone da novidade tecnológica da época: um CD-Rom.
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Metalinguagem: tem uma história legal sobre essa visita que vou contar num próximo post.

quinta-feira, agosto 07, 2014

Tirinha hipnótica nº 1

Depois que comecei a fazer as ilustrações para os posts aqui do MZ, fui me interessando cada vez mais pelo negócio. Vi que eu poderia ir além do recurso "mídia artística" do Corel e voltei a dar umas rabiscadas após logos anos de recesso. O resultado é minha primeira tirinha em 14 anos. Ela é bem simples e tem a função de avisar aos mínguos leitores deste blog que, caso o botão "obter notificações" do Facebook (que aparece após o usuário clicar em "curtir") não seja ativado, quem curtir a página do Mercy Zidane dificilmente irá saber de qualquer atualização. Isso porque há uma nova política da rede social, que restringe o aparecimento de postagens oriundas de fan pagens na linha do tempo do usuário.

Entendeu? Hora de ser hipnotizado (clique na figura para ver em boa resolução):


Para obedecer ao Galo Psicodélico, basta acessar www.facebook.com/mercyzidane, clicar em "curtir" e, no mesmo botão, clicar em "obter notificações" ou "adicionar às listas de interesse".

terça-feira, agosto 05, 2014

O careca da sapataria


Todo dia, o homem de meia idade, alto, com uma careca opaca (ralos cabelos grisalhos ainda crescem pelas laterais), óculos de armação antiga e um queixo pontiagudo deixa a sapataria, na rua Ana Cintra, e sai para fumar, em pequenas pausas ao longo do expediente.

Das oito às cinco, juntando todas as alentadoras folguinhas, a fumaça de pouco menos de um maço passa por seus pulmões. Às vezes, ele olha o movimento e cumprimenta os conhecidos com acenos distantes. Noutras, mira seus próprios pés e bate a ponta do cigarro com o polegar por repetidas vezes, entre um trago e outro. E, como um fumante solitário qualquer, pensa.

Mas nessa época do ano, em um dos primeiros dias do mês, por volta das dez da manhã, o sol encontra a única cerejeira do restaurante que fica em frente à sapataria, do outro lado da rua. A árvore, diferentemente do que ocorre nos outros meses, está quase sem folhas e carregada de sakuras, as pequenas flores rosadas.

Quando o homem resolve sair para fumar e o olhar se desprende um pouquinho para o alto, há a surpresa. Todos os anos ele tem a mesma surpresa de quem lembra o sabor de um prazer há muito esquecido.

Acende o cigarro, apoia uma das pernas na mureta de proteção (de outra árvore, que fica na calçada em que a sapataria está), encaixa o queixo sobre a mão fechada enquanto a outra ponta do braço repousa sobre o joelho. Olhar fixo em direção às flores e o cigarro queimando entre o indicador e o dedo do meio da mão fechada - a outra se esconde no bolso. Quem anda pela calçada nesse momento ouve o longo suspiro, após uma leve tragada. O que a vida poderia ter sido?

Quando criança, como todas as que têm oportunidade, sonhava muito (de olhos abertos e fechados). Gostava de desenhar e pintar e não tinha dúvidas de que seria ilustrador, caso não fosse jogador de futebol. Sempre que podia, pegava o lápis e um pedacinho de qualquer tipo de papel e começava a rabiscar, mas preferia os primeiros minutos do dia. Era o horário em que os sonhos estavam mais frescos e se baseava muito neles para criar cenários e personagens de seus desenhos, complementados com a imaginação. Muitas pessoas, é verdade, não entendiam o que descobriu posteriormente ser seu "estilo". Diziam que os desenhos eram estranhos.

Num dia, mais velho a ponto de poder sair sozinho de casa, foi ao parque, não se lembra o motivo. O clima era frio e ventava muito. Enquanto caminhava, uma sakura chegou a seus pés. Viu mais algumas adiante. Seguiu a trilha e observou, pela primeira vez e com os olhos arregalados, uma cerejeira florida.

"Existe!", foi a primeira coisa que pensou. Caçoaram tanto dele na escola por desenhar uma árvore só com flores e sem nenhuma folha, que tinha visto em seu sonho. Ficou radiante! Tirou o lápis e o caderninho do bolso e começou a gastar o grafite. Tentou construir a delicada planta da forma mais realista possível, fugindo de sua característica principal.

Terminou vinte minutos depois. Viu que de realista o desenho não tinha nada, mas talvez tenha sido essa tentativa fracassada que fez o garoto perceber com mais nitidez a graça de sua prematura arte. Gostou do resultado.

Não mostrou aos familiares e colegas de escola, que costumavam fazer pouco caso de suas pequenas obras. Aguardou ansioso a quarta-feira seguinte, assistiu a toda a aula de artes e, quando a professora Bete estava sozinha na sala, apagando a lousa, aproximou-se e mostrou sua cerejeira. Perguntou se Bete sabia o que era. Ela respondeu com uma sequência de palavras que jamais saíram de sua mente:

-Que linda cerejeira, Fábio! A diferença é que a sua é muito mais bonita do que as que existem de verdade.

O calor do cigarro queimando os dedos fez o homem voltar do transe. Pisou na bituca e chutou-a para o meio-fio. Precisava consertar o salto quebrado da dona Cleide.

Voltava com pesar para o seu ofício, mas parou. Virou-se e mirou as sakuras por dez segundos. Pensou que ainda dava tempo, que existiam artistas que despontavam quando eram mais velhos. Já havia passado noites se perguntando quantos milhares de pessoas não deixaram de desenvolver suas expressões artísticas porque, assim como ele, tinham que trabalhar para sobreviver.

Desta vez ia ser diferente. Não seria como no ano passado e no anterior, ou no que veio antes desses. Ah, não! Desta vez, quando levantasse na manhã seguinte, ia desenhar seu sonho, como nos velhos tempos. E esse novo desenho seria uma guinada na sua vida, traria mais cor a tudo. Quem sabe até poderia descolar um troco? Ia procurar contatos, mostrar sua arte para o povo, vender quadros na feira de domingo, mas não ia deixar a rotina vencê-lo. Não mais.

Quando pegou o salto da dona Cleide para terminar logo o serviço, um calafrio lhe percorreu a espinha e se lembrou, desse vez de outra coisa.

Fazia muitos anos que não conseguia mais sonhar.

quarta-feira, julho 30, 2014

Quais os limites do Bom Senso FC?

Após derrota na Copa, há uma crise no futebol brasileiro. Qual seria a saída por fora do “futebol negócio”?


A Copa do Mundo chegou ao Brasil com estádios superfaturados, empreiteiros enchendo os bolsos, remoções de famílias, greves, manifestações e muita repressão. Enquanto isso, dentro de campo, a seleção pentacampeã passou vexame com a histórica goleada sofrida ante a Alemanha, na semifinal do torneio: um sonoro e inédito 7x1 – a maior derrota do Brasil em 20 edições da Copa do Mundo.

O otimismo acabou em crise futebolística.Não apenas a comissão técnica e os jogadores da seleção foram questionados, mas também os rumos do futebol brasileiro como um todo. Há uma série de pontos falhos, como a pouca atenção dada às categorias de base de clubes e da seleção, a venda prematura de jovens talentos ao exterior, a defasagem dos técnicos, a péssima organização dos campeonatos nacionais, etc.

Enquanto a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que deveria lidar com muitas dessas questões, só tem olhos para os amistosos internacionais e patrocínios milionários da seleção (só em 2014 serão R$ 300 milhões arrecadados), um grupo de jogadores se reuniu desde 2013 para confrontar decisões arbitrárias da entidade (que tem forte parceria com a Rede Globo), sob o nome de Bom Senso Futebol Clube. Essa reunião de atletas foi mais um reflexo do novo momento que o país atravessa em termos de politização.

Os jogadores organizados defenderam medidas básicas, como redução do número de jogos, teto salarial, calendário unificado, partidas espalhadas ao longo do ano para divisões inferiores, melhores horários para as disputas (que não fossem submetidas ao que é exigido por emissoras) e outras.

Com alguns protestos simbólicos, o grupo ganhou notoriedade. A derrota brasileira no campo fez a presidente Dilma Roussef (PT) decidir mostrar serviço para tentar se desvincular da imagem do fracasso canarinho em época eleitoral. Após seu ministro do esporte dizer que o futebol nacional teria uma “intervenção leve”, a mandatária convocou atletas do Bom Senso para uma conversa no Palácio do Planalto, em Brasília, no fim de julho.

Liderados pelo ex-corintiano Paulo André, que atualmente joga na China, os jogadores defenderam a não aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE), que isenta os dirigentes de clubes das consequências civil e penal caso cometam crimes; e sugeriram a democratização da CBF, com mandatos de dirigentes limitados a quatro anos, dando direito de voz e voto a atletas, treinadores, árbitros e clubes pequenos filiados à entidade. Também propuseram uma confederação “menos política e mais técnica”, com investimento em capacitação de treinadores, profissionalização do futebol feminino e de areia, abertura para debate e implementação de um novo calendário, entre outras medidas.

No entanto, quando o assunto foi a possível estatização da CBF (que é uma entidade privada, apesar de gerir um bem público), os jogadores do Bom Senso, como citado em artigo de Paulo André na Folha de S. Paulo, no dia 18 de julho, disseram: “Sabíamos que estatizar o futebol não era, nem de perto, a solução para os nossos problemas”. Certamente que uma estatização do esporte sem participação dos atletas, árbitros e comissões técnicas nas tomadas de decisão pouco adiantaria. Mas existe realmente a possibilidade de democratizar, pelos métodos propostos pelos jogadores, uma entidade tão corrupta quanto a CBF?

Dificilmente a estrutura de poder seria alterada sem uma mobilização massiva, pois o poder de decisão sobre um campeonato vale muito dinheiro para que CBF, Globo e cartolas de clubes o dividam com um jogador semi-amador.

Mas o ideal não seria que todos os jogadores profissionais, do goleiro de um time da Série D a um centroavante do clube campeão da Série A, ganhassem o mesmo salário? E se pudessem ter exatamente os mesmos poderes decisórios, como possibilidade de debater e votar um calendário de jogos para o ano todo?

Num terreno como o do futebol brasileiro, que parece estar estacionado na ditadura militar (o atual presidente da CBF, José Maria Marin, foi deputado estadual pela Aliança Renovadora Nacional - Arena -, partido da situação na época dos “Anos de Chumbo”), o Bom Senso, apesar de parecer dar passos democráticos, não representa a totalidade dos jogadores, principalmente a parcela mais pobre deles (82% dos jogadores profissionais recebem cerca de dois salários mínimos). As únicas alternativas formuladas para os atletas menos badalados são a criação da série E e o aumento do número de jogos nas séries C e D.
Não há propostas de organização em sindicatos de atletas, em que a representação da categoria seria mais justa e todos poderiam opinar a respeito.

Não é por meio de uma reforma numa instituição privada, com interesses de empresas por todos os lados, que as grandes disparidades salariais e a falta de organização no futebol seriam superadas. A estatização foi rechaçada pelos atletas do Bom Senso, mas não faria mais sentido que jogadores, técnicos, profissionais da área e toda a população participassem de processos públicos de tomada e gerenciamento do esporte? Isso seria impossível com a gestão da “paixão nacional” pela CBF.

E mesmo que o futebol fosse estatizado pela base de forma democrática, em um processo que dependeria da mobilização de vários setores da sociedade, uma pergunta simples colocaria muita coisa em xeque: para que serve o esporte? Antes de ser a forma de sobrevivência de certos indivíduos, ele é uma atividade fundamental para o desenvolvimento da educação do corpo e da saúde pública, além de servir para divertir.

Dessa forma, deveria ser uma prática garantida a toda a população - o que está longe de ocorrer hoje em dia (vide a falta de quadras e campos em periferias). Qualquer um, nas suas horas livres, deveria ter direito de se associar a grupos de prática esportiva e poder utilizar equipamentos públicos para isso. Numa sociedade sem desigualdades, em que todos tivessem mais horas de lazer e o Estado garantisse o acesso às práticas lúdicas, o esporte tenderia a deixar de ser o que é hoje (um negócio milionário que forma poucos superatletas com gordas contas bancárias, além de ter uma maioria que recebe uma miséria e uma infinidade que não consegue sequer praticá-lo), tornando-se simplesmente uma prática lúdica e não profissional, voltada para a educação física e para o divertimento.

É bem difícil refletir sobre como seria se o futebol não dependesse do lucro de emissoras, bancos e outras empresas para existir. Como os times se dividiriam se não houvesse diferença de renda entre agremiações? Por bairro? Por estilo de jogo?

Nos primeiros anos após a Revolução Russa de 1917, a prática esportiva no país começou a se massificar e surgiram, de forma natural, grandes atletas. Diferentemente do que ocorre hoje, quando algumas promessas são “pinçadas” e submetidas a exaustivas rotinas de treinos, que levam a diversas lesões. Até os dias atuais, países do Leste Europeu e Cuba colhem alguns frutos em competições internacionais, por incrível que pareça, devido ao amadorismo resultante da massificação esportiva.

A garantia estatal das condições para a livre prática esportiva, sob controle da população, pode ser uma resposta para os diversos problemas enfrentados pelo futebol brasileiro. É preciso pensar o que fazer para que o “futebol negócio” se transforme simplesmente em “futebol prazer” e “futebol educação".
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Metalinguagem: escrevi este texto para a edição 107 do jornal Palavra Operária, da Liga Estratégia Revolucionária. Contei com importantes contribuições de camaradas para chegar à versão final. Apesar de a ideia inicial ter sido apenas levantar alguns aspectos da "crise futebolística", o artigo me fez pesquisar e pensar num bocado de coisas.

quinta-feira, julho 17, 2014

A equilibrista de angústias

Não tinha medo da morte, ou apenas dela. Morrer, em muitas situações, poderia ser reconfortante. Um alívio; um momento em que a dor cessa e se transforma num "quase prazer". O que a angustiava era o longo caminho de sofrimento até a ruptura. Tinha medo de picos de dor que seriam tão fortes a ponto de transformarem a morte na escolha mais fácil.

Percebeu sua fobia quando lia sobre histórias de grupos que tiveram que renunciar à vida que levavam e foram obrigados a mergulhar numa nova realidade, sobrevivendo com pouca perspectiva de retomada ou de mudança.

Então imaginava o sentimento individual nesse contexto. Sentia a dor de um índio brasileiro do período de 1500 após a captura por portugueses, sendo obrigado a comungar, aprender uma nova língua, trabalhar para ter menos do que a natureza lhe dava antes e a pensar que a vida toda seria batalhar para criar um milagre, oposto pelo vértice à maldição da chegada européia.

Pensava em alguma negra insurreta de um quilombo nordestino do século XVII ou XVIII. Tirada de seu continente, revoltou-se após muitas chibatadas, mas se via cercada por tropas imperiais. Por mais que lutasse e conseguisse sobreviver, sabia que carregaria a dor da morte de irmãos e da saudade de uma existência que não tinha mais como voltar.

Suava frio e se perguntava o que faria em tais situações. Desconfiava, mas não sabia.

Olhava para si. Tinha que agradecer as oportunidades que tivera e que muitos sonhavam ter. Mas via, de um lado, as oito horas de trabalho, as obrigações e cobranças por toda parte, mesmo de quem a amava. Do outro, percebia que a infância perdera a cor gostosa que a memória costuma dar e que seus prazeres atuais eram vazios, mesquinhos e de difícil superação. A luz, lá no fim do túnel, um dia viria, mas conseguiria ela suportar uma existência sem sentido? Anos a fio de segundos insossos desfilando a sua frente pesavam e causavam desequilíbrio. Ela chorava.

Às vezes, para não cair, jogava coisas para cima enquanto andava sobre a corda bamba. Noutras, quando enxergava as cores, segurava-se com a força de seus braços e pernas à linha mestra. Mas esses momentos eram curtos e um dos lados ia ficando novamente mais pesado a ponto de fazer a respiração doer. O suor frio voltava. Respirava fundo, tentava secar as lágrimas e não pensar no que sabia que iria aparecer em sua mente.

Nessas horas, a dor a fazia correr mais livre. Enxergava o caminho, mas não era ele o que a estimulava. Apenas não se importaria com a queda.

segunda-feira, julho 07, 2014

Um pouco sobre esquerda, estética e conteúdo


Quem começa a militar em partidos e organizações de esquerda, costuma o fazer por uma mistura de convencimento racional e paixão pela vontade de mudar o mundo.

É uma relação dialética entre as duas coisas: não dá para se convencer sem sentir a gana de construir um futuro diferente na atuação diária e também não há modo de ter só a paixão e não pensar estrategicamente, aprendendo com as lições do passado e verificando quais dos diversos caminhos propostos por várias visões valem a pena.

O problema é que, infelizmente (apesar da conjuntura estar se alterando), ainda são poucos os comunistas neste mundo. Quando essas ideias escapam dos espaços mais tradicionais de atuação da esquerda, como certos sindicatos, centros acadêmicos, movimentos sociais, etc., há um grande ruído comunicacional, principalmente quando falamos de mídia (jornal, vídeo, internet).

Excluindo as correntes que se adaptam ao que a maioria pensa sem fazer as críticas necessárias, as demais chegam com um discurso que soa, de maneira geral, como um romantismo abnegado de quem dedica sua vida a uma causa nobre, como se bastasse gritar palavras de ordem com várias exclamações, citar exemplos desconexos e siglas ininteligíveis para fazer uma pessoa perceber os absurdos do sistema e ideias complexas que podem superá-lo.

Mas, infelizmente, um punhado de comunistas não faz revolução (desculpe o trocadalho, foi inevitável) - e se faz, ela já nasce degenerada, como no caso da Revolução Cubana, em que os trabalhadores não foram sujeito ativo do processo revolucionário e acabaram sendo governados até hoje por uma burocracia que se perpetuou no poder por ser a parte mais ativa na derrubada do antigo regime.

Ou seja, de qualquer jeito, é preciso convencer mais pessoas de que certas ideias que parecem absurdas e que questionam a raiz dos problemas do capitalismo, como estatização dos transportes sob controle de trabalhadores e usuários, autogestão de fábricas por parte de trabalhadores, etc., não são. E, para isso, o trabalho de base é importante, mas o uso aprimorado e criativo de ferramentas de comunicação também é, porque pode ser eficaz  tanto na relação diária nos locais de trabalho e estudo, quanto de forma mais superestrutural, difundindo conteúdo pela vastidão do mundo virtual.

É muito difícil puxar pela memória uma produção gráfica ou audiovisual da esquerda que seja criativa e abra portas para novas cabeças pensarem a partir dessas ideias. Geralmente os jornais são grandes bíblias, os vídeos têm sindicalistas falando por vários minutos, usando e abusando dos clichês que mais afastam do que aproximam. Pouca linguagem inovadora, poucas sacadas, muita repetição. E o pior é que as técnicas para fazer algo diferente já estão bem difundidas.

No Brasil, quem foge dessa linha é Rafucko, um militante independente que faz vídeos muito criativos e irônicos, com um conteúdo político muito forte. Outro ponto fora da curva é a websérie Marx ha vuelto (da qual falei aqui).

Bom, e eu disse tudo isso para mostrar que, dentro das minhas pequenas possibilidades, tento estimular um jeito diferente de fazer conteúdo dentro da esquerda, a partir da também pequena organização em que atuo (que ainda está longe de ser exemplo em termos comunicacionais). Como tenho mexido com audiovisual, tentei produzir formatos novos de vídeos em algumas oportunidades. Até agora, o que deu mais certo foi o da visita do papa ao Brasil. Mas, na última semana, fiz um vídeo que tenta criticar a repressão do período da Copa de um modo diferente: com a narração futebolística entra os times dos manifestantes e da repressão:


quinta-feira, junho 26, 2014

John Lennon cantaria: "Libertem Fabio, libertem Rafael"


Em 1969, nos Estados Unidos, um ativista foi detido por portar dois cigarros de maconha. Cerca de dois anos depois, em 1971, ele serviu como bode expiatório para a cada vez mais lucrativa "guerra às drogas", que ocorre até hoje por terra yankees: houve julgamento e ele pegou nada menos que dez anos de prisão.

O caso absurdo gerou uma grande campanha democrática para a libertação imediata do ativista, que atendia pelo nome de John Sinclair. John Lennon, que morava nos Estados Unidos à época, compôs uma canção com o nome do rapaz para fortalecer a mobilização.

A música, que ajudou a libertar o ativista alguns dias depois, tem versos como (em tradução livre):

-"Não é justo, John Sinclair / Preso por respirar ar";
-"Se ele fosse da CIA / Vendendo drogas para ganhar dinheiro / Ele estaria livre / Iriam deixá-lo viver / Respirando ar como eu e você";
-"Ele foi preso pelo que fez / Ou representando todos?"

Apesar do contexto bem diferente (países, momento histórico, motivação, etc.), há pontos em comum entre o caso descrito e o que aconteceu com as prisões arbitrárias de Fabio Hideki Harano e de Rafael Marques Lusvarghi, no último protesto contra a Copa do Mundo, aqui no Brasil, no dia 23 de junho. Quando fiquei sabendo da história, foi a canção de Lennon que veio à minha cabeça, até porque a prática repressiva e as táticas de criminalização da polícia dos poderosos têm se modificado muito pouco ao longo das últimas décadas em todo o mundo.

Para que não haja brecha para confusão, o flagrante inventado pela polícia nada tem a ver com drogas (que deveriam ser legalizadas, em minha opinião), mas com o direito de manifestação. Ambos estavam num ato realizado na Avenida Paulista quando foram revistados arbitrariamente e presos por associação criminosa, porte de explosivos, desacato. O secretário de segurança do estado diz que eles são líderes dos Black Blocs (que sequer têm líderes) em uma clara referência de que são os bodes expiatórios para o recrudescimento da ação policial após o ato do dia 19, organizado pelo MPL, em que houve depredações. Várias testemunhas, como o Padre Julio Lancellotti, alegam que as provas foram plantadas - também há filmagens que enfocaram a "geral" tomada por Harano e que comprovam isso.

Querem dar até oito anos de prisão a Fabio simplesmente porque usou seu direito e resolveu se manifestar, como já fez várias vezes e como acredita que pessoas não egoístas devem fazer. Querem botar Rafael no pau de arara público para mostrar o que acontece com quem vai às ruas, defendendo o interesse de muitos.

Por tudo isso, acredito que, se Lennon estivesse vivo, ele seria contra prisões arbitrárias com penas esdrúxulas de pessoas que apenas respiraram ar se manifestando e estão sujeitas a serem bodes expiatórios nacionais. Ele cantaria: "Libertem Fabio! Libertem Rafael!"

terça-feira, junho 24, 2014

Transcrição de um sonho

Certa vez li um livro do Kafka chamado "Sonhos". Nada mais é do que uma coletânea de sonhos que o autor transcrevia logo ao acordar, em diversos períodos da vida. Há uma frase dele próprio na contracapa do livro: "escrever uma autobiografia me daria grande prazer, pois seria tão fácil quanto anotar sonhos".

Os sonhos embaralham as nossas percepções do real e nos colocam em um filme abstrato em que nos é dado o papel principal. Eles brincam com sentimentos tão profundos de formas tão simbólicas que, às vezes, podem ser, na hora em que são escritos, a "literatura das nossas vidas". E o mais fantástico disso é que sequer lembramos desse "acordar pra dentro" por mais de algumas poucas horas.

Dia desses encontrei um sonho que anotei em julho de 2012. Aí vai:

"Foi um sonho e ao mesmo tempo um pesadelo. Estranho não seria um bom adjetivo para classificá-lo, já que um sonho “normal” é que está fora dos padrões do que é normal na vida. Estávamos eu e minha companheira andando na rua, à noite, junto com um amigo. Foi então que encontramos outro amigo em comum e os cumprimentos normais se sucederam. Mas a “pilhéria" (brincadeira que parece uma briga) entre os dois amigos em comum confundiu as demais pessoas que passavam pela ruela, que pensavam se tratar realmente de uma briga. Na verdade, foi o pretexto que esperavam.

Tiros para o alto. Num piscar de olhos (ou num passe de mágica, se preferir), estávamos numa balada (boate, danceteria, etc.), mas todos eram reféns do grupo que iria se apresentar. O tempo todo apontavam armas para nós, humilhando-nos. Estávamos sempre no chão, com as mãos na cabeça, mas era como se deslizássemos pelo solo para que mais de uma pessoa tivesse a possibilidade de nos ameaçar.

Num corredor, uma mulher muito bonita estava sentada. Umas sandálias femininas desamarradas estavam no chão, mas não era possível saber de quem eram. Ela me pediu a bolsa de minha amiga (que sei lá como também estava lá) e eu dei. Ela retirou os cartões bancários e perguntou onde estavam os meus. Fiz o movimento de tirá-los da carteira, mas amassei o que uso mais para inutilizá-lo e dei os dois que tinha para a mulher. Ela, obviamente, percebeu e, num gesto de desprezo, devolveu-me ambos.

Na próxima cena, é como se eu tivesse dormido por um tempo. Ao acordar (ainda dentro do sonho), os músicos guardavam os instrumentos e eu comecei a conversar com eles, que retribuíam, mas com chacotas. Perguntei de onde eles eram. Um disse que era são-paulino. Eu falei que era palmeirense, então outro me mandou tomar no cu e todos riram, inclusive eu. Repeti a pergunta e me disseram que eram do Pari. Me despedi cordialmente, eles novamente retribuíram, mas com ironia.

Na saída, dei de cara com uma festa de rua, em que algumas amigas estavam na barraca frontal. Não sei o que estava à venda, mas quando fui cumprimentar uma delas, derrubei um copo d’água no fogão, apagando o fogo. Em seguida, saudei duas amigas da minha mãe e a minha tia, que estava fumando um cigarro de palha ou de maconha e bebendo. Apesar de radicalmente contra entorpecentes e álcool, minha tia não fez menção nenhuma de esconder de mim o cigarro ou a bebida. Aos trancos e barrancos e com a demora para reacender o fogo, ela foi entrando na barraca e dizendo algo como “eu vou arrumar essa porra”.

Foi então que acordei. No entanto, antes dessa passagem, que foi a mais marcante e que me fez despertar de mau humor, houve outra parte, não menos melancólica. Eu estava na casa da minha avó paterna e eu procurava por desenhos, se não me engano, para pintá-los. Encontrei alguns. O primeiro era muito simples e tinha alguns rabiscos, com a face de três pessoas (eu, minha vó e meu pai). O segundo enfocava a mesa da cozinha, com uma galinha ao centro. Era um desenho mais elaborado. O terceiro era um muito bonito, com a figura de uma galinha iluminada pela luz de uma vela. Os traços do sombreado eram nítidos, mas se confundiam com as penas e davam um efeito espetacular".