Mercy Zidane

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Dilma fez a vaca tossir

Na campanha eleitoral do ano passado, Dilma Roussef, do Partido dos Trabalhadores (PT) prometeu em campanha que não mexeria nos direitos trabalhistas. "Isso (direitos) eu não mudo nem que a vaca tussa". Sua equipe de marketing inclusive usou uma vaquinha como ícone de propaganda depois que a frase foi proferida pela presidenta.

Mas apenas alguns meses após a reeleição, Dilma já fez a vaca tossir. Trecho de artigo do site Palavra Operária explica rapidamente a profundidade dos cortes trabalhistas implementados pelo governo por meio de medidas provisórias:

"Com as medidas provisórias, direitos básicos como auxílio-doença, pensão por morte, abono salarial, seguro-desemprego (o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, inclusive está dizendo que “seguro-desemprego está fora de moda”) e seguro pescador ficam praticamente excluídos para os trabalhadores mais jovens e mais precários, que ocupam a parcela de empregados que mais cresceu na década petista, o trabalho rotativo. E mais, no caso de acidente de trabalho (que no Brasil estão em torno de 750 mil por ano, apenas os registrados em Comunicado de Acidente de Trabalho [CAT]) ou doença por decorrência do trabalho, entregam a avaliação médica para o algoz. Ou seja, tiram do INSS a avaliação médica que permitiria afastamento segurado e coloca na mão da própria empresa a decisão. A empresa te mutila e depois te fará pagar".

A charge que fiz é para "homenagear" esse absurdo. Veja a íntegra do artigo citado, que mostra como formar um contraponto a esses ataques, aqui.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Um emocionante centenada e as perspectivas para 2015

Quando falamos que algo foi "emocionante", na maioria das vezes, queremos dizer que a situação mexeu com a gente, mas teve um final feliz (Aquele filme foi emocionante). Já quando a coisa não é lá muito positiva, costumamos ser mais diretos (É, foi um negócio triste).

Tá, pode ser que eu esteja exagerando, mas intenção dessa analogia é afirmar: 2014, o ano do centenário do Palmeiras, foi emocionante. E isso não aconteceu "apesar dos pesares"; na verdade, foi "por causa" deles.

Começamos 2014 com um time estruturado, que ganhou a série B do ano anterior facilmente, mantivemos o treinador (Gilson Kleina) e os principais jogadores (Prass, Henrique, Wesley, Valdivia, Leandro e Kardec). A diretoria contratou alguns reforços (que vinham em baixa) para compor elenco e apostou em dois nomes mais famosos (Bruno César e Lúcio), apesar de estarem longe do auge de suas carreiras. Tudo levava a crer que o time seguiria a cartilha dos gigantes que caíram para a segundona e voltaram disputando títulos mais modestos e beliscando vaga para a Libertadores.

O zagueiro Henrique (posteriormente convocado para a seleção nacional na Copa do Mundo) foi vendido ao Napoli devido a um entrevero com o presidente Paulo Nobre por causa de salários atrasados. Os adversários da primeira fase do Paulistinha não fizeram com o que o palmeirense sentisse falta do cabeludo. Aos 36 anos, Lúcio enganava a todos com maestria contra os frágeis ataques interioranos.

No campeonato regional, íamos bem. Alan Kardec continuava metendo um gol atrás do outro. O Palmeiras venceu o São Paulo com propriedade, empatou com o Corinthians e perdeu do Santos em jogos equilibrados. Credenciava-se ao título do regional, disputando o favoritismo com a equipe da baixada.

Eis que a zica dos anos anteriores começou a mostrar sua cara. Na semifinal, contra o modesto Ituano, em um Pacaembu lotado, Fernando Prass se machucou no intervalo do jogo (que era difícil, trucando e estava empatado sem gols). Como se não bastasse, Alan Kardec e Valdivia também se lesionaram e precisaram ser substituídos. O time perdeu a segurança na defesa e as principais armas de ataque. Lançou-se à frente de forma desorganizada e tomou os previstos contra-ataques; num deles: gol do Ituano. O título mais palpável se esvaía em uma noite que terminou com bisonha cabeçada de cocuruto (e de olhos fechados) de Vinícius, com o gol aberto - um realista resumo do jogo, para corvo nenhum botar defeito.

Alan Kardec e o início do Brasileiro

Mas tudo bem, afinal, um azar gigantesco às vezes acontece e não se pode fazer nada, certo? Foi o que pensou Paulo Nobre e boa parte da torcida. E podia realmente ter sido só isso se não acontecesse o maior erro da gestão do corredor de rali até então: a perda de Alan Kardec para o rival São Paulo.

Eu escrevi sobre isso numa postagem da época porque o episódio doeu muito. Não apenas perdemos o nosso centroavante artilheiro e melhor jogador do time, mas ele saiu para o São Paulo, no ano do centenário e, dizem, por uma diferença de R$ 5 mil de salário (na elite profissional do futebol, isso é considerado pouco, mas não podemos naturalizar). A autoestima do palmeirense, que deveria estar alta num ano tão especial, foi pisoteada. Sem contar que o time desmoronou após a saída de uma das principais referências técnicas.

No Brasileiro, Kardec deu ao time a vitória no primeiro jogo (contra o Criciúma, fora de casa), mas nos confrontos seguintes, já sem o centroavante, duas derrotas (Fluminense e Flamengo) deixaram a torcida cabreira. E então veio uma sofrível apresentação contra o Sampaio Corrêa, no Maranhão, pela Copa do Brasil. Em dois ataques, a defesa do Palmeiras (que mais parecia a de algum time de várzea) tomou dois gols em cinco minutos. E podia ter tomado mais se não fosse ótima atuação do goleiro Fábio.

Quando acabou o jogo e desliguei a televisão pensei: "Kleina está perdidinho". Como haveria a pausa para a Copa do Mundo em algumas rodadas, Nobre raciocinou como eu e decidiu demiti-lo para tentar o início de um novo projeto enquanto as seleções se enfrentavam em terras brasileiras. Julgo a demissão de Kleina acertada, apesar de ele ter motivos para reclamar da perda de peças importantes sem reposição necessária. Mesmo com o planejamento esfacelado, ele não conseguiu convencer que era um técnico dos grandes nem na Série B. Como não havia muitas opções baratas no mercado no início do ano, acabamos ficando com Kleina, pois daria continuidade ao trabalho. Não deu certo.

Alberto Valentim assumiu interinamente e mostrou serviço ante adversários frágeis (o que aliviou os que já temiam o rebaixamento): triunfos contra Vitória, Goiás (com ótima atuação de Valdivia) e Figueirense. O nome do auxiliar foi até ventilado para ganhar o cargo, mas um gringo já estava pintando no pedaço: Ricardo Gareca.

A era Gareca

O "empolgou" original: Nobre pensou que o time do Brasileiro era bom

Após a saída de Kardec, parecia que o Palmeiras repetiria mais um ano fazendo um campeonato mediano. Se o time do início do Paulista dava mostras de que poderia disputar vaga na Liberta, o que sobrou dele na pausa para a Copa não dava essa esperança. Até que "El Tigre" Ricardo Gareca foi anunciado como novo comandante técnico alviverde. Treinador vitorioso na Argentina, o cabeludo levou o Vélez Sarsfield a conquistas importantes e chegou mostrando toda a sua simpatia para imprensa e torcida.

A escolha, novamente, soava como certa, assim como  a manutenção de Kleina no início do ano e sua demissão após péssimos resultados. Apesar de não estar ambientado ao futebol brasileiro, Gareca teria tempo para conhecer o elenco e contaria com peças de sua confiança (Paulo Nobre prometeu contratar gringos, que realmente vieram). O fundamental, no fim das contas, é que ele conhecia muito de futebol.

Infelizmente, as coisas não eram tão simples. Sim, ele sabia treinar um time e queria fazer o Palmeiras jogar para frente, mas sequer conhecia o próprio elenco (que era bem fraco) e, pior do que isso, não fazia ideia de como os times adversários jogavam. Os reforços (Tobio, Mouche Allione e Cristaldo), que chegaram após o período de treinos da inter-temporada, também precisavam se adaptar ao futebol brasileiro. Resultado: o que começou com a euforia do "Empolgou", acabou com o sofrimento de sete jogos sem vitória no Brasileiro e o flerte com a zona de rebaixamento. Em todos os confrontos contra times grandes até o fim do primeiro turno, o Palmeiras havia tido apenas um resultado que não o de derrota: empate contra o Grêmio na nona rodada, ainda com Valentim. Após vitória suada contra o Coritiba, veio novo revés ante o Internacional, no Pacaembu. Eu esperaria mais uma rodada para ver se o argentino se daria bem contra o fraco Criciúma em casa. Nobre não teve essa paciência. Gareca demitido, Palmeiras perto do rebaixamento e quatro jogadores argentinos que não sabiam nem onde fica a avenida Paulista.

Calvário com apoio da torcida 

O ataque era inoperante: Leandro vivia péssima fase; Diogo só foi fazer seu primeiro e único gol no segundo turno do Brasileiro; Henrique, que balançava as redes com frequência, também perdia muitos tentos e era péssimo tecnicamente; Mouche só ciscava para a esquerda e tentava arremate ruim; Cristaldo era apenas garra - muito pouco para uma camisa nove que já foi de Evair. E o pior: Valdivia, o cérebro ofensivo do time, tinha ficado fora devido a uma negociação frustrada com equipe dos Emirados Árabes. Dependíamos de Felipe Menezes, de Bernardo, do gordinho Bruno César ou até mesmo de Wesley (que errava passes de dois metros) para armar jogadas ofensivas. Resultado: a frágil defesa não aguentava um time que só perdia bolas na frente e nunca fazia gols. Uma hora tomava um, aí se desorganizava e tomava outros - ainda mais com as péssimas atuações de Fábio, que substituía o lesionado Fernando Prass.

Com a chegada de Dorival Jr e o retorno do Mago, a realidade já era a de escapar do rebaixamento. Dorival fez o certo e botou o time atrás. Tentou jogar por uma bola fora de casa e deu confiança a Valdivia, confiando a ele a braçadeira de capitão. Paramos de perder tanto e voltamos a triunfar contra times piores que o nosso.

Quando as coisas pareciam melhorar, veio o desastre de Goiânia. Acachapantes 6x0 sofridos ante o Goiás, com falhas por todos os lados e uma nova humilhação histórica. A fragilidade do time ficou ainda mais evidente. Mas foi justamente aí que alguns detalhes fizeram diferença. A torcida organizada, que depredou o Pacaembu e fez com que perdêssemos mandos importantes em 2012 (ou seja, jogou mais água dentro da canoa furada que era aquele time) apoiou muito a equipe, apesar de fazer críticas ao presidente e ao gerente de futebol Brunoro. O mesmo se deu com o restante dos palmeirenses, que não abandonou o time e lotou o municipal em todas as partidas. E foi daí que surgiu a força para o Palmeiras conquistar resultados que, no fim das contas, nos livraram do rebaixamento: triunfos contra Vitória, Chapecoense, Botafogo e Grêmio (talvez um dos poucos momentos de êxtase no ano); e empates contra Cruzeiro e Corinthians.

Restavam seis rodadas. Palmeiras já estava eliminado da Copa do Brasil (duas derrotas frente ao Atlético-MG) e, com o triunfo contra o Bahia, em Salvador, os jogadores já davam entrevistas falando que era um alívio ter livrado o gigante de nova queda. Assim como mostramos quem é o Palmeiras quando nos levamos de vencido, somos péssimos quando achamos que já conquistamos algo (mesmo que isso seja a queda do descenso). Dos seis jogos, a equipe conseguiu perder cinco. Conquistou o único pontinho na última rodada, no novo Palestra lotado, contra um remendado Atlético-PR, que não queria mais nada no campeonato. E ainda tivemos que esperar o resultado do jogo entre Vitória e Santos para enfim respirarmos aliviados. Para nossa sorte, havia times piores que o nosso e que também não conseguiram fazer suas partes. Foi por pouco, mas nos livramos do pior.

Não caímos. Agora, segura nóis

Quando alguns amigos vinham tirar sarro dizendo que seríamos tricampeões da Série B, eu dizia: torça pra isso acontecer, porque se a gente escapar, quero ver segurar em 2015. E é isso que já está acontecendo. Paulo Nobre foi péssimo em 2014, apesar de ter feito escolhas "aceitáveis". Melhor manter o Kleina (mesmo sem ter confiança nele) após a negativa do Bielsa, ou procurar um técnico "de Série A"? Nobre preferiu a primeira opção. Até poderia dar certo, mas não deu. A negociação de Kardec foi o erro crasso que desmontou qualquer planejamento iniciado no começo do ano. Gareca foi uma aposta, mas muito arriscada para o meio do campeonato. Na situação de risco alto de rebaixamento, a diretoria, diga-se, fez muito mais que Arnaldo Tirone e Roberto Frizzo em 2012: abaixou preço dos ingressos, contratou psicólogo, fisioterapeuta para cuidar do Valdivia e não teve medo de usar o Allianz Parque na rodada final. Mesmo assim, pela grandeza do Palmeiras, foi totalmente insatisfatório, ainda mais no centenário.

Porém, é inegável que Nobre melhorou as finanças alviverdes que andavam muito capengas por causa das administrações de Belluzo e Tirone. E isso, no futebol moderno é a base para conseguir formar um time forte. Só que além de equacionar as dívidas e não atrasar salários, houve o surgimento de novas e importantes receitas: a abertura do novo Palestra e a explosão do programa de sócio-torcedor (que já é o segundo do Brasil e deve render cerca de R$ 20 milhões ao clube anualmente).

Com maior poder de fogo, O Palmeiras contratou como novo diretor de futebol o Alexandre Mattos, que montou o elenco do bicampeão nacional Cruzeiro. O perfil das contratações é distinto com relação ao ano passado: há sim muitos jogadores para compor elenco, mas que vêm de boas temporadas, como Victor Hugo, Andrei Girotto, Lucas, Leandro Pereira, entre outros. Zé Roberto, mesmo com 40 anos foi o melhor lateral-esquerdo do último Brasileiro, Gabriel foi o maior ladrão de bolas, João Paulo foi um dos líderes de assistências no Flamengo. E também teve contratações de jogadores mais famosos, como Alan Patrick, Arouca (que deve fechar até o fim de janeiro) e Dudu, que não é um Edmundo, mas seria titular em qualquer time do Brasil hoje - sem contar a questão do chapéu nos rivais, que resgatou um pouco do orgulho alviverde. Com um técnico experiente como Oswaldo de Oliveira, a saída de vários perebas e mais referências técnicas para dividir a responsabilidade com Valdivia, o Palmeiras já é, no papel, muito melhor que o time do ano passado, e mostrou nos amistosos que terá um ataque rápido e envolvente. Sim, tem chance de brigar por título - ainda mais no Paulista, com São Paulo e Corinthians na Libertadores.

Isso tudo gerou um "ciclo virtuoso": boas contratações trouxeram repercussão positiva, empolgaram o torcedor (que tem enchido o estádio mesmo em amistosos e virado sócio-torcedor) e chamaram patrocínios (Crefisa e Prevent Senior), que aumentam a possibilidade  de investimentos na equipe para voltar a ser vitoriosa.

A expectativa depois de um ano tão "emocionante", com perda de centroavante para rival, mais um 6x0 para conta, estreia no novo estádio com derrota e briga para não cair, é de que nosso coração verde continue batendo forte, mas, desse vez, por causa de alegrias.

Para fechar, monto o meu time base para a temporada 2015 (com reservas entre aspas): Fernando Prass (Aranha); Lucas (João Pedro), Tobio (Nathan), Victor Hugo (Victor Ramos) e Zé Roberto (Victor Luís); Arouca (Amaral), Gabriel (Renato) Allione (Ryder) e Valdivia (Alan Patrick); Dudu (Maikon Leite) e Cristaldo (Leandro Pereira).

VAMOS PALMEIRAS!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Terno: muito mais que uma banda de rock qualquer

Clique na imagem para ver em alta resolução

Uns anos atrás, eu contei uma historinha sobre música: por gostar de um disco de André Abujamra, acabei conhecendo mais a fundo o Karnak; depois garimpei até achar os dois álbuns d'Os Mulheres Negras (da dupla Abu e Mauricio Pereira); e finalmente cheguei aos discos solo do Mauricio, dos quais gosto muito (ganha dos demais, inclusive). Eis que descubro mais um personagem nessa roda de compositores de canções pop com referências vanguardistas e poucos refrões: Martim Bernardes.

Conhecido como Tim, o rapaz esguio e de óculos redondos é filho de Pereira. Tem impressionante habilidade com a guitarra e, mesmo com apenas 20 e poucos anos, demonstra desenvoltura em suas composições (nas letras e nos arranjos), além de ter um timbre vocal que me agrada muito - parecido com o do pai em vários momentos, diga-se. Bem, mas vamos ao que interessa.

66: a música e o disco

Não me lembro como, chegou à tela do meu PC, em meados de 2013, o clipe abaixo, da banda O Terno, composta pelo já citado Tim (guitarras e vocal) com a companhia de Guilherme D'Almeida (baixo) e de Victor Chaves (bateria):



Mantendo o foco apenas na questão musical (deixemos a estética do clipe de lado), a canção chamou muito minha atenção. Em três minutos de um rockzinho estilo retrô, com o baixo comendo solto e uma letra cantada de um jeito apressado (com certa ansiedade), Tim expõe o dilema de todo jovem compositor de música pop: como fazer algo novo sem causar uma estranheza que afaste o público, mas que ao mesmo tempo não seja apenas uma cópia do que já existe? A criativa resposta, um "plágio diferente" nas palavras do vocalista, foi a própria metalinguagem da música, que alonga versos, traz pausas, alterações de velocidade, dispensa refrão e apresenta até uma brincadeira com a música dodecafônica no final - tudo isso mesclado com os diversos questionamentos da letra (exemplo: Então não sei o que eu devo fazer / Pois se eu não posso inovar / Eu vou cantar o que já foi e vão dizer que é nostalgia / E que esse tempo já passou e eu tô por fora do que é novo / Mas se é novo falam mal). O Terno mostrou logo de cara que não era apenas mais uma bandinha de rock com letras vazias que enchem linguiça para um som pouco inovador. Ótimo cartão de visitas.

Fiz o caminho natural e ouvi o disco de estreia dos moleques, também chamado "66", lançado em 2012. O  álbum tem mais quatro composições de Bernardes: "Morto" (que chegou a ser cantada de forma emocionante por Juçara Marçal), "Eu não preciso de ninguém" (em parceria com D'Almeida), "Enterrei vivo" e "Zé, assassino compulsivo". Pra completar o disco, há cinco músicas icônicas da carreira de Mauricio Pereira. Como o "mulher negra" precisava de uma banda para se apresentar quando "seus amigos músicos" estavam impossibilitados de o acompanhar, resolveu chamar o grupo do filho. Deu muito certo, já que os rapazes são excelentes instrumentistas, apesar da pouca idade, e fizeram ótimos arranjos mais "pegados" para os clássicos mauricianos. Dessa forma, instintivamente incorporaram tais músicas ao álbum que os mostrava ao mundo. Nada mais justo, pois a influência de Mauricio na banda vai muito além de algumas poucas músicas, como veremos adiante.

Nas canções próprias, o estilo cru e sessentista do power trio permanece. Há a alternância de riffs que ditam o tom das músicas (como em "Zé..." e "Eu não preciso de ninguém") com canções mais melódicas ("Enterrei vivo"). O grupo não apresenta muitos efeitos e instrumentos adicionais na produção, apesar de eles estarem presentes (distorções de guitarra, alguns teclados e efeitos vocais). Três das cinco canções próprias têm uma temática específica: a morte - e duas delas possuem um estilo um tanto "Maxwell's Silver Hammer" de ser: melodias bonitas e "fofinhas" com letras macabras - tal disparidade com pitada de ironia provoca risos a quem presta atenção nas histórias contadas pelo vocalista - outra característica que irá se repetir no trabalho do grupo.

Em resumo, a expectativa foi confirmada. O Terno se mostrou uma banda que foge do comum nos temas das letras (seja construindo narrativas, falando de morte com pesar e ironia ou usando metalinguagem), dá importância a elas e não tem medo de se assumir como uma banda de rock-pop em termos musicais, mas não sem brincar com isso, flertando com referências vanguardistas.

A transição "Tic Tac - Harmonium"

Com a bola cheia pelos elogios do primeiro lançamento, shows pintaram e eles apareceram mais na mídia. Logo veio o trabalho posterior, o single "Tic Tac - Harmonium", que saiu no fim de 2013, com três músicas. A primeira canção, "Tic tac", versa sobre a luta contra o tempo e tem uma pegada rock bem forte e com alguns metais marcando presença - mais uma continuação do álbum anterior do que uma ruptura. Já a faixa seguinte, "Harmonium" é uma das minhas favoritas. Trata-se de uma balada de melodia muito bonita com um baixo marcado e uma letra reflexiva sobre a morte, mas de um jeito diverso do que foi apresentado anteriormente: há questionamentos singelos, que focam na experiência única de vida de cada um e na angústia do desaparecimento disso com a morte. Essa canção já antecipava um pouco do que seria visto com mais força no segundo álbum da banda. Para fechar, uma música em inglês, sombria e com letra macabra, "Blood stains" (algo como "Manchas de sangue").

Segundo disco e o início da maturidade

Quando se pensa em uma banda brasileira (e paulistana) de rock que faz misturebas, difícil não citar Os Mutantes. E é claro que comparações vieram pra cima dos moleques d'O Terno. Sim, há sons "malucos", há melodia, há rock feito por jovens habilidosos, mas, pelo menos para mim, para por aí. Sem me alongar, digo que Os Mutantes eram mais debochados e escrachados (musicalmente e visualmente) e tinham a presença de Rita Lee, que aguçava tais características. As letras eram mais psicodélicas e "felizes" no grupo dos 60. Talvez as variações bruscas, o baixo com alterações constantes e já citadas canções melódicas (seria isso o "sessentismo"?) sejam pontos de contato em algumas das produções, mas O Terno não soa, nem de longe, como uma cópia d'Os Mutantes. O que me fez estabelecer uma comparação entre as bandas foi um aspecto do segundo disco do grupo contemporâneo, chamado apenas de "O Terno" e lançado em 2014: o início da maturidade.

Não digo maturidade sonora ou como banda. Isso Os Mutantes tinham desde cedo e O Terno também já mostra. Falo da maturidade na vida... Essa coisa de sofrer, ficar velho, perder a inocência. Nos cinco primeiros discos, sem considerar as exceções em algumas canções (como "Dia 36"), pulsava uma alegria juvenil n'Os Mutantes. Quando ela passou, foi de forma arrebatadora e banda não aguentou. N'O Terno, o segundo disco já mostra as marcas da vida no seu compositor principal. O primeiro disco não era alegre, mas tinha algo de "moleque" em tentar simplesmente meter letras macabras em canções bonitas. No segundo álbum, há canções sinceras de amor e de dor, um clichê que a banda decidiu encarar de cabeça erguida - e o fez de forma competente (como em "Eu vou ter saudades" ou "Pela metade"); há um clima mais denso em todo o álbum, algo mais introspectivo e triste, sem esquecer de belas melodias; os sons estão mais cheios (órgãos com presença muito maior e vários jogos de voz) e Tim se dedicou mais à poesia (com destaque para "O Cinza" e "Quando eu me aposentar"), deixando as brincadeiras irônicas mais de lado (apesar de estarem presentes em "Eu confesso" e "Vanguarda?"). Uma continuidade aprimorada é a das historinhas (com "Quando estamos todos dormindo" e "Desaparecido"). Enfim, é um baita disco, e é mais "velho" e mais paulistano, mesmo os meninos ainda tendo pouca intimidade com pelos na cara.

Concepção de música e o não ter medo do fracasso: as heranças d'Os Mulheres Negras

O fato de Tim ser filho de quem é fez uma diferença absurda para O Terno não ser apenas mais uma banda qualquer. Quando adolescentes montam um grupo de garagem, costumam ser meio radicais: só ouvem rock, odeiam bandas rivais dos seus ídolos, repugnam axé, pagode e tudo o que fuja do seu círculo de conhecidos ou que seja desprezado por seus iguais. Se derem sorte, vão abrir a cabeça mais tarde e perceberão o que perderam.

Para ilustrar o contrário disso, dou a palavra a Mauricio Pereira: "Profissão de fé d'Os Mulheres Negras: tudo é música boa e tudo é influência. Ponto final".

Tendo essa base em casa, Tim já pulou uma etapa que muitos nem chegam a ultrapassar ao ver por entre os frágeis gêneros que, muitas vezes de forma ilusória, dividem a música popular (sendo que há muito mais em comum do que diferenças). Só um exemplo: o moleque aprendeu a tocar música caipira com o pai (na dupla Pereirinha & Pereirão), ao mesmo tempo em que pirava nos sons de Beatles e Mutantes, imagino eu.

Outro aspecto importante que certamente veio de berço foi a aversão ao sucesso a qualquer preço. Os Mulheres Negras queriam fazer sucesso? Sim, afinal, quem não quer ser ouvido por muita gente? Mas estavam dispostos a deixar de ser o que eram (e eram uma coisa muito inovadora) para chegar a esse fim? Não. E se tivessem feito isso, seria uma perda terrível para a música pop dos 80 no Brasil - não é à toa que tanta gente boa cita Os Mulheres como influência. Os músicos independentes d'O Terno, dá pra sentir, não deixariam de fazer as brincadeiras que estão criando em nome de um sucesso sem alma.

E não há críticas?

Sim, existem críticas. Considero algumas músicas meio bobas (como "Eu tomei coca e você encheu a cara" - que não entrou em nenhum álbum), vejo-os um tanto inibidos e envergonhados no palco e não gostei do conteúdo da canção "Tribunal do Facebook" que fizeram em conjunto com o Tom Zé - a música é ótima, mas o velho compositor quis ridicularizar quem o criticou por fazer uma propaganda da Coca-Cola para a Copa do Mundo, como se o problema fosse apenas o anúncio para a marca de refrigerantes (não era - era o fato de apoiar um evento excludente e cheio de remoções, violências e etc).

Mas de forma geral, vejo O Terno como umas das melhores coisas que apareceram na música brasileira nos últimos anos. Uma banda de rock sem preconceitos musicais, com ótimos instrumentistas, que não tem medo de inovar ou de se assumir como grupo pop, além de apresentar letras reflexivas (essa, imagino, uma herança só do Mauricio) de temáticas variadas (não é só de amor) e que exigem que o ouvinte preste atenção (o que, na minha visão, valoriza a canção). Tudo isso junto, ultimamente, tem sido bem difícil de encontrar por aí, ainda mais com a qualidade que o trio paulistano oferece. Se eu fosse você, ouviria o trabalho dos guris e ficaria de olho nesses moleques.

Para quem quiser conhecer o trabalho dos caras, basta entrar no site oficial, ou nos perfis do Soundcloud ou do Youtube. Nesses lugares, você consegue ouvir todas as músicas citadas (em alguns dá até para baixá-las gratuitamente).

A charge ali de cima fui eu que fiz e foi inspirada na arte do último disco da banda, mas com uma pitada a mais de estranheza. Longa vida a'O Terno!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Será?

Em 2014, o disco Loki, de Arnaldo Baptista, fez 40 anos.

Esse é um dos meus álbuns favoritos e, como não fiz menção a ele durante o ano passado (apesar de já ter falado aqui sobre o filme homônimo que conta a história de vida de Arnaldo), resolvi abrir o ano mercyzidânico com essa singela homenagem, em que interpreto, por meio de uma tirinha, um pedaço da letra de "Será que eu vou virar bolor?" - clique na imagem para ver em alta resolução.

Pra quem não conhece, vale muito a pena ouvir o disco completo, um dos mais viscerais e sinceros da história da música brasileira.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A última conversa

Com tanto tempo juntos, já havíamos conversado sobre assuntos bem variados - de arte a revolução; de compras no mercado a video games; de sexo a séries de televisão.

Mas eles iam rareando. Tornavam-se cada vez menos confluentes e mais conflitivos, apesar do carinho e do companheirismo sempre presentes.

Numa dessas conversas (ocorrida na época dos diálogos mais intensos e simbióticos), cujo tema era a infância, falávamos sobre o dia das crianças, o Natal, os aniversários e de como era prazeroso ganhar um brinquedo muito desejado. Sorrimos, citamos brincadeiras favoritas de nossas épocas e então ela perguntou:

"Sabe quando você está na transição da infância para a adolescência e tenta brincar com o seu brinquedo predileto...  Só que não consegue mais? Apesar de já ter se divertido tanto com ele e de se esforçar para sentir o mesmo prazer de antes, ele já não tem mais graça, sabe?"

Marcamos a conversa que, sentíamos, seria a última. Um leve pânico percorreu minha espinha quando ela girou a maçaneta para entrar em casa. Sentamos no sofá.

-Acho que eu não quero mais continuar.
-Que bom que você teve coragem de dizer isso.

Doeu. Choramos, nos abraçamos e foi difícil conseguir dormir. Mas depois de desenvolvermos uma relação tão sincera e de construirmos partes importantes de nossas vidas juntos, não podíamos fingir que nada havia de errado. Não seria justo deixar o carinho impor, só por já conhecermos as regras, a brincadeira que já não dá mais prazer.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Dona Lourdes e o samba de breque

Aos 90 anos, a professora aposentada Maria de Lourdes Pinheiro da Silva (que é minha avó materna) cultiva o hábito de cantarolar músicas de sua infância, as únicas que ainda tem na ponta da língua.

Eu já tinha visto suas performances por várias vezes e, neste Natal, pensei que não poderia deixar passar a oportunidade de gravar alguma delas.

Pois bem, mesmo sem tripé, com iluminação ruim e usando a captação de áudio da própria câmera, editei um videozinho que, se peca em alguns quesitos técnicos, não deixa de mostrar a essência da coisa: a alegria de se fazer algo que dá prazer.

Minha avó resume a ideia com uma frase simples: "Canto porque gosto de cantar". Veja:


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Don't be sad



Agora que eu tenho um cajón, eu precisava de uma desculpa para testar o som dele em gravações. Então parei e pensei que eu nunca postei qualquer música minha aqui no blog. Tomei coragem e gravei uma canção que compus ao longo do ano.

Ela fala sobre duas pessoas - a primeira tenta, de um modo sincero (mas com poucos argumentos), alentar a segunda.

Esteticamente, a canção só tem a pretensão de ser simples. A letra é em inglês porque foram as palavras dessa língua que apareceram na cachola quando eu cantarolava. Gravei tudo toscamente na minha casa, mas foi com o coração rs. Chega de papo, aí vai:



Metalinguagem: o desenho que fiz para ilustrar a música, para os que não perceberam, é um cajón rs

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Não podem arrancar esse prazer de nós

Tem uma porção de gente no mundo. E apesar dos milhares de problemas do viver, que fazem os sorrisos rarearem conforme a idade avança, uma parte desse pessoal todo já deve ter se surpreendido com um prazer repentino surgido numa atividade despretensiosa.

Esse aí da foto é meu pai, contemplando uma das últimas músicas tocadas por Paul McCartney, na apresentação do dia 25, em São Paulo. Descobriu o prazer de "coçar a barriga da guitarra", como diria minha avó, por volta dos 14 anos. Montou bandinhas pelo bairro em que nasceu (e onde mora até hoje) e se apresentou em muitos bares "chapados de gente", como ele gosta de dizer, ao longo dos últimos quarenta e poucos anos. As canções dos Beatles, principalmente da fase mais pop da banda, permearam o início de sua adolescência e marcam presença no repertório de seus grupos até hoje - e claro, também nas suas mais doces lembranças.

Se alguém diz que ele está velho para isso, que tinha de se concentrar no trabalho e em pagar as contas e dívidas ou que essa vida traz o cigarro e a bebida (confesso, como um filho mais chato e responsável que o pai, já fiz algumas dessas críticas), ele responde de bate-pronto: "Eu vou morrer tocando"!

Não sei no que meu velho estava pensando quando minha irmã tirou essa foto. Mas ao olhá-lo nessa posição, após ter se emocionado tanto no show, pensei algo como: a vida é tão difícil. Vendem-nos sonhos e, quando acreditamos neles, são arrancados de nós. Muitas vezes, ele está certo... Só com cachaça pra aguentar tanta coisa que a gente não queria. Só que por mais que essa seja a regra na vida, tem certos prazeres que vão morrer com a gente.

Na saída do show, empolgado e aos 62 anos, ele me perguntou: "Filhão, vamos montar uma banda"?

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A emoção daquele canto da Barra Funda

Quando eu era moleque, desenhava o estádio Palestra Itália, casa do Palmeiras, mais ou menos do jeito que tá aí em cima. As bolinhas representavam as cabeças dos trinta e poucos mil torcedores que lotavam as arquibancadas do velho estádio, palco de tantos jogos importantes do time que ganhava tudo nos anos 90.

Depois de sonhar tanto em conhecê-lo, só fui subir os degraus de suas arquibancadas em 1998, no jogo da primeira fase da Copa do Brasil (da qual seríamos campeões), contra o CSA de Alagoas. Foi 3x0, com dois gols de Arce (ambos de falta) e Cléber. Fazia um mês que o palestrino mais "verde" que eu conhecia havia falecido: meu avô Gilberto José Cerri. Foi a forma que eu e meu pai encontramos para homenageá-lo.

Só fui retornar ao Palestra em 2006, num despretensioso jogo do Paulistão, contra a Portuguesa Santista. Eu já contava 20 anos e me emocionei com cada um dos gols do 4x0, ainda mais com a presença de Edmundo no comando do ataque, que marcou seu tento no goleiro Ronaldo (aquele ex-Corinthians).

A partir de então, mesmo morando longe de São Paulo, eu sempre dava um jeito de fazer algumas visitas ao "jardim suspenso" ao longo do ano - elas se intensificaram quando voltei a morar na região.

No total, fui a 23 jogos no antigo Palestra. Vi poucos craques de seleção e muitos perebas, de 2006 a 2010. Nada muito diferente dos quatro anos e meio em que passamos por Pacaembu, Canindé e Arena Barueri.

Mesmo assim, a emoção de entrar pelo portão da Turiassu, passar pelo fosso e subir correndo os degraus para ver o símbolo do Palmeiras sobre o jardim suspenso, com os olhos já marejados... Eu nunca senti em outro lugar.

Hoje voltaremos para casa. Se vamos vencer, não sei. Mas eu e meu pai estaremos lá, lembrando dos bons tempos, do meu avô (que nos fez palmeirenses), também esperançosos com o futuro e sentindo a emoção que só ali, naquele canto da Barra Funda, um palestrino pode sentir.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Tirinha hipnótica nº 2 - Volume morto

Clique na imagem para ver em alta resolução. Gostou? Confira a outra tirinha hipnótica clicando aqui.