quarta-feira, novembro 19, 2014

A emoção daquele canto da Barra Funda

Quando eu era moleque, desenhava o estádio Palestra Itália, casa do Palmeiras, mais ou menos do jeito que tá aí em cima. As bolinhas representavam as cabeças dos trinta e poucos mil torcedores que lotavam as arquibancadas do velho estádio, palco de tantos jogos importantes do time que ganhava tudo nos anos 90.

Depois de sonhar tanto em conhecê-lo, só fui subir os degraus de suas arquibancadas em 1998, no jogo da primeira fase da Copa do Brasil (da qual seríamos campeões), contra o CSA de Alagoas. Foi 3x0, com dois gols de Arce (ambos de falta) e Cléber. Fazia um mês que o palestrino mais "verde" que eu conhecia havia falecido: meu avô Gilberto José Cerri. Foi a forma que eu e meu pai encontramos para homenageá-lo.

Só fui retornar ao Palestra em 2006, num despretensioso jogo do Paulistão, contra a Portuguesa Santista. Eu já contava 20 anos e me emocionei com cada um dos gols do 4x0, ainda mais com a presença de Edmundo no comando do ataque, que marcou seu tento no goleiro Ronaldo (aquele ex-Corinthians).

A partir de então, mesmo morando longe de São Paulo, eu sempre dava um jeito de fazer algumas visitas ao "jardim suspenso" ao longo do ano - elas se intensificaram quando voltei a morar na região.

No total, fui a 23 jogos no antigo Palestra. Vi poucos craques de seleção e muitos perebas, de 2006 a 2010. Nada muito diferente dos quatro anos e meio em que passamos por Pacaembu, Canindé e Arena Barueri.

Mesmo assim, a emoção de entrar pelo portão da Turiassu, passar pelo fosso e subir correndo os degraus para ver o símbolo do Palmeiras sobre o jardim suspenso, com os olhos já marejados... Eu nunca senti em outro lugar.

Hoje voltaremos para casa. Se vamos vencer, não sei. Mas eu e meu pai estaremos lá, lembrando dos bons tempos, do meu avô (que nos fez palmeirenses), também esperançosos com o futuro e sentindo a emoção que só ali, naquele canto da Barra Funda, um palestrino pode sentir.

quinta-feira, novembro 06, 2014

Tão clichê quanto mar e paixão



Era jovem, mas a vida na cidade e as obrigações que deixavam suas costas cada dia mais curvas fizeram-no ficar mais de quatro anos sem ver o mar. Lembrava-se das poucas praias que havia visitado e de suas belezas particulares, mas isso era raro - só quando alguém comentava sobre viagens de férias ou de fim de ano.

Naquele dia, cinzento como os últimos, recusou convites dos amigos para ir ao bar após o trabalho. Bateu o ponto, pegou a condução e, por não saber o que fazer, vagou pelas ruas do bairro tentando observar com o olhar mais atento o entorno tão rotineiro. Não conseguiu. "O que eu tô tentando fazer"?

Voltou para casa e, em mais um gesto automático, ligou a tevê. Zapeou os canais sem prestar atenção, até que se atraiu pela beleza da atriz principal de um filme nacional antigo, em preto e branco. Pegou no sono e acordou às 4h30, assustado, com o controle remoto na mão.

No sonho que tivera, deparava-se consigo próprio. Seu outro "eu", abatido, não esboçava reação a nenhum estímulo. Quando se preparava para socar seu semelhante, viu o interlocutor se transformar em uma mulher alta, que o beijou de forma ardente. O prazer virou medo quando, num instante, ela cresceu e o engoliu. Sentiu o frio na barriga da queda livre até perceber que estava molhado. E boiava no mar.

Sorriu. Com o coração quente, levantou-se do sofá e saiu correndo em direção à rodoviária. Pegou o primeiro ônibus com destino ao litoral.

Seu semblante misturava ansiedade e alegria. Cada curva do caminho, cada ouvido tampado e cada cheiro de maresia aumentavam seu sorriso.

Ao chegar, transpôs três quarteirões correndo como uma criança, já com lágrimas nos olhos, em direção à praia. A camisa ficara pelo caminho, assim como os sapatos. Quando não havia mais nenhum obstáculo entre ele e o mar, parou na beira, sem deixar seus pés se molharem. Visivelmente emocionado, observava, estático, o objeto de sua saudade.

Uma moça, intrigada com o que via, perguntou ao rapaz se ele estava bem. Ele respondeu:

-Sabe? Quando a gente fica muito tempo sem ver o mar, por mais que se lembre do barulho das ondas, da areia fina nos pés, da indistinção dos azuis no horizonte, por mais que racionalmente esteja tudo lá na nossa cabeça, quando damos de cara com sua grandeza que nos abraça e envolve todos os nossos sentidos, é como se fosse a primeira vez. É tão bom quanto da primeira vez. A memória não dá conta dessa imensidão que puxa a gente e escancara nossa pequenez ao mesmo tempo em que nos hipnotiza com o vaivém das ondas. Mostra a nossa insignificância enquanto percebemos como é bom... Como é bom estar vivo. E mesmo que por um pequeno instante, dá sentido à nossa vida.

E correu para os braços molhados e quentes da paixão.

sexta-feira, outubro 24, 2014

Em cima do muro?

Tirinha autoral que contempla minha posição - ela está mais bem desenvolvida neste artigo aqui, com o qual tenho pleno acordo.

terça-feira, outubro 21, 2014

O que faltou para a esquerda nas eleições?

O resultado para a esquerda partidária após o fim do primeiro turno das eleições 2014 não foi muito significativo - algo que poucos imaginariam um ano atrás, com a expressão massiva da falta de representatividade que marcou os protestos de junho.

Apesar de ter havido a "pulverização" do movimento (principalmente em São Paulo) a partir do momento em que ele passou a repercutir mais na mídia, as pautas originais eram de esquerda e muitos jovens mostravam descontentamento com serviços sociais precários, exigindo não só a redução da tarifa de ônibus, mas melhores condições de saúde, educação e moradia para toda a população.

E aquele junho não terminou no fim do mês. Protestos menores continuaram e muitas greves entraram em pauta, com novidades importantes nelas. Os grevistas passaram por cima da burocracia de sindicatos (que normalmente freia mobilizações mais radicais) e exigiram as condições de trabalho que realmente julgavam justas, não as que os diretores do sindicato pelego haviam combinados com os patrões. Rodoviários de Porto Alegre e de São Paulo fizeram movimentos desse tipo, mas o exemplo mais forte se deu com os garis do Rio de Janeiro, que conseguiram 37% de aumento.

Certo. Se tudo isso apontava para um caminho mais à esquerda, questionando o projeto petista de conciliação de classes (aquele que dá milhões aos bancos e às empreiteiras pra jogar migalhas à população, entre vários outros aspectos), por que os principais partidos da esquerda tiveram resultados de 1,55% (PSOL) e 0,09% (PSTU) na disputa presidencial? Nos pleitos para deputados e governadores, em geral, o resultado foi parecido - apesar de o PSOL ter conseguido eleger alguns representantes a mais. Quem olha de relance o resultado do primeiro turno nem se lembra de que, entre 2010 e 2014, houve um junho de 2013 no meio. Mas por quê?

Para além do ápice do desgaste que a forma de organização "partido" sofreu ao longo dos últimos anos, com muitos jovens dizendo que todos eles eram iguais (devido, por exemplo, ao abandono de princípios do PT e às falcatruas que envolvem todos os partidos da ordem), os que realmente têm diferenças não se mostraram como alternativa aos insatisfeitos - tanto é que os votos nulos, brancos e abstenções tiveram alta significativa.

O PSOL, que poderia ter sido um fenômeno, resolveu, num primeiro momento, lançar a candidatura mais à direita dentro da organização para concorrer às eleições presidenciais - Randolfe Rodrigues, a pessoa quer que o PSOL siga um caminho de alianças escusas análogo ao que fez o PT (na campanha para a prefeitura de Macapá, alguns anos atrás, fez aliança, por exemplo, com PSB). Luciana Genro assumiu a candidatura após desistência de Randolfe e foi financiada com dinheiro de uma grande rede de supermercados, a Zaffari, justamente uma medida que criticou nas candidaturas da ordem, durante os debates televisivos.

Para além disso, Luciana, que cresceu nos votos na reta final após a defesa dos direitos dos LGBTTIs, não conseguiu ligar o que defendia ao rechaço à política institucional que marcou junho e as greves. Pouco falou da necessidade de organização dos trabalhadores, de fortalecer e levar as lutas adiante para mudar o país - o que não ocorreria sequer se ela, hipoteticamente, vencesse a disputa, já que a questão não é apenas mudar quem está no poder, mas questionar o regime (dê uma olhada neste texto que traça uma linha de crítica interessante sobre a candidatura Genro).

O PSTU, apesar de ser uma organização de esquerda com mais base operária que o PSOL (e, por causa disso, ter uma organicidade maior em greves e mobilizações em geral), ficou muito preso à velha lógica pré junho em sua atuação (vide greve do metrô, quando poderia, por dirigir o sindicato, seguir o exemplo dos garis cariocas e moralizar a categoria para ir adiante mesmo com os ataques, mas teve atuação mais rotineira de "luta de calendário"). Apesar de dizer que é o partido das lutas e do socialismo, não consegue passar para a população a ideia de como é importante se organizar de forma independente.

Isso se mostra em uma certa separação entre o que é dito em programas eleitorais e materiais de propaganda com relação à atuação sindical, em que uma ilusão nos partidos da ordem é criada (na recente greve do metrô paulistano, colocaram figurões da UGT, CUT, CTB, Força Sindical e parlamentares do PSB e do PC do B para negociar com a empresa "em defesa dos trabalhadores" - ué, mas eles não representam interesses que não são dos trabalhadores? Cria-se certa confusão).

O PSTU também criminalizou desde o início a tática Black Bloc (com a qual também não concordo, mas entendo que expressou uma certa revolta dos jovens com a política institucional), chegando a negar abrigo a jovens ante a repressão no ato da esquerda de São Paulo, na abertura da Copa do Mundo.

Faltou união e organização da esquerda?

Mesmo não se mostrando como alternativa seria possível costurar alguma articulação para obter melhores resultados? É comum, principalmente depois desse tipo de fiasco eleitoral, as pessoas dizerem: a esquerda é muito fragmentada e precisa se unir para fazer uma oposição digna.

Sim, seria ótimo que houvesse união, mas não a qualquer custo. A esquerda é tão dividida justamente por que há diversos projetos que se apresentam como alternativa à ordem de coisas que está colocada hoje. Uma união meramente eleitoral significaria não discutir ou chegar a acordos em diferenças importantes (como a questão de aceitar financiamento de campanha por grupos privados ou fazer alianças locais com partidos dos ricos), mas simplesmente jogá-las para debaixo do tapete.

Houve frente de esquerda entre PSTU, PCB e PSOL, mas pouco se ouviu falar a respeito, e os candidatos a presidente saíram de forma separada. Não faltou organização - afinal, os grupos se articularam. O problema foi mais grave. Não se refletiu um programa conjunto (enquanto o PSTU defendia o não pagamento da dívida em âmbito presidencial, não fez essa denúncia em locais em que estava coligado na tal frente). Não existiu a percepção do que aconteceu em 2013 para pensar uma plataforma comum que realmente propagandeasse o que era necessário neste momento: a organização independente de trabalhadores e estudantes, em locais de trabalho e estudo, para mostrar novamente a força das ruas, rechaçando a política institucional e utilizando-a para desmascarar as grandes candidaturas e até as pequenas que tinham aparência de progressista (como a de Eduardo Jorge), mas que, na verdade, eram mais do mesmo.

Portanto, para mim, faltou à esquerda a percepção de que podia ser mais audaz e menos rotineira, mostrando suas diferenças (umas organizações têm mais e outras menos) para canalizar toda a onda de insatisfação contra os partidos da ordem e fortalecer a mobilização independente. Não percebeu, não tentou e, consequentemente, não conseguiu.

terça-feira, setembro 30, 2014

O que Levy Fidelix tem na cabeça?

O candidato à presidência Levy Fidelix deu um show de boçalidade no último debate eleitoral, incitando ódio contra homossexuais.

A charge que desenhei é uma brincadeira com a pergunta literal que muita gente deve ter feito: o que Levy tem na cabeça?

Minha posição a respeito está muito bem representada no artigo de Fernando Pardal (clique aqui e leia).

quarta-feira, setembro 17, 2014

O parente do Rossi


O post que você começa a ler agora está sem ilustração desenhada porque ele tem muito a ver com a foto acima. O cara do lado direito, com toda sua formosura, sou eu. O outro é o Ubirajara, conhecido como Bira. Ele trabalha no Museu de Arqueologia Industrial e Tecnologia (Maitec), que visitei um tempinho atrás e do qual falei nesta postagem aqui.

Ele é responsável pela parte audiovisual do museu. Sua função é explicar aos visitantes como funcionavam os televisores, projetores cinematográficos, rádios e outros objetos expostos numa sala específica sobre o tema.

Chama atenção do visitante a paixão com que Bira fala sobre o funcionamento da projeção antiga, ponderando os avanços técnicos, questionando se o aumento da qualidade seria tão significativo assim e se entristecendo com a extinção de projetores antigos no Brasil (que, se bem me lembro, viria por lei - o que poderia significar o fechamento de muitos cinemas, principalmente no interior). Por fim, ele executou uma rápida projeção numa máquina bem velha, movida a diesel, antes de dar cópias dos negativos para os observadores. "Guardem porque não não vai durar muito".

Como durante a exposição Bira comentou sobre filmes antigos, ao final, me aproximei e falei para ele que eu tinha um tio avô que foi um tanto importante para o estabelecimento do cinema nacional: Gilberto Rossi (que meu pai e minha vó chamam de "Nonno").

-Você é parente do Rossi?!?!

Bira deu um pulo pra trás. Fiquei até meio sem graça com a euforia dele. Começou a me falar sobre como o Rossi foi importante. "Era um visionário!", disse, depois de explicar que meu tio avô fez livros destinados a profissionais e amadores que ensinavam a filmar em diversas situações, sem contar a qualidade das produções de que fez parte, como diretor e diretor de fotografia.

Falei da V Jornada de Cinema Silencioso, de 2011, a primeira e única vez em que vi filmes de Rossi. Se não me engano, foram três. Outra descendente do "Nonno", Claudia Agazzi, executou a trilha sonora ao vivo, tocando piano. Bira não apenas estava presente, como foi a primeira vez que projetou em uma máquina bem antiga para um público grande. 

Ficamos conversando por vários minutos, curtindo essa empatia inusitada que meu tio avô (que sequer conheci) proporcionou. Quando eu estava indo embora, ele me impediu e disse pra sua colega: "Tira uma foto minha com o parente do Rossi". Meio sem jeito eu aceitei e pedi para a moça fazer a gentileza de registrar o momento também com a minha câmera.

sexta-feira, setembro 12, 2014

Contra o racismo, Aranha é muito maior que Pelé

Eu achei fantástica a atitude do goleiro Aranha, do Santos, no jogo diante do Grêmio, pela primeira rodada das oitavas de final da Copa do Brasil de 2014, no dia 28 de agosto. Após ser xingado de "macaco", "preto fedido" e por aí vai pela torcida rival, o arqueiro santista se revoltou, pediu para que os cinegrafistas filmassem os rostos dos seus agressores e deu entrevista na saída do gramado dizendo tudo o que ocorreu ao longo da partida.

O caso ganhou repercussão, o Grêmio foi justamente (em minha opinião) eliminado da Copa do Brasil. Aranha deu várias declarações em que demonstrou seu conhecimento a respeito da luta do povo negro (ele inclusive usou essas palavras) e de como era necessário o combate ao racismo. Contrariando o circo criado pela mídia para vitimizar uma das agressoras flagradas xingando-o, o goleiro se recusou a encontrá-la pessoalmente.

Eis que, num evento, perguntam a Pelé o que ele achava do caso envolvendo o goleiro do seu ex-clube. Na contramão, o rei do futebol afirma que "Aranha se precipitou em querer brigar" e que "racismo também é contra japonês". O certo, segundo Edson, seria o goleiro continuar a disputa como se nada tivesse acontecido.

Como discordo frontalmente dessa opinião e acho que o racismo deve ser combatido sempre e em qualquer circunstância e situação, fiz a charge abaixo, batizada de "Contra o racismo, Aranha é muito maior do que Pelé". Para ver em melhor resolução, basta clicar na imagem:

Observação: claro que a opinião de Pelé não tira o fato de que ele também sofreu com racismo e que todas as situações de xingamentos que ele viveu foram lamentáveis. Imagino até que sua visão é fruto de um racismo mais escancarado que existia na época em que era jogador. Mas é preciso fortalecer e não desencorajar atitudes como as de Aranha.