quarta-feira, setembro 17, 2014

O parente do Rossi


O post que você começa a ler agora está sem ilustração desenhada porque ele tem muito a ver com a foto acima. O cara do lado direito, com toda sua formosura, sou eu. O outro é o Ubirajara, conhecido como Bira. Ele trabalha no Museu de Arqueologia Industrial e Tecnologia (Maitec), que visitei um tempinho atrás e do qual falei nesta postagem aqui.

Ele é responsável pela parte audiovisual do museu. Sua função é explicar aos visitantes como funcionavam os televisores, projetores cinematográficos, rádios e outros objetos expostos numa sala específica sobre o tema.

Chama atenção do visitante a paixão com que Bira fala sobre o funcionamento da projeção antiga, ponderando os avanços técnicos, questionando se o aumento da qualidade seria tão significativo assim e se entristecendo com a extinção de projetores antigos no Brasil (que, se bem me lembro, viria por lei - o que poderia significar o fechamento de muitos cinemas, principalmente no interior). Por fim, ele executou uma rápida projeção numa máquina bem velha, movida a diesel, antes de dar cópias dos negativos para os observadores. "Guardem porque não não vai durar muito".

Como durante a exposição Bira comentou sobre filmes antigos, ao final, me aproximei e falei para ele que eu tinha um tio avô que foi um tanto importante para o estabelecimento do cinema nacional: Gilberto Rossi (que meu pai e minha vó chamam de "Nonno").

-Você é parente do Rossi?!?!

Bira deu um pulo pra trás. Fiquei até meio sem graça com a euforia dele. Começou a me falar sobre como o Rossi foi importante. "Era um visionário!", disse, depois de explicar que meu tio avô fez livros destinados a profissionais e amadores que ensinavam a filmar em diversas situações, sem contar a qualidade das produções de que fez parte, como diretor e diretor de fotografia.

Falei da V Jornada de Cinema Silencioso, de 2011, a primeira e única vez em que vi filmes de Rossi. Se não me engano, foram três. Outra descendente do "Nonno", Claudia Agazzi, executou a trilha sonora ao vivo, tocando piano. Bira não apenas estava presente, como foi a primeira vez que projetou em uma máquina bem antiga para um público grande. 

Ficamos conversando por vários minutos, curtindo essa empatia inusitada que meu tio avô (que sequer conheci) proporcionou. Quando eu estava indo embora, ele me impediu e disse pra sua colega: "Tira uma foto minha com o parente do Rossi". Meio sem jeito eu aceitei e pedi para a moça fazer a gentileza de registrar o momento também com a minha câmera.

sexta-feira, setembro 12, 2014

Contra o racismo, Aranha é muito maior que Pelé

Eu achei fantástica a atitude do goleiro Aranha, do Santos, no jogo diante do Grêmio, pela primeira rodada das oitavas de final da Copa do Brasil de 2014, no dia 28 de agosto. Após ser xingado de "macaco", "preto fedido" e por aí vai pela torcida rival, o arqueiro santista se revoltou, pediu para que os cinegrafistas filmassem os rostos dos seus agressores e deu entrevista na saída do gramado dizendo tudo o que ocorreu ao longo da partida.

O caso ganhou repercussão, o Grêmio foi justamente (em minha opinião) eliminado da Copa do Brasil. Aranha deu várias declarações em que demonstrou seu conhecimento a respeito da luta do povo negro (ele inclusive usou essas palavras) e de como era necessário o combate ao racismo. Contrariando o circo criado pela mídia para vitimizar uma das agressoras flagradas xingando-o, o goleiro se recusou a encontrá-la pessoalmente.

Eis que, num evento, perguntam a Pelé o que ele achava do caso envolvendo o goleiro do seu ex-clube. Na contramão, o rei do futebol afirma que "Aranha se precipitou em querer brigar" e que "racismo também é contra japonês". O certo, segundo Edson, seria o goleiro continuar a disputa como se nada tivesse acontecido.

Como discordo frontalmente dessa opinião e acho que o racismo deve ser combatido sempre e em qualquer circunstância e situação, fiz a charge abaixo, batizada de "Contra o racismo, Aranha é muito maior do que Pelé". Para ver em melhor resolução, basta clicar na imagem:

Observação: claro que a opinião de Pelé não tira o fato de que ele também sofreu com racismo e que todas as situações de xingamentos que ele viveu foram lamentáveis. Imagino até que sua visão é fruto de um racismo mais escancarado que existia na época em que era jogador. Mas é preciso fortalecer e não desencorajar atitudes como as de Aranha.

terça-feira, agosto 26, 2014

O Palmeiras na vida de um torcedor


Quando me vi, quando me enxerguei como pessoa, quando dei conta de mim mesmo, da minha existência, eu já era, sei lá como, palmeirense.

Pensei que tinha começado quando meu pai me acordou de noite (eu contava cinco ou seis anos de idade) só para me presentear com um lindo uniforme pirata do Verdão - numa malha chinfrim com o logo da Coca-Cola; mas aí percebi que eu fiquei tão feliz nesse dia exatamente porque meu coração já era verde. Muito verde.

"Estranho uma paixão tão forte não ter data de início", pensei. Mas faz sentido: uma das poucas certezas que tenho é que ela não tem dia marcado pra acabar.

Ainda molequinho, na escola, a camisa do Palmeiras era meu uniforme oficial nas aulas de educação física, enquanto os outros usavam vestimenta estudantil. Se eu fosse jogar bola em qualquer outro lugar - o que era bem comum para uma criança doida por futebol, a camisa ia junto, assim como o apelido instantâneo que os desconhecidos me davam: "palmeirense". Pouco me importava que não sabiam meu nome. Nada melhor do que ser chamado de "palmeirense".

Se tinha uma aula vaga ou estávamos tomando as lições de artes, o que eu desenhava? Os diversos gols de Evair; e muitos e muitos emblemas do Palmeiras. Tanto é que a primeira carta de amor que recebi na minha vida, na primeira série, tinha um "P" estilizado - minha admiradora sabia como me conquistar.

A brincadeira favorita? Fingir que era o Velloso no gol;  bater a falta de canhota (mesmo sendo destro) só para imitar o Roberto Carlos; comemorar como o matador Evair,  após mais um gol de pênalti "trotado", contra o goleiro imaginário nas traves de paus e vasos do quintal.

Apesar de ser a principal paixão, eu não gostava só de futebol. Assistia a desenhos animados e séries japonesas. Mas por que será que eu admirava tanto o Shiryu, cavaleiro de dragão em "Os Cavaleiros do Zodíaco"? Por que eu gostava mais do Tommy, em "Power Rangers"? Sim, ambos usavam armaduras verdes.

Eu comprava histórias em quadrinhos, mas a cada título que o Palmeiras ganhava (e eram muitos nos anos 90), queria saber mesmo era da edição especial da Revista Placar e das vastas reportagens e perfis com os meus verdadeiros super-heróis. Cheguei a decorar escalações de times dos anos 70, da segunda Academia palestrina, de tanto devorar essas publicações.

Percebi que meu avô estava muito mal de saúde quando vi que ele não sabia que o Palmeiras tinha chegado à final do Brasileiro de 97. Logo ele, tão fanático... chorei sua morte e, um mês depois, em homenagem, fui com o meu pai, pela primeira vez, ao Palestra Itália, no jogo da primeira fase da Copa do Brasil de 98 - a copa que venceríamos e que nos levaria à tão sonhada Libertadores.

Nos meus aniversários, 24 dias antes dos do Palmeiras, era fácil saber o que eu gostaria de ganhar, ano sim e ano também: camisas do Verdão.

Quando acabou o período de glórias dos anos 90, com escalações lendárias que ainda povoam meus melhores sonhos, e o time caiu de divisão, confesso, fraquejei. Não consegui suportar uma dor tão forte de algo que me dava tanta felicidade. Acinzentei um pouco a minha vida. Deixe-me envelhecer, esqueci a alegria boba de um gol, de uma paixão infantil e "sem sentido". Futebol é só um jogo, não é mesmo?

Prestei vestibular para jornalismo. Será que, se eu não tivesse lido tantas notícias e reportagens sobre o Palmeiras, eu teria feito essa escolha?

Em 2005, após três anos de uma resistência meio covarde e meio adulta, eu me rendi. Já sabia a escalação de cor, salteado, de trás pra frente, com reservas, com time B, revelações da base e o que mais tinha direito. O verde pulsava de novo dentro do peito. Chorei ao subir, depois de oito anos, as arquibancadas do Palestra novamente e enxergar o jardim suspenso. Toda vez que eu entrava ali, até o fechamento para reforma, em 2010 (quando vi um gol de falta de Evair), o coração batia mais forte.

Terminei com uma namorada que havia me dado, poucos dias antes, uma camisa do Palmeiras. Não consegui devolver o presente - era a 7 do Edmundo, como eu iria devolver? Em outro relacionamento, dei uma camisa 9 de 93 à companheira, para que ela se lembrasse de mim. "É a 9 do Evair".

Vibrei muito, pulei muito, gritei muito, tirei muito sarro, dei infinitas cambalhotas.

Chorei muito, esperneei muito, sofri muito e dei diversos socos na parede.

Fiz minha prima, filha de corintiano, virar palmeirense. Fiz um amigo de infância, que não tinha time, tornar-se um apaixonado até hoje. Fiz minha mãe, santista, ser conhecida na escola em que ela trabalha como "a palmeirense". Já pisei em camisa do Corinthians, já ganhei e perdi apostas para envergar mantos rivais, já fiz muita mandinga inútil, já liguei pro meu pai chorando depois de um gol, já enchi a cara depois de título, já quis tirar 3x4 com a camisa verde, já gastei horas e horas vendo e ouvindo jogos do Palmeiras e mais outras discutindo escalações e ainda  mais tantas jogando com o time verde no vídeo game.

Se hoje eu choro quando vejo o gol de pênalti do Evair no 12 de junho de 1993 é porque até hoje lembro que esse foi um dos melhores dias da minha vida. Assisti com meu pai, no bar do Cezinha, rezando no banheiro para que o Palmeiras ganhasse.

Se falta assunto com meu pai, o que nos une é o Palmeiras. Se ligo pra minha vó, ela já comenta do cabelo da Gareca e do desgraçado do Valdivia. Minha mãe pensa em mim quando o Palmeiras ganha, tenho certeza. Minha irmã, ah, um dia ela vai comigo na Arena. Meus amigos mandam mensagens instantâneas no Whatsapp a cada gol (sofrido ou convertido).

"Palmeiras minha vida é você" é um grito que foi muito entoado no velho Palestra, é comum no Pacaembu e preencherá os ouvidos dos frequentadores da Arena.

Por tudo isso, por estar presente em todos os dias dos meus 29 anos de vida, e por ter certeza que será assim até a minha morte, pouco importando se exaltarei Da Guias e Edmundos ou sofrerei com Rovilsons e Gioinos, se irei incentivar ou cornetar... por tudo isso e por saber que as vidas de mais de 16 milhões de pessoas (uma imensa maioria de trabalhadores que se ferra muito nesse mundo) são, nesse sentido, parecidas com a minha, eu digo: Palmeiras, minha vida é você!

Parabéns pelos 100 anos, Sociedade Esportiva Palmeiras!

quinta-feira, agosto 21, 2014

São Paulo (e Brasil) no Pós-Copa

Aí vai a segunda tirinha/charge do blog. Foi inspirada numa frase dita por Fernando Pardal.

A ideia foi juntar a crítica aos absurdos gastos com a Copa, principalmente por parte do governo federal, ao mesmo tempo em que questiona o "padrão Cantareira" do governo paulista: 0% de aumento na represa e no salário dos trabalhadores da educação (em especial os grevistas da USP, que foram reprimidos nesta semana).

Clique na figura para ver em tamanho maior:

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quinta-feira, agosto 14, 2014

Arqueologia industrial e os limites ao avanço da técnica


No fim de maio, devido a um trabalho que precisei fazer para a disciplina de História da Ciência, fui ao Museu de Arqueologia Industrial e Tecnologia (Maitec), localizado em Mairiporã, a alguns poucos quilômetros de São Paulo. Não, eu também não sabia o que era arqueologia industrial.

Como deve acontecer com quase todo mundo, eu associava arqueologia simplesmente a escavações (rolava até uma confusão com paleontologia - que lida com fósseis). Mas esse ramo científico vai muito além, pois se trata do estudo de culturas e modos de vida antigos por meio de objetos materiais. Ou seja, vários vieses são possíveis, desde análises de resquícios de civilizações "intocadas", até a visão mais abrangente sobre a sociedade capitalista ocidental - justamente o que a arqueologia industrial e o Maitec possibilitam, pois há, no local, centenas de "fósseis tecnológicos" que foram bem importantes para o desenvolvimento do homem que habita as bandas do oeste.

Quando você entra no galpão principal do museu (após passar por áreas externas lotadas de pavões {!}) e em sua parte anexa, é possível observar carros antigos, vagões de trens de passeio, locomotivas, aviões, teares, ferramentas de metalurgia, motores, jangadas, prensas, arados, tipografias, betoneiras, tratores, projetores, telefones, computadores, caixas registradoras, carros de boi, discos rígidos, orelhões, máquinas de escrever, mimeógrafos, máquinas fotográficas, gramofones, caixas de correio e por aí vai - muitas coisa ainda em condições de uso. Há cartazes que explicam como a peça funciona e qual foi a importância dela no contexto de sua criação. Também é possível fazer perguntas aos funcionários do local.

Digressão: antes de se estabelecer como sedentário, o ser humano precisou de ferramentas e técnicas para transformar a natureza em bens materiais que satisfizessem suas necessidades. E o domínio dessas técnicas foi alterando não apenas os tipos e a velocidade de criação de objetos, mas as relações entre os indivíduos que compõem a sociedade. Ainda mais porque, de acordo com a visão marxista, as relações sociais e produtivas ocorrem a partir do trabalho, em qualquer sociedade humana.

No Maitec, o foco são os instrumentos que alteraram as relações da sociedade em que vivemos. Além de ser muito legal ver como eram engenhosos alguns itens antigos (que deram certo ou errado) e como eles foram fundamentais para que novas tecnologias se desenvolvessem, toda essa velharia faz pensar.

Imagine quantas vidas a locomotiva alterou por permitir o transporte de cargas e passageiros em velocidade impensável anos antes de sua criação. Quantas pessoas migraram para a zona urbana a partir disso, adquiriram empregos (muitas vezes em condições sub-humanas) e estabeleceram suas relações sociais a partir de uma nova realidade criada a partir dessa técnica? Quantos clubes de futebol com o nome de Ferroviário surgiram mundo afora devido às bitolas metálicas instaladas sobre o solo então inexplorado? Quantos patrões encheram os bolsos a partir da mais-valia alheia com ganho na velocidade de escoamento de mercadoria e barateamento do transporte dos empregados? Quantos produtos úteis e inúteis chegaram a cafundós devido à linha férrea?

Como dá para perceber com as perguntas enviesadas que fiz no exemplo da locomotiva, não se tratou apenas de um desenvolvimento vertiginoso, maravilhoso e sem contradições. Muitos dos itens citados no começo do texto foram importantíssimos para alterar as relações na sociedade do trabalho, mas há limitações. No sistema em que vivemos, mesmo havendo avanço em tecnologia, ela costuma se expandir apenas quando serve aos interesses de quem está no comando - de modo que essa turma possa faturar ainda mais em cima da nova criação.

Em nossas timelines do Facebook, estamos cansados de ver notícias sobre invenções fantásticas que transformariam CO2 em concreto, que substituiriam gasolina por energia elétrica nos carros, que fariam carne de laboratório para não precisar matar animais. E tudo isso, apesar de já ser tecnicamente possível, não vai para frente por questões econômicas. Ou melhor, porque não dá lucro - pelo menos não agora. Numa sociedade em que a ciência e a tecnologia tivessem como foco não a reprodução de capital, mas a ampla satisfação das necessidades humanas, imagino que a coisa seria bem diferente.

E, para terminar, você vai entender o desenho do início do post. O prédio em que trabalho tem uma placa que cita o ano de sua inauguração: 1997. Os empreendedores queriam dar um nome moderno e que passasse a ideia de inovação. Recorreram à língua inglesa e escolheram "New World of Business" (Novo Mundo dos Negócios). Como símbolo, optaram pelo ícone da novidade tecnológica da época: um CD-Rom.
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Metalinguagem: tem uma história legal sobre essa visita que vou contar num próximo post.

quinta-feira, agosto 07, 2014

Tirinha hipnótica nº 1

Depois que comecei a fazer as ilustrações para os posts aqui do MZ, fui me interessando cada vez mais pelo negócio. Vi que eu poderia ir além do recurso "mídia artística" do Corel e voltei a dar umas rabiscadas após logos anos de recesso. O resultado é minha primeira tirinha em 14 anos. Ela é bem simples e tem a função de avisar aos mínguos leitores deste blog que, caso o botão "obter notificações" do Facebook (que aparece após o usuário clicar em "curtir") não seja ativado, quem curtir a página do Mercy Zidane dificilmente irá saber de qualquer atualização. Isso porque há uma nova política da rede social, que restringe o aparecimento de postagens oriundas de fan pagens na linha do tempo do usuário.

Entendeu? Hora de ser hipnotizado (clique na figura para ver em boa resolução):


Para obedecer ao Galo Psicodélico, basta acessar www.facebook.com/mercyzidane, clicar em "curtir" e, no mesmo botão, clicar em "obter notificações" ou "adicionar às listas de interesse".

terça-feira, agosto 05, 2014

O careca da sapataria


Todo dia, o homem de meia idade, alto, com uma careca opaca (ralos cabelos grisalhos ainda crescem pelas laterais), óculos de armação antiga e um queixo pontiagudo deixa a sapataria, na rua Ana Cintra, e sai para fumar, em pequenas pausas ao longo do expediente.

Das oito às cinco, juntando todas as alentadoras folguinhas, a fumaça de pouco menos de um maço passa por seus pulmões. Às vezes, ele olha o movimento e cumprimenta os conhecidos com acenos distantes. Noutras, mira seus próprios pés e bate a ponta do cigarro com o polegar por repetidas vezes, entre um trago e outro. E, como um fumante solitário qualquer, pensa.

Mas nessa época do ano, em um dos primeiros dias do mês, por volta das dez da manhã, o sol encontra a única cerejeira do restaurante que fica em frente à sapataria, do outro lado da rua. A árvore, diferentemente do que ocorre nos outros meses, está quase sem folhas e carregada de sakuras, as pequenas flores rosadas.

Quando o homem resolve sair para fumar e o olhar se desprende um pouquinho para o alto, há a surpresa. Todos os anos ele tem a mesma surpresa de quem lembra o sabor de um prazer há muito esquecido.

Acende o cigarro, apoia uma das pernas na mureta de proteção (de outra árvore, que fica na calçada em que a sapataria está), encaixa o queixo sobre a mão fechada enquanto a outra ponta do braço repousa sobre o joelho. Olhar fixo em direção às flores e o cigarro queimando entre o indicador e o dedo do meio da mão fechada - a outra se esconde no bolso. Quem anda pela calçada nesse momento ouve o longo suspiro, após uma leve tragada. O que a vida poderia ter sido?

Quando criança, como todas as que têm oportunidade, sonhava muito (de olhos abertos e fechados). Gostava de desenhar e pintar e não tinha dúvidas de que seria ilustrador, caso não fosse jogador de futebol. Sempre que podia, pegava o lápis e um pedacinho de qualquer tipo de papel e começava a rabiscar, mas preferia os primeiros minutos do dia. Era o horário em que os sonhos estavam mais frescos e se baseava muito neles para criar cenários e personagens de seus desenhos, complementados com a imaginação. Muitas pessoas, é verdade, não entendiam o que descobriu posteriormente ser seu "estilo". Diziam que os desenhos eram estranhos.

Num dia, mais velho a ponto de poder sair sozinho de casa, foi ao parque, não se lembra o motivo. O clima era frio e ventava muito. Enquanto caminhava, uma sakura chegou a seus pés. Viu mais algumas adiante. Seguiu a trilha e observou, pela primeira vez e com os olhos arregalados, uma cerejeira florida.

"Existe!", foi a primeira coisa que pensou. Caçoaram tanto dele na escola por desenhar uma árvore só com flores e sem nenhuma folha, que tinha visto em seu sonho. Ficou radiante! Tirou o lápis e o caderninho do bolso e começou a gastar o grafite. Tentou construir a delicada planta da forma mais realista possível, fugindo de sua característica principal.

Terminou vinte minutos depois. Viu que de realista o desenho não tinha nada, mas talvez tenha sido essa tentativa fracassada que fez o garoto perceber com mais nitidez a graça de sua prematura arte. Gostou do resultado.

Não mostrou aos familiares e colegas de escola, que costumavam fazer pouco caso de suas pequenas obras. Aguardou ansioso a quarta-feira seguinte, assistiu a toda a aula de artes e, quando a professora Bete estava sozinha na sala, apagando a lousa, aproximou-se e mostrou sua cerejeira. Perguntou se Bete sabia o que era. Ela respondeu com uma sequência de palavras que jamais saíram de sua mente:

-Que linda cerejeira, Fábio! A diferença é que a sua é muito mais bonita do que as que existem de verdade.

O calor do cigarro queimando os dedos fez o homem voltar do transe. Pisou na bituca e chutou-a para o meio-fio. Precisava consertar o salto quebrado da dona Cleide.

Voltava com pesar para o seu ofício, mas parou. Virou-se e mirou as sakuras por dez segundos. Pensou que ainda dava tempo, que existiam artistas que despontavam quando eram mais velhos. Já havia passado noites se perguntando quantos milhares de pessoas não deixaram de desenvolver suas expressões artísticas porque, assim como ele, tinham que trabalhar para sobreviver.

Desta vez ia ser diferente. Não seria como no ano passado e no anterior, ou no que veio antes desses. Ah, não! Desta vez, quando levantasse na manhã seguinte, ia desenhar seu sonho, como nos velhos tempos. E esse novo desenho seria uma guinada na sua vida, traria mais cor a tudo. Quem sabe até poderia descolar um troco? Ia procurar contatos, mostrar sua arte para o povo, vender quadros na feira de domingo, mas não ia deixar a rotina vencê-lo. Não mais.

Quando pegou o salto da dona Cleide para terminar logo o serviço, um calafrio lhe percorreu a espinha e se lembrou, desse vez de outra coisa.

Fazia muitos anos que não conseguia mais sonhar.

quarta-feira, julho 30, 2014

Quais os limites do Bom Senso FC?

Após derrota na Copa, há uma crise no futebol brasileiro. Qual seria a saída por fora do “futebol negócio”?


A Copa do Mundo chegou ao Brasil com estádios superfaturados, empreiteiros enchendo os bolsos, remoções de famílias, greves, manifestações e muita repressão. Enquanto isso, dentro de campo, a seleção pentacampeã passou vexame com a histórica goleada sofrida ante a Alemanha, na semifinal do torneio: um sonoro e inédito 7x1 – a maior derrota do Brasil em 20 edições da Copa do Mundo.

O otimismo acabou em crise futebolística.Não apenas a comissão técnica e os jogadores da seleção foram questionados, mas também os rumos do futebol brasileiro como um todo. Há uma série de pontos falhos, como a pouca atenção dada às categorias de base de clubes e da seleção, a venda prematura de jovens talentos ao exterior, a defasagem dos técnicos, a péssima organização dos campeonatos nacionais, etc.

Enquanto a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que deveria lidar com muitas dessas questões, só tem olhos para os amistosos internacionais e patrocínios milionários da seleção (só em 2014 serão R$ 300 milhões arrecadados), um grupo de jogadores se reuniu desde 2013 para confrontar decisões arbitrárias da entidade (que tem forte parceria com a Rede Globo), sob o nome de Bom Senso Futebol Clube. Essa reunião de atletas foi mais um reflexo do novo momento que o país atravessa em termos de politização.

Os jogadores organizados defenderam medidas básicas, como redução do número de jogos, teto salarial, calendário unificado, partidas espalhadas ao longo do ano para divisões inferiores, melhores horários para as disputas (que não fossem submetidas ao que é exigido por emissoras) e outras.

Com alguns protestos simbólicos, o grupo ganhou notoriedade. A derrota brasileira no campo fez a presidente Dilma Roussef (PT) decidir mostrar serviço para tentar se desvincular da imagem do fracasso canarinho em época eleitoral. Após seu ministro do esporte dizer que o futebol nacional teria uma “intervenção leve”, a mandatária convocou atletas do Bom Senso para uma conversa no Palácio do Planalto, em Brasília, no fim de julho.

Liderados pelo ex-corintiano Paulo André, que atualmente joga na China, os jogadores defenderam a não aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE), que isenta os dirigentes de clubes das consequências civil e penal caso cometam crimes; e sugeriram a democratização da CBF, com mandatos de dirigentes limitados a quatro anos, dando direito de voz e voto a atletas, treinadores, árbitros e clubes pequenos filiados à entidade. Também propuseram uma confederação “menos política e mais técnica”, com investimento em capacitação de treinadores, profissionalização do futebol feminino e de areia, abertura para debate e implementação de um novo calendário, entre outras medidas.

No entanto, quando o assunto foi a possível estatização da CBF (que é uma entidade privada, apesar de gerir um bem público), os jogadores do Bom Senso, como citado em artigo de Paulo André na Folha de S. Paulo, no dia 18 de julho, disseram: “Sabíamos que estatizar o futebol não era, nem de perto, a solução para os nossos problemas”. Certamente que uma estatização do esporte sem participação dos atletas, árbitros e comissões técnicas nas tomadas de decisão pouco adiantaria. Mas existe realmente a possibilidade de democratizar, pelos métodos propostos pelos jogadores, uma entidade tão corrupta quanto a CBF?

Dificilmente a estrutura de poder seria alterada sem uma mobilização massiva, pois o poder de decisão sobre um campeonato vale muito dinheiro para que CBF, Globo e cartolas de clubes o dividam com um jogador semi-amador.

Mas o ideal não seria que todos os jogadores profissionais, do goleiro de um time da Série D a um centroavante do clube campeão da Série A, ganhassem o mesmo salário? E se pudessem ter exatamente os mesmos poderes decisórios, como possibilidade de debater e votar um calendário de jogos para o ano todo?

Num terreno como o do futebol brasileiro, que parece estar estacionado na ditadura militar (o atual presidente da CBF, José Maria Marin, foi deputado estadual pela Aliança Renovadora Nacional - Arena -, partido da situação na época dos “Anos de Chumbo”), o Bom Senso, apesar de parecer dar passos democráticos, não representa a totalidade dos jogadores, principalmente a parcela mais pobre deles (82% dos jogadores profissionais recebem cerca de dois salários mínimos). As únicas alternativas formuladas para os atletas menos badalados são a criação da série E e o aumento do número de jogos nas séries C e D.
Não há propostas de organização em sindicatos de atletas, em que a representação da categoria seria mais justa e todos poderiam opinar a respeito.

Não é por meio de uma reforma numa instituição privada, com interesses de empresas por todos os lados, que as grandes disparidades salariais e a falta de organização no futebol seriam superadas. A estatização foi rechaçada pelos atletas do Bom Senso, mas não faria mais sentido que jogadores, técnicos, profissionais da área e toda a população participassem de processos públicos de tomada e gerenciamento do esporte? Isso seria impossível com a gestão da “paixão nacional” pela CBF.

E mesmo que o futebol fosse estatizado pela base de forma democrática, em um processo que dependeria da mobilização de vários setores da sociedade, uma pergunta simples colocaria muita coisa em xeque: para que serve o esporte? Antes de ser a forma de sobrevivência de certos indivíduos, ele é uma atividade fundamental para o desenvolvimento da educação do corpo e da saúde pública, além de servir para divertir.

Dessa forma, deveria ser uma prática garantida a toda a população - o que está longe de ocorrer hoje em dia (vide a falta de quadras e campos em periferias). Qualquer um, nas suas horas livres, deveria ter direito de se associar a grupos de prática esportiva e poder utilizar equipamentos públicos para isso. Numa sociedade sem desigualdades, em que todos tivessem mais horas de lazer e o Estado garantisse o acesso às práticas lúdicas, o esporte tenderia a deixar de ser o que é hoje (um negócio milionário que forma poucos superatletas com gordas contas bancárias, além de ter uma maioria que recebe uma miséria e uma infinidade que não consegue sequer praticá-lo), tornando-se simplesmente uma prática lúdica e não profissional, voltada para a educação física e para o divertimento.

É bem difícil refletir sobre como seria se o futebol não dependesse do lucro de emissoras, bancos e outras empresas para existir. Como os times se dividiriam se não houvesse diferença de renda entre agremiações? Por bairro? Por estilo de jogo?

Nos primeiros anos após a Revolução Russa de 1917, a prática esportiva no país começou a se massificar e surgiram, de forma natural, grandes atletas. Diferentemente do que ocorre hoje, quando algumas promessas são “pinçadas” e submetidas a exaustivas rotinas de treinos, que levam a diversas lesões. Até os dias atuais, países do Leste Europeu e Cuba colhem alguns frutos em competições internacionais, por incrível que pareça, devido ao amadorismo resultante da massificação esportiva.

A garantia estatal das condições para a livre prática esportiva, sob controle da população, pode ser uma resposta para os diversos problemas enfrentados pelo futebol brasileiro. É preciso pensar o que fazer para que o “futebol negócio” se transforme simplesmente em “futebol prazer” e “futebol educação".
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Metalinguagem: escrevi este texto para a edição 107 do jornal Palavra Operária, da Liga Estratégia Revolucionária. Contei com importantes contribuições de camaradas para chegar à versão final. Apesar de a ideia inicial ter sido apenas levantar alguns aspectos da "crise futebolística", o artigo me fez pesquisar e pensar num bocado de coisas.

quinta-feira, julho 17, 2014

A equilibrista de angústias

Não tinha medo da morte, ou apenas dela. Morrer, em muitas situações, poderia ser reconfortante. Um alívio; um momento em que a dor cessa e se transforma num "quase prazer". O que a angustiava era o longo caminho de sofrimento até a ruptura. Tinha medo de picos de dor que seriam tão fortes a ponto de transformarem a morte na escolha mais fácil.

Percebeu sua fobia quando lia sobre histórias de grupos que tiveram que renunciar à vida que levavam e foram obrigados a mergulhar numa nova realidade, sobrevivendo com pouca perspectiva de retomada ou de mudança.

Então imaginava o sentimento individual nesse contexto. Sentia a dor de um índio brasileiro do período de 1500 após a captura por portugueses, sendo obrigado a comungar, aprender uma nova língua, trabalhar para ter menos do que a natureza lhe dava antes e a pensar que a vida toda seria batalhar para criar um milagre, oposto pelo vértice à maldição da chegada européia.

Pensava em alguma negra insurreta de um quilombo nordestino do século XVII ou XVIII. Tirada de seu continente, revoltou-se após muitas chibatadas, mas se via cercada por tropas imperiais. Por mais que lutasse e conseguisse sobreviver, sabia que carregaria a dor da morte de irmãos e da saudade de uma existência que não tinha mais como voltar.

Suava frio e se perguntava o que faria em tais situações. Desconfiava, mas não sabia.

Olhava para si. Tinha que agradecer as oportunidades que tivera e que muitos sonhavam ter. Mas via, de um lado, as oito horas de trabalho, as obrigações e cobranças por toda parte, mesmo de quem a amava. Do outro, percebia que a infância perdera a cor gostosa que a memória costuma dar e que seus prazeres atuais eram vazios, mesquinhos e de difícil superação. A luz, lá no fim do túnel, um dia viria, mas conseguiria ela suportar uma existência sem sentido? Anos a fio de segundos insossos desfilando a sua frente pesavam e causavam desequilíbrio. Ela chorava.

Às vezes, para não cair, jogava coisas para cima enquanto andava sobre a corda bamba. Noutras, quando enxergava as cores, segurava-se com a força de seus braços e pernas à linha mestra. Mas esses momentos eram curtos e um dos lados ia ficando novamente mais pesado a ponto de fazer a respiração doer. O suor frio voltava. Respirava fundo, tentava secar as lágrimas e não pensar no que sabia que iria aparecer em sua mente.

Nessas horas, a dor a fazia correr mais livre. Enxergava o caminho, mas não era ele o que a estimulava. Apenas não se importaria com a queda.