Mercy Zidane

terça-feira, 3 de maio de 2016

24, a camisa maldita no futebol brasileiro

Quando o esporte mais popular do mundo ainda levava menos gente aos "stadiums" que corridas de cavalo, não havia número nas costas das camisas dos jogadores. Devia ser bem difícil diferenciar os praticantes de uma partida de "football", que ostentavam toucas e bigodinhos, "bicudando" as pesadas pelotas de couro de dinossauro (hehe).

Com o passar do tempo, alguém teve a brilhante ideia de usar a álgebra para identificar melhor os esportistas. Numeração de 1 a 11. Funcionava otimamente bem em partidas internacionais e até dava um charme a mais ao espetáculo (parece que, no Brasil, a numeração de camisas se estabeleceu no fim da década de 20 do século XX).

Mesmo com as mudanças frequentes de esquemas táticos, alguns números viraram sinônimos de posições: a camisa 1 é de goleiro, a 2 é típica do lateral direito, a 5 é a do volante, a 9 é a do centroavante, a 10 é a do meia armador e por aí vai. Os reservas usavam os números subsequentes.

Na Copa de 1974, a Holanda, para ser coerente com a troca constante de posição dos jogadores do "Carrossel Holandês", inovou em sua numeração. O goleiro era o número 8, o lateral esquerdo levava a 12 às costas; o craque do time (meia), Cruijff, vestia a 14. No Brasil, o Santos criou sua própria tradição ao estabelecer que o lateral direito deveria usar a 4 e o lateral esquerdo ficaria com a 3 (deixando os números 2 e 6 com os zagueiros).

Convenhamos que esses exemplos eram exceções num mar de times de 1 a 11 que respeitavam a ordem sabe-se-lá-por-quem-inventada das posições/numerações. Pois bem, para tristeza dos saudosistas, o futebol moderno foi chegando com força lá pro fim dos anos 90 e mudou isso (e muitas outras coisas, mas foquemos nisso). Se o craque do time veste a 7, não importa se ele fica no banco em um jogo ou supre a ausência do camisa 10 em outro, ele tem que vestir a mesma camisa para que o número seja identificado com sua imagem e mais gente compre as réplicas de sua camisa em lojas oficiais. Surgia a era das camisas personalizadas.

Eu me lembro de já ter visto jogadores desfilando camisas com números 87, 43, 99, 88, 33, 29, 49 e 85 às costas. E se você der uma pesquisada rápida, é capaz de achar outras camisas nada convencionais. Mas, olha, aqui no Brasil, apesar de existir (em algumas situações obrigatórias), vai ser difícil você encontrar alguma com o número 24.

Aguente, estamos quase chegando no assunto principal

 

Libertadores de 2012. Corinthians, que era campeão do torneio continental apenas no PlayStation, jogava a segunda partida das quartas de final, no Pacaembu lotado, contra o forte Vasco da Gama. Em uma jogada errada de Alessandro, o vascaíno Diego Souza rouba a bola e sai sozinho para marcar o gol que eliminaria o time de Parque São Jorge. O goleiro Cássio faz defesa espetacular e classifica o Corinthians (que, em seguida, marcaria com Paulinho). A equipe acabou vencendo sua primeira Libertadores e, meses depois, o Mundial.

Cássio usava a 24.

"Ah, é por isso que ninguém mais veste a 24 no Corinthians? Para lembrar daquela espetacular defesa"?
Não. A explicação é bem mais bizarra e sem sentido.

No Brasil, por um motivo aleatório, o cara que inventou o popular jogo do bicho (João Baptista Viana Drummond, fundador do zoológico do Rio de Janeiro), classificou o grupo que abarca a quadra estipulada ao veado como o 24º, contendo os números 93, 94, 95 e 96 (entenda as quadras e suas complexidades clicando aqui).

Reza a lenda que, nos anos 20, um policial foi prender homossexuais que passeavam próximos à praça Tiradentes, no Rio de Janeiro (ser homossexual era crime), mas falhou, pois quando seus homens iam capturar os indivíduos, eles corriam "como veados". A história teria ido parar na imprensa e se disseminado Brasil afora.

Esses dois causos fazem com que, no Brasil, haja uma ojeriza ao veado e ao número 24 por parte dos machos alfa, replicada pela cultura machista em geral, já que tais elementos são tidos como claros símbolos homossexuais. Quem nunca presenciou "brincadeiras" relacionadas ao personagem veado Bambi com torcedores do São Paulo (que teriam sido de origem mais rica na época da criação do clube), ou ouviu machões dizendo que fizeram "23 anos e meio, não 24"?

O futebol, o grade reduto machista da sociedade brasileira, não poderia aceitar jogadores ostentando o número gay.

"Então por que Cássio usou a 24 na Libertadores"? O campeonato sul-americano estipula numeração fixa que variava de 1 a 25 (atualmente é de 1 a 30). Como Cássio era terceiro goleiro, acabou ficando com o número maldito. Logo após a ascensão ao posto de titular e a gloriosa conquista, o goleiro fez questão de mudar de 24 para 12. Segundo boa reportagem do Uol, de 2015, apenas dois dos 20 times da Série A do Campeonato Brasileiro dispunham de jogadores com a camisa 24 no elenco, justamente por disputarem a Libertadores.

O medo de um número


Parece uma coisa boba, não é? É só um número, que é vastamente utilizado por esportistas ao redor do globo em diversas modalidades, mas que, devido à sua ausência no ludopédio brasileiro, mostra a força do machismo e da homofobia no dito esporte. Será que foi o poder gay da camisa 24 que fez com que Cássio defendesse a bola de Diego Souza na Libertadores de 2012? Certamente que não. Será que ao usar essa camisa o macho alfa passa a odiar futebol e, sei lá, começa a fazer coisas socialmente atribuídas a gays (como se homossexuais não pudessem gostar de futebol)? Também não. Então por que esse medo de um 2 e de um 4 juntos?

terça-feira, 26 de abril de 2016

Irmão do Jorel, ditadura militar e heteronormatividade


Imagine-se com oito ou nove anos de idade, acordando cedo no sábado de manhã para assistir, via tevê de tubo sem controle remoto, a algum imperdível desenho no Sábado Animado, do SBT. Um velho mas sempre engraçado Tom & Jerry se alternava com O Fantástico Mundo de Bob; havia também Os Anjinhos e, claro, dava para mudar de canal, esperar outros dias e horários e pegar alguma das reprises de TinTin na Cultura, ver animes na Manchete ou uma ou outra coisinha na Globo (eu adorava o desenho do Super Mario Bros que passava bem cedinho em dias de semana).

Mas se existissem estatísticas sobre a quantidade de episódios de desenhos animados exibidos nas tevês tupiniquins com temáticas como natais com neve, dias de ação de graças, dia das bruxas, brincadeiras com o tal "bundalelê" (em que o indivíduo mostra a bunda como provocação), casas sem portões e mais um monte de outras festas, situações ou hábitos que passam muito longe da realidade de uma criança brasileira, certamente esse índice seria exorbitante. Apenas os programas live-action da Cultura, como Rá-Tim-Bum, Cocoricó, e Castelo diminuiriam essa "goleada".

Não acho que os gringos são estúpidos e só produzem lixo enlatado - considero inclusive que existe muitíssima coisa boa -, mas essa grande lacuna na animação brasileira é preenchida pelas obras estrangeiras... E isso tem impacto no nosso autorreconhecimento, tanto em termos culturais, quanto nos problemas pelos quais passamos como habitantes do país. Bom, isso acontecia na minha época, já que toda criança ficava horas e horas em frente à tevê. Talvez hoje em dia, com internet e smartphones, a coisa seja um pouco diferente. Mesmo assim, crianças gostam de desenhos, independentemente da mídia que os transmita. Seja via tevê de tela plana ou espertofone baratinho,"Irmão do Jorel", criado por Juliano Enrico, e exibido e produzido pelo Cartoon Network, em parceria com o Estúdio Copa, é um contraponto ao que está estabelecido, pois é um raro seriado de animação brasileiro que, ainda por cima, bota o dedo em algumas feridas, com foco no humor e dispõe de fantástica qualidade técnica.

Bebendo na fonte de desenhos mais recentes do próprio canal estadunidense que misturam a estética da fofura com muitos elementos nonsense (vide Flapjack e Hora de Aventura), a série conta a história de Irmão do Jorel, um molequinho mirrado que é irmão mais novo de uma lenda: o adolescente Jorel, com seus longos cabelos esvoaçantes que arrebatam corações e a admiração de todos na escola Pônei Encantado. A popularidade de Jorel é tamanha que ninguém sabe ao certo o nome de seu irmão mais novo. A família, tipicamente de classe média brasileira, tem duas avós, um irmão do meio, o pai e a mãe, além dos dois já citados - você pode ver mais detalhes sobre cada um dos personagens aqui.

Eu poderia falar sobre coisas muito legais e engraçadas que são tema central ou pano de fundo dos 26 episódios viajados e emocionantes já lançados até o momento (a segunda temporada está em produção), como festa junina, anel apito, filtro de barro, figurinhas, caneta de 250 cores, fixação por um herói tosco que mistura Steven Seagal com Sidney Magal (virando Steve Magal), os incríveis Latenagers (uma banda psicodélica do pai da família Jorel, estilo Secos e Molhados) e a adoração das crianças pelo anime Microwave Warriors (referência clara a Cavaleiros do Zodíaco), mas vou focar em duas questões. Sigam-me os bons:

Relação com a memória da ditadura militar

 

No Brasil, apesar de Bolsonaro ter bizarramente louvado o coronel torturador Brilhante Ustra na votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara, e de um jornal de grande circulação já ter falado em ditabranda ao se referir ao período da ditadura militar no país, tivemos um regime que calou a população por décadas, torturou e  matou centenas de pessoas. É algo importante e que deixou marcas na geração que presenciou o processo, tendo seus ecos sentidos até hoje. Em "Irmão do Jorel", Seu Edson, o pai da família, é um ex-militante revolucionário, que tentou lutar contra a ditadura fazendo uma peça infantil chamada "Um Urso Numa Casquinha de Noz" (risos).

Quem estava no poder durante esse período, no universo da animação? Os palhaços.

Liderados por Hambozo (uma mistura de Rambo com Bozo?), os palhaços são proibidos de sorrirem ou de se divertirem enquanto contam piadas. Apesar da maquiagem peculiar da profissão, utilizam trajes militares e precisam obedecer a uma rígida hierarquia, mostrada no episódio 16, quando Irmão do Jorel é recrutado para se tornar palhaço profissional. Todo o tipo de força repressora da animação é liderada por Hambozo, inclusive a polícia (menção à Polícia Militar, que é herança da ditadura?). Tortas e flores d'água são as armas dos tristes palhaços, que querem levar uma alegria burocrática e controlada à população.

Questionamento da heteronormatividade

 

No episódio 25, Irmão do Jorel e sua melhor amiga Lara se interessam em participar de uma competição de roller derby (uma patinação artística no gelo sem gelo e sem arte, segundo a personagem Samantha). Por ser homem, Irmão do Jorel é proibido de integrar o time das "Trituradoras de Sonhos Mortíferos". Mesmo assim, o garoto se veste de mulher e entra na vaga de Lara, que havia sido expulsa pelo juiz (também um palhaço) no meio da disputa, fazendo sua equipe vencer a grande competição. Todos no gigantesco estádio ficam estupefatos quando se anuncia a fraude - vozes se levantam indignadas com o fato de Irmão do Jorel estar usando saias; mesmo assim, o moleque ergue novamente o troféu e um anônimo na plateia grita: "Não importa! É isso aí, cara!" contagiando a arena e levando o pequeno à glória.

Ao longo do episódio, Irmão do Jorel tenta, constrangido, esquecer dos patins e jogar futebol, que é coisa de macho. Antes, quando Lara diz que ele é frangote por não querer passear de bicicleta longe de casa, ele pergunta se ela quis dizer que ele é "mulherzinha". É então que Lara dá uma grande lição:



Imagem: Cartoon Network Brasil

Em seguida, a conversa se segue e Lara argumenta que é possível um menino não gostar de jogar futebol e uma menina ser apaixonada pelo esporte bretão.

Dedo na ferida

 

Para além de toda ambientação em território brasileiro, com objetos e expressões mais comuns no dia a dia de uma parcela das crianças do país (lembremos que a produção é baseada no universo de uma família de classe média), o seriado se torna extremamente inovador ao tocar em temas que são tabu, ainda mais por se tratar de uma animação infantil.

O Brasil tem dois recordes internacionais negativos: é o país que tem uma das polícias mais assassinas do mundo e é o campeão de assassinatos de homossexuais. "Irmão do Jorel", ao abordar esses temas, pode facilitar a conversa de crianças com pais, professores e colegas sobre a ditadura militar e a herança deixada por esse doloroso processo (como a PM); e sobre preconceito, ódio e bullying que vêm da homofobia tão presente em nossa cultura.

Não estou pintando o desenho de vermelho ou dizendo que é a coisa mais progressista do mundo (tem gente que vai encontrar reforços de estereótipos onde outros verão apenas ironia, em certos episódios), mas é uma produção bem divertida, que ocupa essa lacuna de séries animadas sobre o Brasil e que acertou absurdamente em tocar em temas tão polêmicos.

Se você der uma chance a "Irmão do Jorel", capaz de se viciar mais que seus filhos pequenos.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Duck Rangers


Dilma, cuidado com esses justiceiros de argumentos infláveis!

Para ver em alta resolução, clique na imagem. Para ver mais desenhos, clique aqui.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Elogio aos "lerdos"

Desde quando eram crianças, acordavam, sentavam-se em suas camas e ficavam cinco ou dez minutos pensando na vida, imóveis ou coçando levemente suas cabeças.

Nunca venceram a disputa de quem copiava mais rápido a lição que a professora passava na lousa, na primeira ou na segunda séries.

Lavavam a louça bem devagar, esfregando a sujeira direitinho, na terapia cognitiva que também fazia o pensamento planar pelas memórias de prazeres e dores da vida.

No transporte público, esqueciam de meter os fones no ouvido ou de tirar jornal, livro ou revista da mochila, após passarem pela catraca; ficavam olhando a corrida das árvores desfocadas pela janela, ao lado dos borrões cinzentos com pontinhos coloridos, que buzinavam.

Liam os livros na velocidade em que eles pediam. E eles quase nunca pediam para serem devorados.

Ficavam entre os três últimos candidatos a entregar a prova, em qualquer teste de concurso ou vestibular.

Mastigavam lentamente enquanto os outros engoliam a comida esquecendo-se de notar se havia muito ou pouco sal.

Seguravam ou soltavam o gozo respeitando os sinais do parceiro... Da dança inicial ao abraço suado e intenso, que afrouxava até a sincera conversa começar.

Saboreavam até a tristeza de um coração partido ou de uma desilusão de outra ordem. Inevitável clichê: tudo ia sempre passar.

Por que sempre agiam desse jeito? É difícil saber e certamente eles não estiveram, não estão e não estarão preocupados com isso.

Os "lerdos" (por mais subjetivo e muitas vezes preconceituoso que esse rótulo seja) sofrem de uma disfunção na sociedade da informação: não são afoitos, ansiosos, desesperados... Ou às vezes até são, mas só em alguns poucos momentos, em certas situações.

O "desvio" de personalidade já é suficiente para o bullying que os acompanhou desde cedo. "Você não é tão rápido como a maioria."

Mas quer saber? Com esses surtos de ansiedade, com o turbilhão de informações vomitadas em um deslizar de tela, com os pop-ups de mensagens importantíssimas que imploram por nossa atenção a cada segundo, poder ser lerdo, hoje em dia, é um grande privilégio.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Sobre endurecer e perder a ternura

"É preciso endurecer, mas sem perder a ternura jamais."

A conhecidíssima frase é atribuída ao revolucionário argentino Ernesto Che Guevara. Apesar de ser tão famosa quanto a fotografia "Guerrilheiro Heroico", de Alberto Korda, que já ilustrou milhares de camisetas, bonés e outras bugigangas, acredite, é bem difícil encontrar registro sobre a primeira vez em que essa sequência de palavras foi dita ou escrita. Depois de alguma pesquisa, descobri que ela consta no livro "Mi amigo el Ché"‎, de Ricardo Rojo, publicado por Jorge Alvarez, em 1968, quando Che já havia falecido.

Bonita e profunda, a frase (que críticos afirmam não ser de Che - especula-se que foi uma forma de aumentar aura sobre a figura do guerrilheiro) condensa duas ideias principais. Tento explicar, de forma muitíssimo resumida:

Antes da vírgula, mostra como um militante de esquerda precisa "endurecer". Além de expressar a necessidade de preparação para resistir aos donos dos meios de produção e ao Estado (inclusive em momentos extremos, quando tortura e outras medidas repugnantes são utilizadas), evidencia também que é preciso ter disciplina e levar a sério as tarefas do agrupamento político em que se está inserido, senão as coisas não vão se alterar sozinhas (apesar de existir grande peso de questões conjunturais nessa balança). Em outras palavras, endurecer significa ter compromisso, saber se preparar para resistir e dar prioridade à militância - participando de reuniões, atos, e demais tarefas similares -, o que acaba fazendo com que hábitos "comuns" percam relevância e constância na agenda. Contrapartida inevitável.

Na segunda parte, o ensinamento anterior é amenizado. Disciplina é necessária, mas se isso for levado adiante de uma forma exagerada, o pragmatismo extingue o combustível essencial dos que carregam sonhos junto com a bandeira vermelha. Um militante pragmático estabelece relações fetichizadas com trabalhadores (como se eles fossem exemplos em diversos sentidos por formarem o sujeito revolucionário, na visão marxista) e muitas vezes utilitaristas, sem a criação de uma ligação real; lida com companheiros de organização apenas como se fossem números ou se interessa só por algumas funções específicas que eles possam desempenhar para a agrupação (inclusive a de aumentar o prestígio próprio dentro do grupo - o que pode ser uma ponte para a burocratização); desconsidera pressões, anseios e crises individuais de militantes, entendendo-as como coisas menores que atrapalham o grande objetivo de toda a esquerda mundial... E por aí vai.

Criar essa armadura é bem fácil. Quando se entra em uma organização, seja ela um partido político, um grupo de trabalho voluntário, uma associação de bairro, etc., as tarefas do coletivo pressionam as individuais. É normal. O diferencial dos comunas é que o objetivo final seria o "mais nobre de todos": o fim da exploração capitalista. E tudo dentro do partido, absolutamente, se torna tarefa importante e essencial para se chegar a essa meta. Segundo essa visão, carregar uma caixa cheia de livros ou participar de uma reunião sobre conjuntura que pouco vai interferir no rumo da política nacional são ações fundamentais para a construção de uma organização que, se uma conjunção imensa de fatores confluir, pode ajudar a influenciar as massas a superarem o capitalismo num eventual momento revolucionário.

Por tudo isso, a pressão é muito alta, o que favorece o pragmatismo nas relações. Para além da importância exacerbada de tarefas pouco relevantes e dos comportamentos citados dois parágrafos atrás, existem as tentativas de se padronizar o tipo ideal de militante em vez de se explorar o que cada um tem de melhor a oferecer: fulano que não hesita em deixar compromissos pessoais de lado, participa de todos os atos e reuniões sem questionar a importância deles e até dorme menos para realizar tarefas é o exemplo a ser seguido. Quem, por mil motivos, não consegue seguir essa lógica, fica escanteado. Existe, em casos extremos, até uma competição entre quem se doa mais pela organização. Se todo partido de esquerda seguir essa lógica do "militante ideal", o resultado é mais autoisolamento, pois diversos laços afetivos são rompidos e a pessoa, vivendo numa bolha, dificilmente vai conseguir influenciar outras, sejam colegas de trabalho ou amigos.

Num contexto internacional em que partidos de esquerda "radical" (leia-se não governistas e que pensam na superação do capitalismo) não têm a força que já tiveram enquanto forma de organização e são muito pequenos (sem questionar a importância deles enquanto forma de resistência), a tendência é que toda essa militância abnegada, cheia de pressões e de tarefas "importantíssimas", no fim das contas, não seja tão efetiva. E isso frustra muita gente sincera, que está dando a vida para tentar mudar o mundo. Sem apoio, com relações pragmáticas, pouco resultado e muitas vezes pouco estímulo a refletir sobre a sua situação e a situação do partido, a tendência é o indivíduo deixar a militância partidária de lado.

Mais amor?

Para se construir uma organização política orgânica é preciso que haja militância (como mostrou a disputa entre mencheviques e bolcheviques no congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo de 1903), caso contrário, alguns poucos atuam enquanto outros apenas apoiam ou financiam (o que acabou acontecendo com antigos partidos de esquerda que hoje nem lembram de suas bandeiras). E, claro, num partido político, a política é o mais importante e ela deve nortear a organização a partir de princípios e da atuação prática em lutas cotidianas.

Postas essas duas ponderações, digo que não, não é apenas mais "ternura guevarista" que vai colocar os partidos de esquerda brasileiros ou de qualquer outro país num rumo de crescimento, como eu e muitos outros gostariam... A política (que pode ser de sectária a reformista), com princípios e pontos de programa negociáveis ou não e as diferenças entre diversos propostas de poder são determinantes, assim como a atuação prática de cada organização.  Mas, sem dúvidas, a ternura pode ajudar.

Quem faz o partido existir são as pessoas que o compõem. Enquanto organizações de esquerda tiverem relações internas pragmáticas e forem máquinas de moer militantes (muitos ficam depressivos por não darem conta de tarefas e não se enquadrarem em modelos de atuação) dificilmente elas conseguirão se expandir a um número razoável, o que já é uma contradição em si... Sem contar o absurdo principal, que é perpetuar um tipo de relação interpessoal totalmente diferente do qual se luta para que toda a sociedade tenha, em mundo sem exploração de uma classe sobre outra.
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Metalinguagem: esse texto se baseia em minha experiência partidária e no que conheço de algumas organizações de esquerda brasileiras. Agradeço as sugestões do parceiro André Bof.