sexta-feira, outubro 24, 2014

Em cima do muro?

Tirinha autoral que contempla minha posição - ela está mais bem desenvolvida neste artigo aqui, com o qual tenho pleno acordo.

terça-feira, outubro 21, 2014

O que faltou para a esquerda nas eleições?

O resultado para a esquerda partidária após o fim do primeiro turno das eleições 2014 não foi muito significativo - algo que poucos imaginariam um ano atrás, com a expressão massiva da falta de representatividade que marcou os protestos de junho.

Apesar de ter havido a "pulverização" do movimento (principalmente em São Paulo) a partir do momento em que ele passou a repercutir mais na mídia, as pautas originais eram de esquerda e muitos jovens mostravam descontentamento com serviços sociais precários, exigindo não só a redução da tarifa de ônibus, mas melhores condições de saúde, educação e moradia para toda a população.

E aquele junho não terminou no fim do mês. Protestos menores continuaram e muitas greves entraram em pauta, com novidades importantes nelas. Os grevistas passaram por cima da burocracia de sindicatos (que normalmente freia mobilizações mais radicais) e exigiram as condições de trabalho que realmente julgavam justas, não as que os diretores do sindicato pelego haviam combinados com os patrões. Rodoviários de Porto Alegre e de São Paulo fizeram movimentos desse tipo, mas o exemplo mais forte se deu com os garis do Rio de Janeiro, que conseguiram 37% de aumento.

Certo. Se tudo isso apontava para um caminho mais à esquerda, questionando o projeto petista de conciliação de classes (aquele que dá milhões aos bancos e às empreiteiras pra jogar migalhas à população, entre vários outros aspectos), por que os principais partidos da esquerda tiveram resultados de 1,55% (PSOL) e 0,09% (PSTU) na disputa presidencial? Nos pleitos para deputados e governadores, em geral, o resultado foi parecido - apesar de o PSOL ter conseguido eleger alguns representantes a mais. Quem olha de relance o resultado do primeiro turno nem se lembra de que, entre 2010 e 2014, houve um junho de 2013 no meio. Mas por quê?

Para além do ápice do desgaste que a forma de organização "partido" sofreu ao longo dos últimos anos, com muitos jovens dizendo que todos eles eram iguais (devido, por exemplo, ao abandono de princípios do PT e às falcatruas que envolvem todos os partidos da ordem), os que realmente têm diferenças não se mostraram como alternativa aos insatisfeitos - tanto é que os votos nulos, brancos e abstenções tiveram alta significativa.

O PSOL, que poderia ter sido um fenômeno, resolveu, num primeiro momento, lançar a candidatura mais à direita dentro da organização para concorrer às eleições presidenciais - Randolfe Rodrigues, a pessoa quer que o PSOL siga um caminho de alianças escusas análogo ao que fez o PT (na campanha para a prefeitura de Macapá, alguns anos atrás, fez aliança, por exemplo, com PSB). Luciana Genro assumiu a candidatura após desistência de Randolfe e foi financiada com dinheiro de uma grande rede de supermercados, a Zaffari, justamente uma medida que criticou nas candidaturas da ordem, durante os debates televisivos.

Para além disso, Luciana, que cresceu nos votos na reta final após a defesa dos direitos dos LGBTTIs, não conseguiu ligar o que defendia ao rechaço à política institucional que marcou junho e as greves. Pouco falou da necessidade de organização dos trabalhadores, de fortalecer e levar as lutas adiante para mudar o país - o que não ocorreria sequer se ela, hipoteticamente, vencesse a disputa, já que a questão não é apenas mudar quem está no poder, mas questionar o regime (dê uma olhada neste texto que traça uma linha de crítica interessante sobre a candidatura Genro).

O PSTU, apesar de ser uma organização de esquerda com mais base operária que o PSOL (e, por causa disso, ter uma organicidade maior em greves e mobilizações em geral), ficou muito preso à velha lógica pré junho em sua atuação (vide greve do metrô, quando poderia, por dirigir o sindicato, seguir o exemplo dos garis cariocas e moralizar a categoria para ir adiante mesmo com os ataques, mas teve atuação mais rotineira de "luta de calendário"). Apesar de dizer que é o partido das lutas e do socialismo, não consegue passar para a população a ideia de como é importante se organizar de forma independente.

Isso se mostra em uma certa separação entre o que é dito em programas eleitorais e materiais de propaganda com relação à atuação sindical, em que uma ilusão nos partidos da ordem é criada (na recente greve do metrô paulistano, colocaram figurões da UGT, CUT, CTB, Força Sindical e parlamentares do PSB e do PC do B para negociar com a empresa "em defesa dos trabalhadores" - ué, mas eles não representam interesses que não são dos trabalhadores? Cria-se certa confusão).

O PSTU também criminalizou desde o início a tática Black Bloc (com a qual também não concordo, mas entendo que expressou uma certa revolta dos jovens com a política institucional), chegando a negar abrigo a jovens ante a repressão no ato da esquerda de São Paulo, na abertura da Copa do Mundo.

Faltou união e organização da esquerda?

Mesmo não se mostrando como alternativa seria possível costurar alguma articulação para obter melhores resultados? É comum, principalmente depois desse tipo de fiasco eleitoral, as pessoas dizerem: a esquerda é muito fragmentada e precisa se unir para fazer uma oposição digna.

Sim, seria ótimo que houvesse união, mas não a qualquer custo. A esquerda é tão dividida justamente por que há diversos projetos que se apresentam como alternativa à ordem de coisas que está colocada hoje. Uma união meramente eleitoral significaria não discutir ou chegar a acordos em diferenças importantes (como a questão de aceitar financiamento de campanha por grupos privados ou fazer alianças locais com partidos dos ricos), mas simplesmente jogá-las para debaixo do tapete.

Houve frente de esquerda entre PSTU, PCB e PSOL, mas pouco se ouviu falar a respeito, e os candidatos a presidente saíram de forma separada. Não faltou organização - afinal, os grupos se articularam. O problema foi mais grave. Não se refletiu um programa conjunto (enquanto o PSTU defendia o não pagamento da dívida em âmbito presidencial, não fez essa denúncia em locais em que estava coligado na tal frente). Não existiu a percepção do que aconteceu em 2013 para pensar uma plataforma comum que realmente propagandeasse o que era necessário neste momento: a organização independente de trabalhadores e estudantes, em locais de trabalho e estudo, para mostrar novamente a força das ruas, rechaçando a política institucional e utilizando-a para desmascarar as grandes candidaturas e até as pequenas que tinham aparência de progressista (como a de Eduardo Jorge), mas que, na verdade, eram mais do mesmo.

Portanto, para mim, faltou à esquerda a percepção de que podia ser mais audaz e menos rotineira, mostrando suas diferenças (umas organizações têm mais e outras menos) para canalizar toda a onda de insatisfação contra os partidos da ordem e fortalecer a mobilização independente. Não percebeu, não tentou e, consequentemente, não conseguiu.

terça-feira, setembro 30, 2014

O que Levy Fidelix tem na cabeça?

O candidato à presidência Levy Fidelix deu um show de boçalidade no último debate eleitoral, incitando ódio contra homossexuais.

A charge que desenhei é uma brincadeira com a pergunta literal que muita gente deve ter feito: o que Levy tem na cabeça?

Minha posição a respeito está muito bem representada no artigo de Fernando Pardal (clique aqui e leia).

quarta-feira, setembro 17, 2014

O parente do Rossi


O post que você começa a ler agora está sem ilustração desenhada porque ele tem muito a ver com a foto acima. O cara do lado direito, com toda sua formosura, sou eu. O outro é o Ubirajara, conhecido como Bira. Ele trabalha no Museu de Arqueologia Industrial e Tecnologia (Maitec), que visitei um tempinho atrás e do qual falei nesta postagem aqui.

Ele é responsável pela parte audiovisual do museu. Sua função é explicar aos visitantes como funcionavam os televisores, projetores cinematográficos, rádios e outros objetos expostos numa sala específica sobre o tema.

Chama atenção do visitante a paixão com que Bira fala sobre o funcionamento da projeção antiga, ponderando os avanços técnicos, questionando se o aumento da qualidade seria tão significativo assim e se entristecendo com a extinção de projetores antigos no Brasil (que, se bem me lembro, viria por lei - o que poderia significar o fechamento de muitos cinemas, principalmente no interior). Por fim, ele executou uma rápida projeção numa máquina bem velha, movida a diesel, antes de dar cópias dos negativos para os observadores. "Guardem porque não não vai durar muito".

Como durante a exposição Bira comentou sobre filmes antigos, ao final, me aproximei e falei para ele que eu tinha um tio avô que foi um tanto importante para o estabelecimento do cinema nacional: Gilberto Rossi (que meu pai e minha vó chamam de "Nonno").

-Você é parente do Rossi?!?!

Bira deu um pulo pra trás. Fiquei até meio sem graça com a euforia dele. Começou a me falar sobre como o Rossi foi importante. "Era um visionário!", disse, depois de explicar que meu tio avô fez livros destinados a profissionais e amadores que ensinavam a filmar em diversas situações, sem contar a qualidade das produções de que fez parte, como diretor e diretor de fotografia.

Falei da V Jornada de Cinema Silencioso, de 2011, a primeira e única vez em que vi filmes de Rossi. Se não me engano, foram três. Outra descendente do "Nonno", Claudia Agazzi, executou a trilha sonora ao vivo, tocando piano. Bira não apenas estava presente, como foi a primeira vez que projetou em uma máquina bem antiga para um público grande. 

Ficamos conversando por vários minutos, curtindo essa empatia inusitada que meu tio avô (que sequer conheci) proporcionou. Quando eu estava indo embora, ele me impediu e disse pra sua colega: "Tira uma foto minha com o parente do Rossi". Meio sem jeito eu aceitei e pedi para a moça fazer a gentileza de registrar o momento também com a minha câmera.

sexta-feira, setembro 12, 2014

Contra o racismo, Aranha é muito maior que Pelé

Eu achei fantástica a atitude do goleiro Aranha, do Santos, no jogo diante do Grêmio, pela primeira rodada das oitavas de final da Copa do Brasil de 2014, no dia 28 de agosto. Após ser xingado de "macaco", "preto fedido" e por aí vai pela torcida rival, o arqueiro santista se revoltou, pediu para que os cinegrafistas filmassem os rostos dos seus agressores e deu entrevista na saída do gramado dizendo tudo o que ocorreu ao longo da partida.

O caso ganhou repercussão, o Grêmio foi justamente (em minha opinião) eliminado da Copa do Brasil. Aranha deu várias declarações em que demonstrou seu conhecimento a respeito da luta do povo negro (ele inclusive usou essas palavras) e de como era necessário o combate ao racismo. Contrariando o circo criado pela mídia para vitimizar uma das agressoras flagradas xingando-o, o goleiro se recusou a encontrá-la pessoalmente.

Eis que, num evento, perguntam a Pelé o que ele achava do caso envolvendo o goleiro do seu ex-clube. Na contramão, o rei do futebol afirma que "Aranha se precipitou em querer brigar" e que "racismo também é contra japonês". O certo, segundo Edson, seria o goleiro continuar a disputa como se nada tivesse acontecido.

Como discordo frontalmente dessa opinião e acho que o racismo deve ser combatido sempre e em qualquer circunstância e situação, fiz a charge abaixo, batizada de "Contra o racismo, Aranha é muito maior do que Pelé". Para ver em melhor resolução, basta clicar na imagem:

Observação: claro que a opinião de Pelé não tira o fato de que ele também sofreu com racismo e que todas as situações de xingamentos que ele viveu foram lamentáveis. Imagino até que sua visão é fruto de um racismo mais escancarado que existia na época em que era jogador. Mas é preciso fortalecer e não desencorajar atitudes como as de Aranha.

terça-feira, agosto 26, 2014

O Palmeiras na vida de um torcedor


Quando me vi, quando me enxerguei como pessoa, quando dei conta de mim mesmo, da minha existência, eu já era, sei lá como, palmeirense.

Pensei que tinha começado quando meu pai me acordou de noite (eu contava cinco ou seis anos de idade) só para me presentear com um lindo uniforme pirata do Verdão - numa malha chinfrim com o logo da Coca-Cola; mas aí percebi que eu fiquei tão feliz nesse dia exatamente porque meu coração já era verde. Muito verde.

"Estranho uma paixão tão forte não ter data de início", pensei. Mas faz sentido: uma das poucas certezas que tenho é que ela não tem dia marcado pra acabar.

Ainda molequinho, na escola, a camisa do Palmeiras era meu uniforme oficial nas aulas de educação física, enquanto os outros usavam vestimenta estudantil. Se eu fosse jogar bola em qualquer outro lugar - o que era bem comum para uma criança doida por futebol, a camisa ia junto, assim como o apelido instantâneo que os desconhecidos me davam: "palmeirense". Pouco me importava que não sabiam meu nome. Nada melhor do que ser chamado de "palmeirense".

Se tinha uma aula vaga ou estávamos tomando as lições de artes, o que eu desenhava? Os diversos gols de Evair; e muitos e muitos emblemas do Palmeiras. Tanto é que a primeira carta de amor que recebi na minha vida, na primeira série, tinha um "P" estilizado - minha admiradora sabia como me conquistar.

A brincadeira favorita? Fingir que era o Velloso no gol;  bater a falta de canhota (mesmo sendo destro) só para imitar o Roberto Carlos; comemorar como o matador Evair,  após mais um gol de pênalti "trotado", contra o goleiro imaginário nas traves de paus e vasos do quintal.

Apesar de ser a principal paixão, eu não gostava só de futebol. Assistia a desenhos animados e séries japonesas. Mas por que será que eu admirava tanto o Shiryu, cavaleiro de dragão em "Os Cavaleiros do Zodíaco"? Por que eu gostava mais do Tommy, em "Power Rangers"? Sim, ambos usavam armaduras verdes.

Eu comprava histórias em quadrinhos, mas a cada título que o Palmeiras ganhava (e eram muitos nos anos 90), queria saber mesmo era da edição especial da Revista Placar e das vastas reportagens e perfis com os meus verdadeiros super-heróis. Cheguei a decorar escalações de times dos anos 70, da segunda Academia palestrina, de tanto devorar essas publicações.

Percebi que meu avô estava muito mal de saúde quando vi que ele não sabia que o Palmeiras tinha chegado à final do Brasileiro de 97. Logo ele, tão fanático... chorei sua morte e, um mês depois, em homenagem, fui com o meu pai, pela primeira vez, ao Palestra Itália, no jogo da primeira fase da Copa do Brasil de 98 - a copa que venceríamos e que nos levaria à tão sonhada Libertadores.

Nos meus aniversários, 24 dias antes dos do Palmeiras, era fácil saber o que eu gostaria de ganhar, ano sim e ano também: camisas do Verdão.

Quando acabou o período de glórias dos anos 90, com escalações lendárias que ainda povoam meus melhores sonhos, e o time caiu de divisão, confesso, fraquejei. Não consegui suportar uma dor tão forte de algo que me dava tanta felicidade. Acinzentei um pouco a minha vida. Deixe-me envelhecer, esqueci a alegria boba de um gol, de uma paixão infantil e "sem sentido". Futebol é só um jogo, não é mesmo?

Prestei vestibular para jornalismo. Será que, se eu não tivesse lido tantas notícias e reportagens sobre o Palmeiras, eu teria feito essa escolha?

Em 2005, após três anos de uma resistência meio covarde e meio adulta, eu me rendi. Já sabia a escalação de cor, salteado, de trás pra frente, com reservas, com time B, revelações da base e o que mais tinha direito. O verde pulsava de novo dentro do peito. Chorei ao subir, depois de oito anos, as arquibancadas do Palestra novamente e enxergar o jardim suspenso. Toda vez que eu entrava ali, até o fechamento para reforma, em 2010 (quando vi um gol de falta de Evair), o coração batia mais forte.

Terminei com uma namorada que havia me dado, poucos dias antes, uma camisa do Palmeiras. Não consegui devolver o presente - era a 7 do Edmundo, como eu iria devolver? Em outro relacionamento, dei uma camisa 9 de 93 à companheira, para que ela se lembrasse de mim. "É a 9 do Evair".

Vibrei muito, pulei muito, gritei muito, tirei muito sarro, dei infinitas cambalhotas.

Chorei muito, esperneei muito, sofri muito e dei diversos socos na parede.

Fiz minha prima, filha de corintiano, virar palmeirense. Fiz um amigo de infância, que não tinha time, tornar-se um apaixonado até hoje. Fiz minha mãe, santista, ser conhecida na escola em que ela trabalha como "a palmeirense". Já pisei em camisa do Corinthians, já ganhei e perdi apostas para envergar mantos rivais, já fiz muita mandinga inútil, já liguei pro meu pai chorando depois de um gol, já enchi a cara depois de título, já quis tirar 3x4 com a camisa verde, já gastei horas e horas vendo e ouvindo jogos do Palmeiras e mais outras discutindo escalações e ainda  mais tantas jogando com o time verde no vídeo game.

Se hoje eu choro quando vejo o gol de pênalti do Evair no 12 de junho de 1993 é porque até hoje lembro que esse foi um dos melhores dias da minha vida. Assisti com meu pai, no bar do Cezinha, rezando no banheiro para que o Palmeiras ganhasse.

Se falta assunto com meu pai, o que nos une é o Palmeiras. Se ligo pra minha vó, ela já comenta do cabelo da Gareca e do desgraçado do Valdivia. Minha mãe pensa em mim quando o Palmeiras ganha, tenho certeza. Minha irmã, ah, um dia ela vai comigo na Arena. Meus amigos mandam mensagens instantâneas no Whatsapp a cada gol (sofrido ou convertido).

"Palmeiras minha vida é você" é um grito que foi muito entoado no velho Palestra, é comum no Pacaembu e preencherá os ouvidos dos frequentadores da Arena.

Por tudo isso, por estar presente em todos os dias dos meus 29 anos de vida, e por ter certeza que será assim até a minha morte, pouco importando se exaltarei Da Guias e Edmundos ou sofrerei com Rovilsons e Gioinos, se irei incentivar ou cornetar... por tudo isso e por saber que as vidas de mais de 16 milhões de pessoas (uma imensa maioria de trabalhadores que se ferra muito nesse mundo) são, nesse sentido, parecidas com a minha, eu digo: Palmeiras, minha vida é você!

Parabéns pelos 100 anos, Sociedade Esportiva Palmeiras!

quinta-feira, agosto 21, 2014

São Paulo (e Brasil) no Pós-Copa

Aí vai a segunda tirinha/charge do blog. Foi inspirada numa frase dita por Fernando Pardal.

A ideia foi juntar a crítica aos absurdos gastos com a Copa, principalmente por parte do governo federal, ao mesmo tempo em que questiona o "padrão Cantareira" do governo paulista: 0% de aumento na represa e no salário dos trabalhadores da educação (em especial os grevistas da USP, que foram reprimidos nesta semana).

Clique na figura para ver em tamanho maior:

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quinta-feira, agosto 14, 2014

Arqueologia industrial e os limites ao avanço da técnica


No fim de maio, devido a um trabalho que precisei fazer para a disciplina de História da Ciência, fui ao Museu de Arqueologia Industrial e Tecnologia (Maitec), localizado em Mairiporã, a alguns poucos quilômetros de São Paulo. Não, eu também não sabia o que era arqueologia industrial.

Como deve acontecer com quase todo mundo, eu associava arqueologia simplesmente a escavações (rolava até uma confusão com paleontologia - que lida com fósseis). Mas esse ramo científico vai muito além, pois se trata do estudo de culturas e modos de vida antigos por meio de objetos materiais. Ou seja, vários vieses são possíveis, desde análises de resquícios de civilizações "intocadas", até a visão mais abrangente sobre a sociedade capitalista ocidental - justamente o que a arqueologia industrial e o Maitec possibilitam, pois há, no local, centenas de "fósseis tecnológicos" que foram bem importantes para o desenvolvimento do homem que habita as bandas do oeste.

Quando você entra no galpão principal do museu (após passar por áreas externas lotadas de pavões {!}) e em sua parte anexa, é possível observar carros antigos, vagões de trens de passeio, locomotivas, aviões, teares, ferramentas de metalurgia, motores, jangadas, prensas, arados, tipografias, betoneiras, tratores, projetores, telefones, computadores, caixas registradoras, carros de boi, discos rígidos, orelhões, máquinas de escrever, mimeógrafos, máquinas fotográficas, gramofones, caixas de correio e por aí vai - muitas coisa ainda em condições de uso. Há cartazes que explicam como a peça funciona e qual foi a importância dela no contexto de sua criação. Também é possível fazer perguntas aos funcionários do local.

Digressão: antes de se estabelecer como sedentário, o ser humano precisou de ferramentas e técnicas para transformar a natureza em bens materiais que satisfizessem suas necessidades. E o domínio dessas técnicas foi alterando não apenas os tipos e a velocidade de criação de objetos, mas as relações entre os indivíduos que compõem a sociedade. Ainda mais porque, de acordo com a visão marxista, as relações sociais e produtivas ocorrem a partir do trabalho, em qualquer sociedade humana.

No Maitec, o foco são os instrumentos que alteraram as relações da sociedade em que vivemos. Além de ser muito legal ver como eram engenhosos alguns itens antigos (que deram certo ou errado) e como eles foram fundamentais para que novas tecnologias se desenvolvessem, toda essa velharia faz pensar.

Imagine quantas vidas a locomotiva alterou por permitir o transporte de cargas e passageiros em velocidade impensável anos antes de sua criação. Quantas pessoas migraram para a zona urbana a partir disso, adquiriram empregos (muitas vezes em condições sub-humanas) e estabeleceram suas relações sociais a partir de uma nova realidade criada a partir dessa técnica? Quantos clubes de futebol com o nome de Ferroviário surgiram mundo afora devido às bitolas metálicas instaladas sobre o solo então inexplorado? Quantos patrões encheram os bolsos a partir da mais-valia alheia com ganho na velocidade de escoamento de mercadoria e barateamento do transporte dos empregados? Quantos produtos úteis e inúteis chegaram a cafundós devido à linha férrea?

Como dá para perceber com as perguntas enviesadas que fiz no exemplo da locomotiva, não se tratou apenas de um desenvolvimento vertiginoso, maravilhoso e sem contradições. Muitos dos itens citados no começo do texto foram importantíssimos para alterar as relações na sociedade do trabalho, mas há limitações. No sistema em que vivemos, mesmo havendo avanço em tecnologia, ela costuma se expandir apenas quando serve aos interesses de quem está no comando - de modo que essa turma possa faturar ainda mais em cima da nova criação.

Em nossas timelines do Facebook, estamos cansados de ver notícias sobre invenções fantásticas que transformariam CO2 em concreto, que substituiriam gasolina por energia elétrica nos carros, que fariam carne de laboratório para não precisar matar animais. E tudo isso, apesar de já ser tecnicamente possível, não vai para frente por questões econômicas. Ou melhor, porque não dá lucro - pelo menos não agora. Numa sociedade em que a ciência e a tecnologia tivessem como foco não a reprodução de capital, mas a ampla satisfação das necessidades humanas, imagino que a coisa seria bem diferente.

E, para terminar, você vai entender o desenho do início do post. O prédio em que trabalho tem uma placa que cita o ano de sua inauguração: 1997. Os empreendedores queriam dar um nome moderno e que passasse a ideia de inovação. Recorreram à língua inglesa e escolheram "New World of Business" (Novo Mundo dos Negócios). Como símbolo, optaram pelo ícone da novidade tecnológica da época: um CD-Rom.
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Metalinguagem: tem uma história legal sobre essa visita que vou contar num próximo post.

quinta-feira, agosto 07, 2014

Tirinha hipnótica nº 1

Depois que comecei a fazer as ilustrações para os posts aqui do MZ, fui me interessando cada vez mais pelo negócio. Vi que eu poderia ir além do recurso "mídia artística" do Corel e voltei a dar umas rabiscadas após logos anos de recesso. O resultado é minha primeira tirinha em 14 anos. Ela é bem simples e tem a função de avisar aos mínguos leitores deste blog que, caso o botão "obter notificações" do Facebook (que aparece após o usuário clicar em "curtir") não seja ativado, quem curtir a página do Mercy Zidane dificilmente irá saber de qualquer atualização. Isso porque há uma nova política da rede social, que restringe o aparecimento de postagens oriundas de fan pagens na linha do tempo do usuário.

Entendeu? Hora de ser hipnotizado (clique na figura para ver em boa resolução):


Para obedecer ao Galo Psicodélico, basta acessar www.facebook.com/mercyzidane, clicar em "curtir" e, no mesmo botão, clicar em "obter notificações" ou "adicionar às listas de interesse".