Mercy Zidane

quarta-feira, 19 de abril de 2017

3%, a questão estética e as temáticas sul-americanas


 Produzida pela Boutique Filmes, criada por Pedro Aguilera e lançada em novembro de 2016, a série "3%" ficou famosa por ser a primeira trama brasileira original financiada pelo serviço de streaming dos EUA Netflix. Tendo João Miguel e Bianca Comparato como atores mais experientes em meio a novatos de talento, a produção, dirigida por César Charlone, começou na internet (onde teve episódios-piloto lançados em 2011, financiados pelo FICTV/Mais Cultura) e conseguiu se credenciar, com "marketing de guerrilha", a ser filmada com recursos da multinacional de entretenimento. E por mais que os oito episódios da série pós-apocalíptica voltada para adolescentes abordem temas que têm muito a ver com a realidade do Brasil e do mundo atuais (falaremos disso já já), o que talvez mais tenha chamado atenção da mídia brasileira foi...

A questão estética


Um programa de tevê, um filme, uma série... Todos os produtos audiovisuais (e que têm mais foco no visual do que no sentido da audição) têm uma concepção estética. Cenário, produção, fotografia, posicionamento de câmera, estilo da edição. Não é possível dizer que isso não importa ou que é menor, pois é pelas formas, cores e sons que nossos olhos e ouvidos percebem os estímulos para nos entregarem o sentido da trama, que pode gerar entretenimento, reflexão e debate. A forma é importante; sem ela, não há conteúdo, e é possível elaborá-la de maneira coerente com poucos recursos.

Com um orçamento de R$ 10 milhões (muito pouco perto de sucessos da casa, como Narcos ou House of Cards), "3%" conseguiu desenvolver uma estética coesa. Foi elaborado um ambiente futurista e, sabendo que não poderia gastar muito em efeitos especiais, a série não abusou deles - há poucas cenas abertas e com muita computação gráfica -, nas demais, existem pequenas inserções sonoras e visuais que se encaixam na estética da proposta (portas e vidros se transformam em equipamentos "smart" com curtos sons e efeitos visuais). O fato de a série tratar principalmente de um processo seletivo que ocorre em um local específico também ajudou... Assim como os planos mais fechados e a fotografia que valorizou tons mais escuros, apesar de coloridos.

Parece filme B, disse a crítica de um grande jornal do país, que comparou a produção brasileira a tramas estrangeiras que tiveram maior orçamento. Quem se baseou nessa opinião e decidiu não assistir 3% deixou de acompanhar uma série que lida com temas fortes o tempo todo, apesar de haver alguns problemas compreensíveis para uma estreia, como admitiu Bianca Comparato. Também houve, na crítica, quem enxergou os pontos positivos na série, que já teve a segunda temporada confirmada. Mas vamos ao que interessa (e sem spoilers):

Temáticas


Numa região que parece um país sul-americano (ou seria uma fusão de países?) totalmente miserável chamada de Amazônia Subequatorial, indivíduos que chegam aos 20 anos têm a oportunidade de participarem de um processo seletivo ultracompetitivo - apenas 3% dos concorrentes são aprovados. Quem passa vive em um lugar isolado, rico e próspero, com medicina e tecnologia avançadas: o Maralto, chamado também de "lado de lá".

Com essa breve sinopse já dá para supor que o autor se inspirou no vestibular... E quem dá uma olhada só no piloto da série no YouYube tem a mesma percepção (o comentário em destaque na plataforma é "Esse processo de seleção, no mundo real a gente chama de Enem mesmo"). Na série, quem não é aprovado, tem expectativas de uma vida melhor diminuídas drasticamente.

Fazer a associação com condomínios fechados, em que ricos formam ilhas de segurança, com altos muros e cercas elétricas em meio a bolsões de miséria, comuns no Brasil, também não é difícil. Só que a metáfora "ilha" é levada ao pé da letra na série, pois Maralto, ao que tudo indica, é uma ilha, enquanto o restante da Amazônia Subequatorial se parece com regiões centrais degradadas de grandes cidades, misturadas a favelas.

O candidato ao processo filho de família abastada tem a regalia da empregada doméstica, mesmo sendo obrigado a morar junto do povo até completar seus 20 anos. Os demais convivem com operações policiais arbitrárias monitoradas pelo pessoal do Maralto - dentre esses, alguns precisam falsificar identidades para entrarem no processo, de modo que possam tentar a sorte pela segunda vez ou darem um jeito de sumirem devido a um crime cometido.

Quando o processo se inicia, os jovens são saudados por Ezequiel (João Miguel), o comandante do certame, que faz todos agradecerem a oportunidade de participação. Isso lembra as humilhantes provas de programas de TV em que um desempregado precisa fazer miquices em público para ganhar alguns milhares de reais, de modo que o apresentador, que é um agente dessa exploração, pareça um benfeitor.

Individualismo, meritocracia, escolha de inimigos e os personagens humanos


O processo iguala diferenças e transforma direitos fundamentais em privilégios quase impossíveis de serem conquistados (outra semelhança com o mundo com economia em recessão e cortes). Tendo como perspectiva a vida no Maralto, o individualismo é incentivado e vale tudo para seguir adiante na disputa, mesmo que isso inclua mentir, intimidar e roubar. Questiona-se também a meritocracia.

Mas há o contraponto: a Causa, uma seita que tem o objetivo de unir revoltados com o processo e mostrar, apesar das campanhas oficiais (corroboradas pela igreja), o quão injusta a seleção é. O inimigo não seria, portanto, o concorrente à vaga, mas o sistema que os força a competir.

Em meio a tudo isso, há personagens humanos, que vão sabendo jogar no “reality show” da seleção e que acabam revelando certos segredos e muitas contradições ao longo da trama.

Séries precisam de iscas para os finais de episódios e isso não falta a 3%. Se não é totalmente viciante e com mil acontecimentos de velocidade estonteante, é intrigante. Há forçação de barra em algumas situações (uma cena de envenenamento, a morte de personagem depressiva em um local de recuperação, entre outras). Mas, em geral, a trama conseguiu formar um núcleo de personagens interessantes. Não foi monótona ou previsível, seguiu uma tendência de desconstruir maniqueísmos e deu ao espectador a sensação de gradual aumento do conhecimento sobre a formação dos personagens.

Temas não são aprofundados, mas são reconhecidos e expõem críticas


Todos esses temas listados acima não são abordados profundamente. Não é a proposta da série e provável que o próprio formato não permitisse, mas é muito legal tê-los em uma produção nacional vista em todo o mundo (isso que outros, como estresse psicológico, relação com deficientes físicos, cena de tortura análoga à praticada na ditadura brasileira - também estão na trama -, não foram citados).

Num país com novelas que giram em torno de romances vazios (com exceções) e fogem de temas-tabu, 3% cumpriu com êxito o desafio de fazer ficção científica com baixo orçamento e, mesmo com alguns erros, colocou um ponto de vista sul-americano (e não o já manjado drama do branco estadunidense) no mundo, puxou para o debate temas relacionados com a desigualdade e a crise econômica - dando destaque a atores negros e mulheres. Não é um pastiche de Jogos Vorazes ou de Divergente, pois tem na essência elementos que brasileiros e latinos reconhecem no dia a dia.
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Metalinguagem: agradeço à minha amiga Carol Almeida, que me emprestou seu conhecimento sobre séries do tipo, debateu 3% comigo, ajudou a revisar e a construir este texto.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Sonhos e pesadelos de Temer

 Alguns setores finalmente estão se organizando contra os ataques absurdos de Michel Temer e seus apoiadores. Torçamos e ajamos para que a greve geral saia do papel e seja efetiva.

A falta de tempo fez essa tira ser a lápis, mas acabei gostando do resultado.

Para ver outras tiras, clique aqui.

sábado, 18 de março de 2017

O Sorriso do Morto

Saiu do forno o meu primeiro fanzine de história em quadrinhos. "O Sorriso do Morto" foi concebido no segundo de três dias da oficina "Historietas Autobiográficas", ministrada por Power Paola, no Sesc Pompeia, em fevereiro, mas só ficou 100% pronto agora em março.

Uma das formas da autora de Vírus Tropical estimular a criatividade dos participantes para a elaboração da historinha final era elencando temas em uma lousa. Um deles era "caminho"... E, quando li a palavra, o "causo" surgiu, enfocando a rotina jornalística, um evento sobernatural e um desfecho inusitado.

Veja a história completa abaixo e, se quiser uma cópia impressa, é só entrar em contato comigo. Agradeço quem puder compartilhar o trabalho para ajudar na divulgação. A outra historinha feita na oficina está aqui.

















segunda-feira, 6 de março de 2017

Historieta



O processo de produção do quadrinho acima foi bem parecido com o que a própria história descreve. Eu me matriculei num curso chamado "Historietas Autobiográficas", ministrado no Sesc Pompeia por Power Paola, a equatoriana criada na Colômbia autora de Vírus Tropical, novela gráfica publicada pela Nemo aqui no Brasil (livro do qual gostei muito).

A proposta desse primeiro exercício era simples: descrever, em um texto curto (como se fosse de WhatsApp), a experiência que eu e os demais alunos acabáramos de viver. Em seguida, Paola sugeriu que separássemos o texto e pensássemos em como os trechos poderiam se transformar em quadrinhos.

Eu, que costumo demorar uma eternidade para desenhar, tive meu processo bem acelerado.

"Mas qual é o sentido desse quadrinho?"

No curso, Paola disse algo como: para adquirirmos maturidade em termos de desenho e de roteiro para se produzir algo "grandioso", é preciso desenvolver técnicas, treinar, ter segurança.

Portanto, o objetivo foi apenas o de exercitar e, pra não perder a viagem, tentar fazer algo um pouco engraçado, mesmo que eu nunca chegue a fazer algo "grandioso" até o fim da vida.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Quadrinhos, massacres da humanidade e a resistência de Cumbe



Ler não é uma coisa simples. Você precisa decorar símbolos, regras, exceções, saber interpretá-los, entender seus sons... Depois de tudo isso é que as sequências de palavras e espaços fazem sentido e os significados começam a se ligar para a imaginação promover essa coisa fantástica que é construir imagens mentais do que as letrinhas nos contam. É por isso que ler qualquer coisa é sempre um exercício mental.

Para uma pessoa que está se adaptando a esse universo, seja uma criança banguela ou um velho de careca lustrosa (viu, aposto que você imaginou esses personagens hehe), os quadrinhos são sempre uma boa porta de entrada. Guiam a imaginação, unem o escrito com o símbolo... E então vamos percebendo que ler uma história dessas é tão legal quanto ouvir uma boa conversa "proseada" ou quanto assistir a um filme com um roteiro que te prenda do início ao fim.

Concluímos que quadrinho é uma boa porta de entrada para a leitura, mas é só isso? Lembro de quando meu primo Luis Felipe, o Dida, me emprestou "Batman: Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller, em meados dos anos 90. Minha vó disse, referindo-se a Dida, dez anos mais velho que eu: "Parece coisa de quem não teve infância".

Quadrinhos são uma mídia, uma plataforma de comunicação como qualquer outra. A televisão, o cinema e até mesmo os jogos de videogame transmitem informações, cada um a seu modo, e são capazes, com narrativas distintas, de contar histórias. Nos quadrinhos é possível, por exemplo, expor informação visual secundária que pode ser "relida" várias vezes, (o que é bem difícil de acontecer com os filmes devido à velocidade da transmissão; e com livros, que podem deixar a ambientação mais para a imaginação do leitor). Metáforas visuais se tornam possíveis e impactantes (a HQ "Esfinge", de Laerte é um grande exemplo), entre várias outras características singulares desse meio de comunicação.

Tradicionalmente, há muitas histórias em quadrinhos infantis e talvez isso tenha confundido minha sábia avó. Só que, à medida em que o tempo passa, percebe-se o potencial da mídia para falar de coisas mais "adultas" - não apenas de heróis (mesmo havendo histórias desse tipo que são para pessoas mais maduras). No Brasil, já existem selos especializados em "novelas gráficas", que nada mais são do que histórias adultas em quadrinhos, que podem ser tão boas ou melhores que as contadas em ótimos livros ou filmes.

Massacres retratados nos quadrinhos


Fui me interessando cada vez mais pelas "graphic novels" e procurei alguns clássicos. "Maus" de Art Spiegelman, e "Gen", um mangá de Keiji Nakazawa, são obras que abordam dois grandes massacres da humanidade no século XX: o holocausto e a explosão da bomba de Hiroshima, respectivamente. Ambas têm narrativas fluidas e roteiros que prendem absurdamente o leitor. Nas duas, outro ponto fortíssimo dos quadrinhos é explorado: relatos de experiências pessoais. As histórias trazem para o palpável, para o dia a dia de uma família comum, eventos que influenciaram milhares de pessoas e que muitas vezes ficam no abstrato dos números. As memórias imagéticas dos autores são essenciais para as obras e, em termos de estilo, Spiegelman usa metáforas para transformar judeus em ratos e nazistas em gatos; enquanto Nakazawa segue a tradição dos mangás com olhos grandes e frases praticamente cortadas ao meio, explorando canções e muitos momentos emotivos.

Gostei muito, mas após acabar as leituras uma pulga brotou atrás da minha orelha de terceiro-mundista. Esses episódios históricos são terrivelmente lamentáveis, mas já foram contados em diversos meios. Será que não existiria algo publicado sobre os gigantescos crimes cujas repercussões ecoam no Brasil de hoje, como massacres indígenas e a diáspora forçada da escravidão negra?

A resistência de Cumbe


A resposta veio com "Cumbe", de Marcelo D'Salete. As histórias curtas, com pouquíssimos diálogos e traço fino, em preto e branco, remetem ao período colonial brasileiro. A temática que permeia todas as narrativas é a resistência do povo negro que foi separado à força de sua terra e desumanizado. Algumas foram baseadas em documentos históricos e mostram o descontentamento dos escravos em pequenos atos diários ou em grandes revoltas que foram mote para a formação de quilombos.

O estilo do desenho (com muita tinta preta borrada) e a "secura" da falta de diálogos dão a ambientação perfeita de uma sociedade aparentemente calma, mas totalmente imbuída em violência. Com sensibilidade incrível, D'Salete botou o dedo numa ferida que os defensores da "democracia racial" querem apagar, esquecer, deixar pra lá... Ele faz refletirmos sobre como era terrível o que foi feito com o povo negro, ainda mais com as poucas perspectivas que havia para uma vida menos desigual, mas exalta um fator que muitas vezes passa batido nos livros de história: o inconformismo e a revolta sempre presentes na mente e nas atitudes dos então escravizados. Cumbe fez o que poucos filmes e livros ousaram no Brasil.


Moral da história: dê chance aos quadrinhos


Em vez de torcer o nariz, imaginando que é coisa de criança, dê uma chance aos quadrinhos, coisa boa pra ler é o que não vai faltar.
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Metalinguagem: o desenho é meu (Alberto Suzano), baseado baseado nas obras "Maus", de Art Spiegelman, "Gen", de Keiji Nakazawa, e "Cumbe", de Marcelo D'Salete, respectivamente.