quinta-feira, julho 17, 2014

A equilibrista de angústias

Não tinha medo da morte, ou apenas dela. Morrer, em muitas situações, poderia ser reconfortante. Um alívio; um momento em que a dor cessa e se transforma num "quase prazer". O que a angustiava era o longo caminho de sofrimento até a ruptura. Tinha medo de picos de dor que seriam tão fortes a ponto de transformarem a morte na escolha mais fácil.

Percebeu sua fobia quando lia sobre histórias de grupos que tiveram que renunciar à vida que levavam e foram obrigados a mergulhar numa nova realidade, sobrevivendo com pouca perspectiva de retomada ou de mudança.

Então imaginava o sentimento individual nesse contexto. Sentia a dor de um índio brasileiro do período de 1500 após a captura por portugueses, sendo obrigado a comungar, aprender uma nova língua, trabalhar para ter menos do que a natureza lhe dava antes e a pensar que a vida toda seria batalhar para criar um milagre, oposto pelo vértice à maldição da chegada européia.

Pensava em alguma negra insurreta de um quilombo nordestino do século XVII ou XVIII. Tirada de seu continente, revoltou-se após muitas chibatadas, mas se via cercada por tropas imperiais. Por mais que lutasse e conseguisse sobreviver, sabia que carregaria a dor da morte de irmãos e da saudade de uma existência que não tinha mais como voltar.

Suava frio e se perguntava o que faria em tais situações. Desconfiava, mas não sabia.

Olhava para si. Tinha que agradecer as oportunidades que tivera e que muitos sonhavam ter. Mas via, de um lado, as oito horas de trabalho, as obrigações e cobranças por toda parte, mesmo de quem a amava. Do outro, percebia que a infância perdera a cor gostosa que a memória costuma dar e que seus prazeres atuais eram vazios, mesquinhos e de difícil superação. A luz, lá no fim do túnel, um dia viria, mas conseguiria ela suportar uma existência sem sentido? Anos a fio de segundos insossos desfilando a sua frente pesavam e causavam desequilíbrio. Ela chorava.

Às vezes, para não cair, jogava coisas para cima enquanto andava sobre a corda bamba. Noutras, quando enxergava as cores, segurava-se com a força de seus braços e pernas à linha mestra. Mas esses momentos eram curtos e um dos lados ia ficando novamente mais pesado a ponto de fazer a respiração doer. O suor frio voltava. Respirava fundo, tentava secar as lágrimas e não pensar no que sabia que iria aparecer em sua mente.

Nessas horas, a dor a fazia correr mais livre. Enxergava o caminho, mas não era ele o que a estimulava. Apenas não se importaria com a queda.

segunda-feira, julho 07, 2014

Um pouco sobre esquerda, estética e conteúdo


Quem começa a militar em partidos e organizações de esquerda, costuma o fazer por uma mistura de convencimento racional e paixão pela vontade de mudar o mundo.

É uma relação dialética entre as duas coisas: não dá para se convencer sem sentir a gana de construir um futuro diferente na atuação diária e também não há modo de ter só a paixão e não pensar estrategicamente, aprendendo com as lições do passado e verificando quais dos diversos caminhos propostos por várias visões valem a pena.

O problema é que, infelizmente (apesar da conjuntura estar se alterando), ainda são poucos os comunistas neste mundo. Quando essas ideias escapam dos espaços mais tradicionais de atuação da esquerda, como certos sindicatos, centros acadêmicos, movimentos sociais, etc., há um grande ruído comunicacional, principalmente quando falamos de mídia (jornal, vídeo, internet).

Excluindo as correntes que se adaptam ao que a maioria pensa sem fazer as críticas necessárias, as demais chegam com um discurso que soa, de maneira geral, como um romantismo abnegado de quem dedica sua vida a uma causa nobre, como se bastasse gritar palavras de ordem com várias exclamações, citar exemplos desconexos e siglas ininteligíveis para fazer uma pessoa perceber os absurdos do sistema e ideias complexas que podem superá-lo.

Mas, infelizmente, um punhado de comunistas não faz revolução (desculpe o trocadalho, foi inevitável) - e se faz, ela já nasce degenerada, como no caso da Revolução Cubana, em que os trabalhadores não foram sujeito ativo do processo revolucionário e acabaram sendo governados até hoje por uma burocracia que se perpetuou no poder por ser a parte mais ativa na derrubada do antigo regime.

Ou seja, de qualquer jeito, é preciso convencer mais pessoas de que certas ideias que parecem absurdas e que questionam a raiz dos problemas do capitalismo, como estatização dos transportes sob controle de trabalhadores e usuários, autogestão de fábricas por parte de trabalhadores, etc., não são. E, para isso, o trabalho de base é importante, mas o uso aprimorado e criativo de ferramentas de comunicação também é, porque pode ser eficaz  tanto na relação diária nos locais de trabalho e estudo, quanto de forma mais superestrutural, difundindo conteúdo pela vastidão do mundo virtual.

É muito difícil puxar pela memória uma produção gráfica ou audiovisual da esquerda que seja criativa e abra portas para novas cabeças pensarem a partir dessas ideias. Geralmente os jornais são grandes bíblias, os vídeos têm sindicalistas falando por vários minutos, usando e abusando dos clichês que mais afastam do que aproximam. Pouca linguagem inovadora, poucas sacadas, muita repetição. E o pior é que as técnicas para fazer algo diferente já estão bem difundidas.

No Brasil, quem foge dessa linha é Rafucko, um militante independente que faz vídeos muito criativos e irônicos, com um conteúdo político muito forte. Outro ponto fora da curva é a websérie Marx ha vuelto (da qual falei aqui).

Bom, e eu disse tudo isso para mostrar que, dentro das minhas pequenas possibilidades, tento estimular um jeito diferente de fazer conteúdo dentro da esquerda, a partir da também pequena organização em que atuo (que ainda está longe de ser exemplo em termos comunicacionais). Como tenho mexido com audiovisual, tentei produzir formatos novos de vídeos em algumas oportunidades. Até agora, o que deu mais certo foi o da visita do papa ao Brasil. Mas, na última semana, fiz um vídeo que tenta criticar a repressão do período da Copa de um modo diferente: com a narração futebolística entra os times dos manifestantes e da repressão:


quinta-feira, junho 26, 2014

John Lennon cantaria: "Libertem Fabio, libertem Rafael"


Em 1969, nos Estados Unidos, um ativista foi detido por portar dois cigarros de maconha. Cerca de dois anos depois, em 1971, ele serviu como bode expiatório para a cada vez mais lucrativa "guerra às drogas", que ocorre até hoje por terra yankees: houve julgamento e ele pegou nada menos que dez anos de prisão.

O caso absurdo gerou uma grande campanha democrática para a libertação imediata do ativista, que atendia pelo nome de John Sinclair. John Lennon, que morava nos Estados Unidos à época, compôs uma canção com o nome do rapaz para fortalecer a mobilização.

A música, que ajudou a libertar o ativista alguns dias depois, tem versos como (em tradução livre):

-"Não é justo, John Sinclair / Preso por respirar ar";
-"Se ele fosse da CIA / Vendendo drogas para ganhar dinheiro / Ele estaria livre / Iriam deixá-lo viver / Respirando ar como eu e você";
-"Ele foi preso pelo que fez / Ou representando todos?"

Apesar do contexto bem diferente (países, momento histórico, motivação, etc.), há pontos em comum entre o caso descrito e o que aconteceu com as prisões arbitrárias de Fabio Hideki Harano e de Rafael Marques Lusvarghi, no último protesto contra a Copa do Mundo, aqui no Brasil, no dia 23 de junho. Quando fiquei sabendo da história, foi a canção de Lennon que veio à minha cabeça, até porque a prática repressiva e as táticas de criminalização da polícia dos poderosos têm se modificado muito pouco ao longo das últimas décadas em todo o mundo.

Para que não haja brecha para confusão, o flagrante inventado pela polícia nada tem a ver com drogas (que deveriam ser legalizadas, em minha opinião), mas com o direito de manifestação. Ambos estavam num ato realizado na Avenida Paulista quando foram revistados arbitrariamente e presos por associação criminosa, porte de explosivos, desacato. O secretário de segurança do estado diz que eles são líderes dos Black Blocs (que sequer têm líderes) em uma clara referência de que são os bodes expiatórios para o recrudescimento da ação policial após o ato do dia 19, organizado pelo MPL, em que houve depredações. Várias testemunhas, como o Padre Julio Lancellotti, alegam que as provas foram plantadas - também há filmagens que enfocaram a "geral" tomada por Harano e que comprovam isso.

Querem dar até oito anos de prisão a Fabio simplesmente porque usou seu direito e resolveu se manifestar, como já fez várias vezes e como acredita que pessoas não egoístas devem fazer. Querem botar Rafael no pau de arara público para mostrar o que acontece com quem vai às ruas, defendendo o interesse de muitos.

Por tudo isso, acredito que, se Lennon estivesse vivo, ele seria contra prisões arbitrárias com penas esdrúxulas de pessoas que apenas respiraram ar se manifestando e estão sujeitas a serem bodes expiatórios nacionais. Ele cantaria: "Libertem Fabio! Libertem Rafael!"

terça-feira, junho 24, 2014

Transcrição de um sonho

Certa vez li um livro do Kafka chamado "Sonhos". Nada mais é do que uma coletânea de sonhos que o autor transcrevia logo ao acordar, em diversos períodos da vida. Há uma frase dele próprio na contracapa do livro: "escrever uma autobiografia me daria grande prazer, pois seria tão fácil quanto anotar sonhos".

Os sonhos embaralham as nossas percepções do real e nos colocam em um filme abstrato em que nos é dado o papel principal. Eles brincam com sentimentos tão profundos de formas tão simbólicas que, às vezes, podem ser, na hora em que são escritos, a "literatura das nossas vidas". E o mais fantástico disso é que sequer lembramos desse "acordar pra dentro" por mais de algumas poucas horas.

Dia desses encontrei um sonho que anotei em julho de 2012. Aí vai:

"Foi um sonho e ao mesmo tempo um pesadelo. Estranho não seria um bom adjetivo para classificá-lo, já que um sonho “normal” é que está fora dos padrões do que é normal na vida. Estávamos eu e minha companheira andando na rua, à noite, junto com um amigo. Foi então que encontramos outro amigo em comum e os cumprimentos normais se sucederam. Mas a “pilhéria" (brincadeira que parece uma briga) entre os dois amigos em comum confundiu as demais pessoas que passavam pela ruela, que pensavam se tratar realmente de uma briga. Na verdade, foi o pretexto que esperavam.

Tiros para o alto. Num piscar de olhos (ou num passe de mágica, se preferir), estávamos numa balada (boate, danceteria, etc.), mas todos eram reféns do grupo que iria se apresentar. O tempo todo apontavam armas para nós, humilhando-nos. Estávamos sempre no chão, com as mãos na cabeça, mas era como se deslizássemos pelo solo para que mais de uma pessoa tivesse a possibilidade de nos ameaçar.

Num corredor, uma mulher muito bonita estava sentada. Umas sandálias femininas desamarradas estavam no chão, mas não era possível saber de quem eram. Ela me pediu a bolsa de minha amiga (que sei lá como também estava lá) e eu dei. Ela retirou os cartões bancários e perguntou onde estavam os meus. Fiz o movimento de tirá-los da carteira, mas amassei o que uso mais para inutilizá-lo e dei os dois que tinha para a mulher. Ela, obviamente, percebeu e, num gesto de desprezo, devolveu-me ambos.

Na próxima cena, é como se eu tivesse dormido por um tempo. Ao acordar (ainda dentro do sonho), os músicos guardavam os instrumentos e eu comecei a conversar com eles, que retribuíam, mas com chacotas. Perguntei de onde eles eram. Um disse que era são-paulino. Eu falei que era palmeirense, então outro me mandou tomar no cu e todos riram, inclusive eu. Repeti a pergunta e me disseram que eram do Pari. Me despedi cordialmente, eles novamente retribuíram, mas com ironia.

Na saída, dei de cara com uma festa de rua, em que algumas amigas estavam na barraca frontal. Não sei o que estava à venda, mas quando fui cumprimentar uma delas, derrubei um copo d’água no fogão, apagando o fogo. Em seguida, saudei duas amigas da minha mãe e a minha tia, que estava fumando um cigarro de palha ou de maconha e bebendo. Apesar de radicalmente contra entorpecentes e álcool, minha tia não fez menção nenhuma de esconder de mim o cigarro ou a bebida. Aos trancos e barrancos e com a demora para reacender o fogo, ela foi entrando na barraca e dizendo algo como “eu vou arrumar essa porra”.

Foi então que acordei. No entanto, antes dessa passagem, que foi a mais marcante e que me fez despertar de mau humor, houve outra parte, não menos melancólica. Eu estava na casa da minha avó paterna e eu procurava por desenhos, se não me engano, para pintá-los. Encontrei alguns. O primeiro era muito simples e tinha alguns rabiscos, com a face de três pessoas (eu, minha vó e meu pai). O segundo enfocava a mesa da cozinha, com uma galinha ao centro. Era um desenho mais elaborado. O terceiro era um muito bonito, com a figura de uma galinha iluminada pela luz de uma vela. Os traços do sombreado eram nítidos, mas se confundiam com as penas e davam um efeito espetacular".

quarta-feira, junho 18, 2014

Redes sociais, fragmentos e contrapontos


Um vez, faz um tempinho, eu escrevi sobre o Twitter, dizendo que ele é um reflexo de nosso tempo: uma ferramenta ágil e superficial - mas que, claro, possui pontos positivos. Tenho muitos amigos que usam e dizem que serve como um grande selecionador de artigos e notícias. E mesmo se não servisse para nada de "útil", todo mundo tem o direito de gastar seu tempo livre como bem quiser.

Mas e a grande rede social hegemônica que desbancou a soberania então inquestionável do Orkut no Brasil? O Facebook, se você for para para pensar, não é muito diferente disso. Tem uma linha do tempo com milhares de postagens de centenas de pessoas diferentes - e poucas delas, imagino eu, passam de 140 caracteres. Quando ultrapassam esse número, é bem provável que o alcance diminua. Há muitas fotos (a rede está cada vez mais dando prioridade às imagens), links (esses sim com artigos e matérias que podem ser mais desenvolvidos) e um espaço também crescente para vídeos. Resumindo, é um emaranhado de fragmentos de onde é possível pinçar coisas legais depois de gastar bastante tempo girando a rodinha do mouse.

E excluindo o fator essencial do Facebook  (o seu aspecto de rede), é possível traçar uma analogia dessa ferramenta com uma mais informativa e que está rareando: o jornal impresso. Ele tem como premissa básica "botar ordem" no caos do mundo e, para isso, fala um pouquinho sobre cada coisa. Esse pouquinho era bem maior até a década de 60, aqui no Brasil. O leitor se deparava com imensos blocos de texto logo nas capas e as matérias tinham tons opinativos mais fortes. O padrão do jornalismo estadunidense "objetivo" e "imparcial" do pós-guerra (com muitas aspas porque não existe objetividade e imparcialidade no jornalismo) passou a imperar a partir de então e as portas foram se abrindo cada vez mais para fotos, ilustrações e design em geral. E os textos foram ficando menores.

Fomos seduzidos pelas imagens e pelas lindas curvas do design. Por quê? Porque elas são informativas também e já nos dão boa ou má impressão de algum conteúdo mesmo que não tenha havido contato nenhum com ele. Elas são como um cartão de visitas sobre o que será discutido. Às vezes precisamos fingir que a diagramação não está tão ruim e ter força de vontade para ler um texto de alguém que você sabe que tem bom conteúdo, mas que subvaloriza a informação "imagética".

Por que o cérebro do ocidental (será que é só do ocidental?) funciona assim? Acho que tem a ver com a vida na sociedade moderna, com a correria das grandes cidades, com a falta de incentivo à reflexão de uma sociedade cujo objetivo principal de quem tá lá no alto é só reproduzir o que já existe e embolsar mais lucro, mas também penso que se a sociedade fosse diferente e mais reflexiva, com maior participação de todos sobre as decisões fundamentais, certamente haveria discussão e muito estudo sobre o poder das imagens e do design. Não dá para fazer a oposição simples conteúdo (profundo) x forma (superficial), já que há complementariedade na relação e existem formas profundas e conteúdos superficiais.

E se o grande problema das redes sociais é a captura de informações pessoais e a falta de privacidade, por outro lado, elas possibilitam, a partir do domínio de algumas técnicas, criar contrapontos de debate e de concepções da realidade que não estão no mainstream, vide a organização dos protestos brasileiros de junho de 2013, canais de música independente e até políticos, como o do humorista carioca Rafucko.

Pois bem, por tudo isso e porque tô tentando levar meu blog mais a sério, lanço hoje a página do Mercy Zidane no Facebook. Lá, vou tentar contribuir pra esse contraponto com as caraminholas que penso por aqui e também com outros conteúdos de blogs amigos que eu ache legal .Copio o Chespirito em sua primeira postagem no Twitter (ele tinha 82 e eu tenho 28): sigam-me os bons!

quinta-feira, junho 12, 2014

Não me chame pro churrasco

Se você, caro leitor, for "futucar" no histórico deste blog, vai perceber que o primeiro post, escrito por J. Silva, foi elaborado após a final da Copa do Mundo de 2006, no mês de julho. O nome deste blog provavelmente seria outro se Zidane não acertasse a épica e suicida cabeçada em Materazzi, mas dificilmente deixaria de expressar alguma pitada de futebol.

Oito anos depois, o blog, com seus poucos altos e muitos baixos, sobreviveu e minha paixão pelo futebol (comprove com este texto aqui) e pelo torneio que reúne os melhores jogadores do planeta não mudou, mas impossível passar por cima de tudo o que aconteceu em terras tupiniquins desde que o país foi eleito como sede e simplesmente vibrar despreocupadamente com drible de Neymar ou com um gol de Fred.

Como bem disse o jornalista Juca Kfouri no último Roda Viva, a Copa foi pensada como a coroação de um país que estava "em desenvolvimento" vertiginoso, que tirava pobres da miséria (dizendo que colocava na classe média mesmo que tivessem renda mensal de R$ 300), que possuía uma das economias mais fortes do mundo (e um dos maiores índices de desigualdade social), que aparecia na capa da The Economist como o país que decolava, etc. Seria a cereja do bolo da conciliação de classes do governo Lula - enriquecendo empreiteiras e pedindo a aprovação para os gringos ao tentar mostrar que capitalismo brasileiro funciona a ponto de sediar um megaevento internacional sem problemas.

Em 1958, o técnico da seleção na Copa, Vicente Feola, disse que Garrincha entraria jogando na partida contra a URSS e deu diversas orientações ao rapaz. Depois de ouvir tudo, o jogador perguntou: Mas você combinou isso com os russos? Foi o que faltou aos governos Lula e Dilma: eles combinaram com a FIFA, com as empreiteiras, com grandes empresas, com a imprensa, mas esqueceram de avisar pro sistema que ele não poderia expressar suas contradições. Veio a crise de 2008 (cujos impactos são sentidos até hoje) e com ela uma mudança qualitativa na conjuntura internacional - hoje em dia, é comum ver pessoas nas ruas protestando em diversos países a ponto de governos caírem. No Brasil, existe um número crescente de greves há anos (2012 bateu um recorde de 16 anos e 2013 e 2014 devem seguir nessa linha) e o aumento das passagens explodiu a insatisfação de quem viu um país desigual esquecer de suas prioridades para gastar com estádios-elefantes-brancos (o Brasil fez questão de eleger 12 sedes, sendo que só oito seriam necessárias), dar dinheiro pra uma das instituições mais corruptas do mundo, enquanto mais de 150 mil pessoas foram desalojadas de suas casas e a "nova classe média" - que na verdade é constituída por trabalhadores precarizados -, apesar de ter grana para comprar celular, não tem educação, saúde ou moradia de qualidade.

A "Copa das Covas", que bateu o recorde de gastos e de operários mortos em obras de estádios (9), pelo menos num primeiro momento, não empolga como de costume o torcedor brasileiro. Apenas ontem comecei a sentir o "clima de Copa", com muita gente de verde e amarelo e bandeiras do Brasil colocadas nos carros, coisa que, nos mundiais passados, começava com semanas ou meses de antecedência. Há poucas ruas pintadas e a decoração costuma se dar em lojas - é inegável que há no ar uma sensação de que está estranho torcer depois de tudo o que aconteceu. Até quem não liga para tudo isso e está animadíssimo com o torneio precisa contrapor o bordão dos protestos e afirmar que "vai ter Copa sim".

E se Dilma sambou tanto para tentar encontrar e colocar em sua propaganda os legados do torneio, eu acho simples apontar qual foi o único importante: os trabalhadores e jovens terem voltado a acreditar nas próprias forças. Junho de 2013 mudou o país com milhões nas ruas exigindo demandas de esquerda e conquistando a vitória parcial da manutenção das tarifas. E se em 2014, até agora, os protestos não foram massivos como os do ano passado, uma diferença qualitativa ocorre, pois os trabalhadores estão participando ativamente com suas greves que tentam passar por cima de sindicatos burocratizados (como aconteceu com os garis do Rio de Janeiro e rodoviários de Porto Alegre e São Paulo) e lutar por melhorias para toda a população, vide a greve dos metroviários de São Paulo.

E, como disse meu camarada Thiago, ao final dessa histórica greve dos metroviários: se ganhamos, mostramos que temos força (como aconteceu em 2013) e se perdemos, mostramos que, quando levantamos a cabeça, pelo menos dá jogo.

Por tudo isso, peço que não me chame pro churrasco. Não digo que não vou assistir a um ou outro jogo pela televisão, mas certamente a prioridade nesta Copa é engrossar o coro dos insatisfeitos nas ruas.

sexta-feira, maio 30, 2014

Precisamos de um cinema panfletário


Numa das aulas do curso de Ciências Sociais que faço, certa vez, um professor proferiu o seguinte comentário quando falava sobre uma das mais famosas obras de Marx e Engels, o Manifesto Comunista:

-É um panfletão!

O contexto da afirmação, se não me engano, tinha a ver com as diferentes fases das elaborações de Marx. O tom pejorativo do comentário quis inferiorizar a atuação militante e valorizar as teorizações mais "acadêmicas" (se é que podemos chamar com esse nome) do barbudo comunista. Fiz a ressalva entre parênteses porque Marx nunca quis ganhar uma cadeira em universidade para estabelecer sua teoria. Ele queria entender e mudar o mundo, e enxergava a relação fundamental entre teoria e prática, pois propôs uma filosofia que partisse da "terra", fosse ao "céu" e retornasse ao campo material para ser provada na realidade, em suas Teses sobre Feuerbach da Ideologia Alemã. Em O Capital, não esmiuçou à toa os mecanismos mais invisíveis da reprodução da mercadora e da criação do lucro dos patrões. E, no próprio Manifesto, resume conteúdos de significados políticos imensos dirigindo-se a trabalhadores para chamá-los a se unirem contra o estado de coisas que se desenvolvia, pois só eles poderiam alterar as estruturas. Ou seja, não faz sentido separar o que, para o barbudão, era indivisível.

Mas vamos nos ater um pouco ao xingamento do professor de sociologia. Um "panfletário" não é simplesmente uma pessoa que distribui panfletos. Literalmente é, mas  acabou se tornando sinônimo de alguém que não apenas dá acesso a uma informação redigida por uma pessoa ou grupo num pedacinho de papel, mas que tenta convencer outro politicamente de uma ideologia. Como os políticos da ordem e os ricos em geral convencem seus pares com muitas maletas de dinheiro em reuniões em hotéis luxuosos e só sabem o que é panfleto em época de eleição, o termo acabou sendo associado mais aos esquerdistas, imagino eu, pelo fato de ser esse grupo de pessoas que tenta convencer os trabalhadores do próprio poder que têm nas mãos a partir do chamado "trabalho de base" - que consiste não apenas em panfletar para trabalhadores de diversas categorias profissionais, mas também em atuar em sindicatos e comitês de classe. E, ao contrário do que muitos direitosos dizem, ninguém pode compactuar um conteúdo de um panfleto se ele for empurrado goela abaixo. Para que haja aceitação de uma ideia, é preciso debate e discussão em torno dela.

Se pararmos para pensar, os últimos cerca de 30 anos não foram tão frutíferos para os panfletários esquerdistas (esses que realmente querem mudar o mundo). O ascenso do neoliberalismo, a flexibilização de direitos, a queda da União Soviética (que mesmo burocratizada por uma casta privilegiada ainda era um estado operário), entre outros fatores, fizeram com que ressurgisse a ideia de "fim da história", por meio de Francis Fukuyama. Nela, acreditava-se que o mundo capitalista estava rumando para o fim de suas contradições e que, aos poucos, tudo iria melhorar para todos. O auge dessas ideias data da década de 90 e o termo país "em desenvolvimento" vem dessa época. É bom lembrar que muitos ex-esquerdistas, apesar de discursarem sobre revolução nos dias de festa, capitularam totalmente à tentativa lentíssima e gradualíssima de melhorar as coisas dentro do sistema.

Finalmente o cinema

E é só agora, depois de cinco parágrafos, que vou meter o cinema na história. Nessa época, os filmes, como era de se esperar, continuaram a ser produzidos (em alguns poucos países) e distribuídos em todo mundo. De maneira bem genérica, é possível dizer que houve uma pressão da realidade para que eles se adequassem a esse tipo de ideologia dominante.

Excluindo as exceções e tentando formar uma panorama bem abrangente, no Brasil, após os filmes muitas vezes mais herméticos, mas cheios de conteúdo político do Cinema Novo dos anos 50 e 60, os 80 viveram de chanchadas e os 90 presenciaram o início do que ficou conhecida como Retomada, em que os filmes nacionais voltaram a ser produzidos para exibição em cinemas, geralmente com algum tipo de auxílio governamental.

Inegável que houve uma leva de filmes que expressou contradições do sistema - desde as diversas películas sobre ditadura a documentários que retratavam a miséria de populações excluídas, passando por produções alternativas que tinham a política mais como pano de fundo. Mas não me recordo de algum filme que tenha em seu escopo a proposição de mudanças de paradigma de organização social. Em outras palavras, todo mundo filmava as contradições, mas ninguém dizia o que fazer para superá-las.

Eis que, não mais que de repente, como é de costume no capitalismo, a sujeira começou a sair por debaixo do tapete no mundo e as tais contradições que, teoricamente, tendiam a decrescer foram aumentando do fim da década de 90 e início dos anos 2000, até que a crise de 2008 explodisse, com a bolha imobiliária.

Primavera Árabe, indignados na Espanha, estudantes chilenos, trabalhadores gregos e a própria luta contra o aumento da passagem no Brasil. Tudo isso aconteceu num intervalo menor que quatro anos e representa a reverberação da insatisfação dos trabalhadores e da população em geral com a falta de capacidade desse sistema desigual de conceder demandas democráticas básicas, como ensino público, transporte para todos, emprego, remuneração digna, moradia.

Revoltas e processos revolucionários já não são mais coisa de maluco e muita gente mundo afora tem percebido que greves e manifestações de rua questionando regimes podem conquistar vitórias (mesmo que parciais). A tendência é de crescimento de protestos.

Certo. Se a conjuntura política está efervescente no mundo todo e no Brasil (como há muito não se via), o que esperar do cinema nacional? Reflexos de tudo isso certamente irão aparecer mesmo na indústria cinematográfica (já há alguns documentários sobre as Jornadas de Junho), mas num momento em que as tecnologias para captação de imagens e de áudio e para edição já estão muito mais acessíveis e os métodos de divulgação de conteúdo são diversos e bem efetivos, eu acho que está na hora de emergir um cinema não apenas que mostre as subjetividades e os dramas pessoais que pululam das contradições do sistema, mas que proponha ideias que possam levar ao questionamento do capitalismo, propagandeando uma sociedade em que todos sejam trabalhadores e tenham as mesmas condições. Ou seja, precisamos de um cinema panfletário! Um cinema que defenda uma ideia e seja ponto de partida para muitos debates acerca de como uma nova sociedade pode ser criada. E se isso é ser panfletário, que tenhamos orgulho em sê-lo.

E o exemplo a ser seguido, em minha modesta opinião, é o da série Marx ha vuelto, produzida pelo Instituto del Pensamiento Socialista Karl Marx (IPS), pela TV do Partido de los Trabajadores Socialistas (TV PTS) e pelo Contraimagem. Ela trata, vejam vocês, justamente do maior panfleto de todos os tempos, do qual falamos no início do texto, e que segue convencendo pessoas a militarem pelo socialismo até hoje: O Manifesto Comunista.

Os capítulos da produção ficcional têm pouco mais de dez minutos e o intuito é mostrar a atualidade do pensamento de Marx, misturando, de forma bem dinâmica, o dia a dia de um trabalhador gráfico, animações que retratam crises e contradições do sistema, e trechos do Manifesto explicados por um Marx que voltou ao nosso tempo e conversa com demais trabalhadores, de forma informal, num bar, que poderia ser o da esquina da sua casa. E, como no panfleto de Marx, mostra que só os trabalhadores unidos podem superar o capitalismo.

Recomendo fortemente a todos e espero que sirva de inspiração para quem tem uma camerazinha bem marromenos na mão e ideias revolucionárias na cabeça.

Assista abaixo ao primeiro capítulo:


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Metalinguagem: esse tipo de cinema seria o que eu faria agora se me fosse dada liberdade e possibilidade, mas não significa que eu considere apenas filmes que têm a propaganda socialista como bons - isso seria absurdo - estou elaborando um post a respeito para tentar aprofundar minha concepção. Para saber mais sobre a conjuntura política dos últimos 30 anos, clique aqui.

quinta-feira, maio 22, 2014

O grande detalhe



Quando o horário de serviço da moça que trabalha comigo acabou, ela saiu, falou tchau para todo mundo, como em todos os dias, e meteu-se porta afora para a liberdade condicional (que duraria até a hora em que abrisse os olhos após uma noite mal dormida, no dia seguinte) - com dois empregos de meio período, não sobra muito tempo para fazer algo que não seja descansar.

Ela pensava em que série de tevê baixaria na internet quando colocou a mão dentro da bolsa e só tateou a caixa de lenços umedecidos e uma blusa fininha, que corta vento. Empalideceu. Mas logo pensamentos sobre furtos deixaram sua mente: ela havia esquecido o celular no trabalho, ao lado do computador, tinha certeza.

Estava embaixo da terra. Havia pago a passagem de metrô, pego fila e passava aperto quando percebeu a falta do aparelho. Primeiro, ela xingou o azar e a própria "burrice". Depois, percebeu que tinha uma decisão rápida a tomar, e a tomou: deu meia volta, enforcando preciosos minutos (ou até horas) de seu concorrido dia.

Mesmo um narrador onisciente, como eu, tem dificuldade para saber se a decisão foi tomada devido a uma questão de vida ou morte ou por causa de uma "futilidade". E se a opção fosse a segunda, quem a condenaria? Quem não é viciado em joguinhos? Quem não olha as atualizações em curtos períodos de tempo? Quem não manda mensagens, marca encontros, faz ligações, agenda tarefas? Ninguém atirou a pedra. E se atirassem, aposto, ela não se importaria.

Percorreu todo o caminho que havia recebido seus pés ligeiros (agora ainda mais rápidos) há pouco. Quando retornou ao escritório, fez uma careta constrangida e disse que o seu dia não era dos melhores. Pegou o celular e se foi novamente, sem deixar tempo para reprovações ou compreensões dos colegas e do chefe.

O tempo, implacável, riu-se e jogou algumas pás de terra sobre a cabeça da moça. Era uma terra comum, comprada diretamente com os patrões dela. Tinha bastante, o suficiente para enterrá-la, de pouquinho em pouquinho, e junto com o celular.

sexta-feira, maio 16, 2014

Diálogo expositivo ou perda de tempo lendo um texto inútil



-Por que um diálogo?

-A ideia flui mais rápido. Há um confronto constante sobre o que é dito e é preciso achar brechas para superá-lo. De uma certa maneira, você é colocado à prova e isso faz com que o leitor tenha uma sensação de entendimento maior - não que isso ocorra em todos os diálogos, mas nesse tipo citado especificamente, é essa ideia.

-Mas pra ele de fato acontecer, não basta eu perguntar e você responder. Eu tenho que desenvolver argumentos e também refutar os seus. Ou pelo menos fingir que refuto.

-Sim. Veja, você pode conceber um texto entrevistando vinte pessoas e fazer com que ele seja, na verdade, um texto expositivo, que defende uma única ideia, vinda de diversas bocas.

-Não é tão simples. Há matizes de pensamentos, diferenças que podem ser desenvolvidas ou suplantadas quando se fala com mais gente, mas quem monta o resultado final, sem dúvida, defende uma ideia, mesmo que ela não seja tão bem definida.

-Isso.

-Refutei no início do parágrafo para concordar no final - mais uma parte da técnica de aceitação por parte do leitor, que agora está entendendo tudo e bem convencido de nosso maravilhoso argumento. Talvez só esteja com a dúvida a respeito do propósito.

-Do diálogo?

-Podemos chamar desse nome?

-Por que não?

-Sim, do diálogo. Qual o propósito?

-A ironia em si já não é um propósito? Fazer uma pessoa ler um texto inteiro em forma de diálogo entre duas pessoas que são uma só já não é um argumento válido?

-Eu acho insuficiente. A linguagem verbal permeia toda a existência da vida de uma pessoa. Destrinchar uma forma persuasiva pode, sei lá, ser didático para os leitores até.

-(Risos) Se essa fosse a intenção, eu teria escrito uma tese acadêmica. Minhas intenções, tenho certeza de que o leitor percebeu, são menos nobres. Mas para você não dizer que é apenas um texto inútil, saiba que a leitura estimula áreas da imaginação que ficam adormecidas quando você assiste a um vídeo ou vê televisão, por exemplo.

-Sim. Agora o leitor pode imaginar duas pessoas sentadas uma na frente da outra, vestidas de formas diferentes - um deles de bermuda e chinelo, com cabelo comprido e perna cruzada, apoiando a cabeça no braço direito e fumando um cigarro, e outro de terno e gravata, estilo que não se senta enquanto não é convidado a tal e que sua dentro do paletó para não perder a elegância, tendo essa conversa surreal, mesmo sabendo que ambos estão dentro numa cabeça só, como já foi dito umas duas vezes aí em cima.

-O leitor já entendeu, não só isso, como o argumento do texto. Mas preciso falar só mais uma coisa antes. Na verdade, pra fechar o assunto. A mágica da metalinguagem. Você já reparou como a metalinguagem tem um quê de espetacular? Ela está sempre um passo a frente, talvez de um jeito meio desleal (estou sendo desleal? Estamos sendo desleais?), pois desloca o eixo do assunto para um questionamento do próprio contexto que o envolve. Ao mesmo tempo, faz pensar: o que que eu tô fazendo lendo essa merda?

quarta-feira, maio 07, 2014

Kardec e a insustentável leveza do futebol


Noutro dia, fui surpreendido com a notícia de que Alan Kardec, o melhor jogador do Palmeiras, iria realmente deixar o clube para acertar com um rival – o São Paulo. No começo, não acreditei muito nas especulações da imprensa, já que sempre que o Palmeiras vai mais ou menos bem em alguma competição, ela cava negociações dos destaques do time (Wesley e Valdivia também foram cogitados fora do Palmeiras após a razoável campanha no Paulista e a vitória sobre o Criciúma na primeira rodada do Brasileiro). Consequência de anos a fio de times pouco competitivos.

2014 é o ano do centenário do alviverde e o que deveria ser um ano de comemoração fica dramático para um time que vai lutar, no máximo, para ficar no meio da tabela do Campeonato Brasileiro. Sem me alongar nas repetições de análises de especialistas e apaixonados (pois esse não é o foco da postagem), sem dúvida foi um vacilo da diretoria (que tenta sambar num pé só para lidar com enormes dívidas), mas que não justifica a humilhação sofrida: há perda técnica para o time, para o moral dos jogadores, para o planejamento da temporada, além da questão simbólica de acabar fazendo como os times pequenos, que não conseguem segurar seus principais atletas devido ao fator grana, apesar de toda a grandeza do Palmeiras.

E mesmo eu já tendo 28 anos, bateu aquele tipo de tristeza bem parecida com a que ocorre quando algo dá muito errado na vida (demissão de um emprego, brigas com grandes amigos, etc.). Fiquei de mau humor por uns três dias. Era só pensar em Palmeiras (coisa muito recorrente) para bater uma dorzinha no peito.

Era pra tanto? Certamente que não, mas futebol é uma coisa, convenhamos, difícil de explicar. Só que, pelo menos, o caso trouxe à minha mente a reflexão sobre a força meio infantil e sem sentido que o futebol, com relação a todo o universo que envolve um torcedor fiel de uma equipe, tem.

Em 99% dos casos, é uma influência que vem de cedo e costuma ter motivação familiar – raras vezes o esporte bretão angaria um novo apaixonado se este já ultrapassou a adolescência. O jogo coletivo dos poucos, mas prazerosos tentos, dos esquemas táticos variáveis em que o brilho individual costuma prevalecer perante brucutus (mas nem sempre), e das torcidas apaixonadas agarra o nosso coração e, quando isso acontece, costuma durar até o fim da vida. Mesmo quem viu craques do nível de Ademir, Leivinha e Cesar Maluco, rende-se à explosão de alegria de um gol de Marcão (o zagueiro/lateral esquerdo, não o São Marcos), de Robert ou de Marquinhos Gabriel, jogadores que não deveriam sequer ter tido a chance de envergar o manto palestrino.

A felicidade de um gol, de uma vitória ou da conquista de um campeonato é tão intensa para um torcedor fanático que parece que foi ele o responsável por tudo isso – vide a alta quantidade de superstições esdrúxulas dos exaltados em jogos decisivos. Ele se sente confiante em vários âmbitos da vida com o resultado positivo. Pode zuar os amigos torcedores de times rivais, vestir, orgulhoso, a camisa de seu time enquanto desfila pelas ruas, altivo.

Nas derrotas, a mesma lógica com a situação invertida: não foi o torcedor que montou esquema tático, contratou os jogadores ou deu palestras motivacionais na véspera de uma partida importante, mas a sensação de derrota, humilhação e abatimento é mais aguda do que nos próprios onze penas de pau. 

A realidade, porém, é que o torcedor pouco interfere na campanha de um clube e é daí que vem o aspecto infantil da coisa. Racionalmente falando, não há uma motivação clara para você gostar mais de um clube do que de outro. Algum torcedor já vasculhou a história de vários times antes de combinar sua gratidão eterna com algum deles? Comparou ídolos? Ponderou qual era o uniforme mais bonito? Duvideodó.

Mas uma camisa pirata dada de presente pelo pai, o gosto predileto por uma cor que coincide com as ostentadas pelo escudo do clube ou um gol emocionante numa final de campeonato que  foi assistida quando a TV estava ligada por acaso (tudo isso, geralmente na infância) podem fazer com que o seu coração seja eternamente devoto de um time, a ponto de a perda de um jogador que está longe de ser um dos mais importantes da história da agremiação fazer com que você perca o humor. E por três dias.

Um motivação simples, pouco profunda e muito mais sensorial que racional pode ter um peso insustentável (parafraseando em outro contexto o famosíssimo "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera), com a propriedade de proporcionar espasmos de alegria ou tristeza ao longo de toda a existência.

Será que vai ser sempre assim? Será que, num mundo diferente, em que o fator predominante para um jogador escolher este ou aquele time não for o dinheiro, seremos ainda tão fanáticos? Será que não somos tão loucos por assistir futebol porque soltamos nossos fantasmas dos dias de trabalho alienado em frente à televisão? Será que se tivéssemos mais lazer e mais times amadores as coisas seriam diferentes?

Tenho minhas suspeitas, mas, sinceramente, não sei. Só tenho a certeza de que meu coração vai morrer verde e branco, chorando com os vexames e sorrindo com as conquistas.
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Metalinguagem: fazia realmente muito tempo que eu não falava sobre futebol por aqui.