Mercy Zidane: Janeiro 2008

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Não cultivo amizades

É triste, mas é a realidade. Apesar da minha confesa timidez, acho que não demoro muito para fazer amizades, mas tenho uma preguiça monstruosa de cultivá-las.

Estou falando desse tema porque minha mãe estava dando uma geral no meu armário e separou diversos cartões de natal, de aniversário e cartas que amigos de várias épocas enviaram a mim em algum momento de suas vidas.

Quando terminei de ler as cartas, constatei que não mantinha contato estreito com nenhuma pessoa, apesar de ter estima por várias delas.

Mas elas não tinham orkut, e-mail, msn? Tinham. Realmente, não tenho desculpa. A única coisa que consigo pensar é que as amizades da faculdade sejam mais fortes, quem sabe?

Veremos. Para os meus amigos atuais, peço que continuem a entrar em contato comigo quando o curso de jornalismo acabar, porque se depender de mim, por mais que eu preze a amizade de vocês, o risco é alto.
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Metalinguagem: aproveitem, não costumo escrever posts tão pessoais quanto este.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Quando o assunto é Lula

Depois da vivência adquirida com três anos de faculdade de jornalismo e do contato com o movimento estudantil e com algumas matérias (como Realidade Socioeconômica Brasileira) que mudaram meu modo de entender a política, tenho uma opinião formada sobre o nosso atual presidente.

Básica e sucintamente: quando tomou posse, ele não conseguiu ir contra todas as alinças que fez para chegar ao poder (muitas delas com pessoas conservadoras). Além disso, não efetivou um projeto que realmente pudesse dar condições aos brasileiros para mudarem de vida (no caso, o Fome Zero), restando apenas o bolsa família. Seguiu a cartilha conservadora de FHC em vários aspectos. Ou seja, o petista que se dizia tão de esquerda não é muito diferente dos conservadores que governam nosso país desde sempre.

Beleza. Agora imagine uma situação do tipo: eu estou vendo tv e algum familiar comenta, após uma notícia sobre o presidente:

-Nossa, esse Lula é um sem vergonha. Esse governo só fez porcaria.


É, ele pode não ser sem vergonha, mas fez muita porcaria. Só que se eu concordar, vou dar a entender que concordo com o meu parente e que a solução para o Brasil é Alckmin, Aécio ou Serra.


Até eu explicar que Lula e o PT não são mais tão "de esquerda", meu familiar já estará di
zendo as maravilhas dos governos tucanos e não prestará atenção a uma palavra minha.

Resumindo: as pessoas ainda não entendem que o governo Lula não representa os ideais da esquerda brasileira. Concordar com as pessoas que atacam o presidente é aceitar o conservadorismo ou se desdobrar para "incutir" a idéia que existem pensamentos mais esquerdistas do que os de Lula. Mas é preciso paciência, pois a imagem que Lula e o PT construíram ao longo de mais de 20 anos de militância ainda pesa no imaginário popular, ao ponto da palavra "petista" ser praticamente associada à expressão "esquerdista radical".

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Metalinguagem: a situação é meramente ilustrativa, mas já chegou a ocorrer algumas vezes e, confesso, desisti de tentar explicar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A fluidez do trânsito em segundo plano, ainda bem

Como de costume, eu estava ouvindo a rádio Jovem Pan enquanto comia alguma coisa na cozinha da minha casa, lá para umas 6 da tarde da última segunda-feira.

Acontece que, nesse mesmo dia, a prefeitura de São Paulo estava colocando em prática a implantação de um corredor especial para motos na avenida 23 de maio (em caráter experimental), das 10h às 16h. E como eram 6 da tarde, a nobre emissora já dava seus pitacos na experiência kassabiana.

Os jornalistas nem se preocupavam em ser contidos ou não explicitar opinião (o que não é ruim), metiam a boca geral. Diziam que o trânsito tinha dobrado, que para percorrer um trecho que demorava 50 minutos o motorista estava levando duas horas, que era um absurdo, etc.

Um dos jornalistas fez uma longa matéria sobre o tema. Dos motoristas de carros entrevistados, todos eram contra a medida. Não houve motoboys entrevistados (o que é um tremendo absurdo). O único que pôde falar foi um representante da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O diálogo foi mais ou menos assim:


Repórter: Sr. Fulano, você não acha que a medida vai piorar o congestionamento em SP?

Representante da CET: Sim, nós prevíamos que iria haver um aumento na lentidão, mas há vidas de motociclistas em jogo.

Repórter: O senhor quer dizer que a fluidez do trânsito fica em segundo plano?

O que me resta dizer, olhando atônito para o rádio? VAI TOMAR NO CU!
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Metalinguagem: enquanto escrevia esta postagem, lembrei-me do documentário Motoboys: Vida Loka. Procurei o trailer para colocar aqui, mas não achei. Assista, vale a pena.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

17 dias, 2 livros, 6 filmes, 1 jogo de futebol

Esse é meu saldo "cultural" até aqui nesse ano. Abaixo segue a relação de cada livro, filme e jogo de futebol, com um breve comentário pra cada:

Livros

Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac: li-o em umas 3 sentadas, num único dia. Não gostei muito do estilo, mas achei interessante pelo fato de tratar, entre outras coisas, sobre o mundo impiedoso e cheio de interesses que marcou a imprensa na França no século XIX. Pelo visto, a coisa não mudou muito de lá pra cá.

Mosca Azul, de Frei Beto: desbancou Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, como o melhor livro não-ficção que já li. Mosca Azul faz uma reflexão sobre o poder e suas tentações, sobre o PT e sua deformação sofrida no caminhar rumo ao governo, sobre propostas por uma sociedade realmente democrática, além de várias outras coisas. Você termina o livro querendo ler Maquiavel, de tanto que é citado. Definitivamente vou lê-lo de novo muito em breve.

Filmes

Profissão Repórter: tão chato, mas tão chato, que dormi várias vezes do início ao fim. Se bem que já dormi em vários filmes bons, portanto isso não é bem lá um critério...mas que é muito chato, isso é. Com Jack Nicholson.

Sobre Café e Cigarros: pouco mais de meia dúzia de conversas reunidas em um filme em que os únicos elementos obrigatórios são justamente os que dão nome ao filme. Algumas histórias são maçantes, mas outras são sensacionais. Sem falar que as imagens são feitas em um preto e branco impecável. Encomendo e recomendo!

A Culpa é do Fidel: tão ligado Machuca? Esse filme segue a mesma lógica: a política vista sob perspectiva de uma criança. Só que esse é muito mais engraçado e, de certa maneira, mais
crítico sobre algumas questões que envolvem a dualidade capitalismo x comunismo. Valeu o ingresso de cinema.

Sombras de Goya: filme de época, que se passa no período napoleônico, na Espanha, quando a Santa Inquisição tenta voltar à ativa. Apesar de depois, lendo críticas, eu ter realmente constatado falhas no roteiro e uma má atribuição de papel a alguns personagens (como o do próprio Goya, pasmem), a película fez valer os 8,50 gastos. Odeio jargões de críticos de cinema, mas tenho que dizer que o figurino é estonteante e as atuações de alguns dos atores são irretocáveis. A cena que encerra o filme é surreal.

O Nome da Rosa: fazia uma caaaara que queria ver esse filme. Me decepcionei. Ao final, comecei a achar que a fama de O Nome da Rosa deve ser mais pelo livro do que pelo seu homônimo da sétima arte.

Estado de Sítio: bom, muito bom, apesar de me questionar enquanto assistia se eu não estava me forçando a achar bom. É do Costa Gavras, diretor bastante renomado pelo cinema político. O filme é uma crítica ao período ditatorial na América Latina, que teve benção e dízimo dos Estados Unidos. Recomendo, mas assista-o de dia, pois o risco de adormecer (não tem muita trilha sonora) não é pequeno.

Jogo
Rio Claro 2 x 0 Paulista: poucas horas antes me peguei com gripe, poucos minutos antes não encontrava o ingresso (obrigado mãe) e com o jogo já começado começou a chover. Doente e no setor descoberto, me fodi. Estou mais gripado ainda, me sinto totalmente indisposto, só que feliz - afinal, depois de tanto tempo, pude ver o Azulão aniquilar mais uma vítima, nas estréias dos refletores do Shimitão.
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PS1: amanhã tem início meu retiro espiritual de 14 dias em Ubatuba. Durante esse tempo, pretendo ler, pelo menos, 3 kilos de livros. Vou começar com Auschwitz - A Doctors Eyewitness Account, de Dr. Miklos Nyiszli, em inglês. Haja dor de cabeça.

PS2: outros livros que estou levando: Rota 66, Ensaio Sobre a Cegueira, Raízes do Brasil e Crime e Castigo.
PS3: ainda nessa idéia de leituras em inglês, me superestimei totalmente ao tentar ler Crime and Punishment, de Dostoiévski. Eram cerca de 700 páginas. Desisti na terceira, depois de uma piscada de 10 segundos, às 3 e 35 da manhã da última terça.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A esperança é verde

1993. Não me lembro ao certo se foi em junho ou em julho, só sei que foi num desses meses que ocorreram os dois jogos da final do Capeonato Paulista. Os times que brigavam pelo título eram os maiores rivais paulistanos: Palmeiras e Corinthians.

Na escola, não se falava em outra coisa. Eu, palmeirense fanático, ostentava minha única camisa do Palestra durante a aula semanal de educação física, mesmo que a turma não estivesse jogando futebol.

No fim de semana, o primeiro jogo do final. Sem mais delongas, vitória do Corinthians por 1x0, com um gol de Viola. Como se isso não bastasse, o autor do gol corintiano imitou um porco (símbolo do Palmeiras) na comemoração. Fiquei com uma raiva desgraçada!

Na aula de educação física da semana seguinte, não temi chacotas ou provocações: fui com a minha camisa do Palmeiras novamente. Eis que o corintiano (e provocador) professor trava um diálgo mais ou menos assim comigo:

-Xiii, você ainda acredita na porcada?
-Claro que sim! Tem Evair, Edmundo...
-Olha, aposto com você. Se o Corinthians for campeão, você veste a camisa do Timão. Caso contrário, eu visto a do Palmeiras.
-Apostado!

E após o cumprimento, selamos a aposta. Não sei de onde eu tirava tanta convicção. O Palmeiras não ganhava um campeonato havia 16 anos. Todo o regulamento da final favorecia o Corinthians, pois o Verdão precisava vencer por mais de um gol de diferença no tempo normal e depois ainda empatar na prorrogação. Mesmo assim, nada abalava minha convicção.

Chega o grande dia e eu vou com meu pai ao templário bar do Cezinha para assistir à final. Enquanto todos ficavam surpresos com os gols alvi-verdes que surgiam um apó o outro, eu apenas agradecia a Deus os pedidos feitos à noite, antes de dormir para que o Palmeiras ganhasse; eu apenas confirmava minha certeza, minha ingênua e infantil certeza.

Depois dos 4x0, dos pulos, da vibração, do grito de campeão, meu pai me comprou uma bandeira do Palmeiras e saímos à rua para comemorar a conquista. Foi um dos melhores dias da minha vida.

Mas o melhor ainda estava por vir. O professor, além de vestir a camisa do Palmeiras, deu-a para mim, no dia do meu aniversário, em agosto.

Eu tinha 7 anos.



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Tudo isso para dizer que, finalmente, depois de nove anos de jejum sem perspectivas, o Palmeiras monta um time com chances de ser campeão. A convicção não é a mesma da infância, mas a esperança é verde.

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Metalinguagem: texto inspirado no curta Uma História de Futebol, de Paulo Machline. A história não tem nada a ver, mas como fiquei bem emocionado com o filme, resolvi escrever esse texto para me lembrar de um momento marcante do futebol na minha infância.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Estou viciado em documentários

Comecei a assistir documentários nas férias de janeiro do ano passado. Isso porque a Tati tinha acabado de ter aula de Telejornalismo II e ficava falando de diversos filmes de tal estilo para mim.

Nessa época, eu assisti Justiça, Ônibus 174 e Prisioneiro da Grade de Ferro. Assistia, achava legal e só.

Depois das aulas de Telejornalismo II em que tive contato com diversos documentários consagrados, com alguma teoria sobre o assunto e fiz o meu próprio doc, comecei a enxergar o lance com outros olhos.

Tento prestar atenção no modo como o roteiro é feito, nos ângulos utilizados para a filmagem, na trilha sonora, mas o que mais me atrai no documentário é o fato de ser uma coisa real. É claro que as pessoas entrevistadas por um jornalista com uma câmera interpretam personagens e também “atuam”, e que o filme é uma produção. Mas é muito foda você conseguir depoimentos que não foram combinados e que expressam o sentimento (mesmo que “interpretado” para as câmeras) daquelas pessoas. Você tem que fazer um filme, mas não sabe se aquelas pessoas vão falar coisas legais ou não. É uma tensão enorme e que muitas vezes expressa um sentimento impossível de se conseguir em filmes de ficção.

O pior é que na locadora que eu pego filmes, os documentários são relegados a um espaço secundário. Eu sei que esse tipo de produção não é muito popular, mas depois de assistir a um filme fudido, como Fala Tu, eu penso: “Porra, mas por que um documentário desses não é popular?”

Para mim, a resposta é a seguinte: pensa-se que documentário é aquele tipo de filme chato sobre “A vida sexual dos albatrozes das Ilhas Galápagos”, como diz minha tia Beth. Ou seja, muitos pensam em documentários como filmes chatos, o que é um erro hediondo.

Só para fazer jus ao título desse post, aí vão os meus “conhecimentos adquiridos sobre documentários nestas férias: li Introdução ao Documentário Brasileiro, de Amir Labaki e assisti aos filmes Fala Tu, Cabra Marcado Para Morrer, Santo Forte, Motoboys Vida Loka e O Cárcere e a Rua.

Para fechar o post com chave de ouro, assita ao trailer do novo filme do Coutinho, Jogo de Cena (que mistura ficção com realidade), que eu ainda não assisti, mas ouvi dizer (do Alan) que é muito bom.


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Metalinguagem-dica: descobri o site www.eduardocoutinho.blogspot.com em que é possível baixar diversos filmes do Coutinho. Eu já baixei dois (um tava com pau, mas valeu a pena).

sábado, 5 de janeiro de 2008

A semana da pasmaceira

Vou começar 2008 falando de uma injustiça cometida anualmente com certos dias do mês de dezembro.

Dizem que, no Brasil, o ano só começa depois do carnaval. Eu discordo, mas não há como negar que a semana seguinte ao natal é a mais morta do ano, principalmente em se tratande de jornalismo.

Todas as fontes oficiais (as preferidas da grande mídia) estão de férias. O que resta é fazer as matérias sazonais de como está a movimentação nos principais centros comerciais das cidades e nos mercados.

O que é pior são as tais retrospectivas. Nada contra, eu gosto de relembrar o que aconteceu durante o ano. O problema é que, devido à pasmaceira jornalística e aos buracos nas grades de programação, as retrospectivas são exibidas no dia 27, 28 ou até no dia 26.

A pergunta é inevitável: e o resto dos dias? Ficam excluídos do ano?

Paulo Autran morreu em outubro e teve uma ampla e merecida (apesar de repetiviva) cobertura da mídia. Imagine se ele morresse no dia 28 de dezembro. Só na retrospectiva 2008.
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Metalinguagem: esse post não seria possível se eu não de férias, época em que assisto bem mais tv do que nos meses úteis do ano. Pelo menos eu também acabo lendo mais nesse período.